O Caótico Mundo e o Socialismo Municipal
Políticas Públicas

Por Marcia Moussallem
Recentemente estava conversando com uma amiga gaúcha sobre o mundo caótico que vivemos. Transitamos entre as questões ambientais e climáticas, crise habitacional e de infraestrutura das cidades, geopolítica mundial, as consequências nefastas nas relações em todas as esferas, o aumento desenfreado da violência no âmbito público e privado e o adoecimento mental da grande maioria das pessoas.
Depois de algumas angústias que assolavam a nossa conversa, logo demos vazão ao otimismo, enfatizando a importância das inúmeras lutas e resistências que presenciamos no passado e no presente. Iniciativas muitas vezes tímidas, mas fundamentais perante a guerra de narrativas e a hegemonia destrutiva do sistema do capital.
Nessa arena ressurge a utopia do “Socialismo Municipal” como possibilidade de construção de um projeto de qualidade de vida no âmbito local. No artigo “Socialismo em uma só cidade?”, da historiadora Alexia Blin, publicado na Le Monde Diplomatique Brasil, a autora destaca que o socialismo municipal foi fruto da segunda industrialização, sob o efeito das questões econômicas e demográficas. “O socialismo municipal dessa época não se construiu em uma só cidade, mas no seio de uma vasta rede, nos três continentes. As relações se teceram no interior da II Internacional, cujo Congresso de Paris (1900) aprovou uma resolução recomendando a elaboração de programas municipais (…) laços orgânicos entre os eleitos, poderosas instituições populares-sindicatos e cooperativas fortaleceram o socialismo municipal (…)”.
Cabe salientar que a relevância de tais iniciativas, com vista à melhoria das condições de vida dos trabalhadores presentes nas cidades, impactaram a saúde pública, a educação, o trabalho, e a infraestrutura (eletricidade, água, transporte, gás, etc.).
Porém, Alexia chama a atenção para algumas polêmicas referentes as diferentes tradições da esquerda, de um lado os defensores “reformistas” das iniciativas municipais, e do outro os “marxistas ortodoxos”. Desafios inerentes nas diferentes conjunturas de guerras ideológicas continuas.
Entretanto, apesar dos novos desafios do século XXI, frente ao enfraquecimento das identidades e causas coletivas, diante do crescimento de pautas individuais e fragmentadas, também resgatamos na atual conjuntura, embriões e possibilidades de atuação do poder local, por meio das organizações da sociedade civil, movimentos sociais e instituições comprometidas com os programas de políticas públicas.
Por fim, mesmo diante do mundo caótico que vivemos, a utopia de que um outro mundo é possível sempre existirá e sempre resistirá. Que o ressurgimento do Socialismo Municipal nos aponte para essa direção.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
