GIFE celebra 30 anos com reflexão sobre o Investimento Social Privado no Brasil
Cultura de Doação“A série de produtos que o GIFE lançou, no marco dos 30 anos da instituição, mostra os desafios de cada tempo na constituição da trajetória da organização”, comenta Gustavo Bernardino, Gerente de Programas e Práticas da Filantropia do GIFE

Para comemorar os seus 30 anos de atuação, o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE) lançou uma série de conteúdos inéditos, como a publicação “GIFE 30 anos – A trajetória da maior rede de Investidores Sociais Privados do Brasil”.
O documento foi organizado por décadas e elaborado a partir de entrevistas com lideranças que moldaram a filantropia no país. Nesse sentido, o seu propósito é convidar o campo do Investimento Social Privado (ISP) a olhar para trás com orgulho e para frente com a certeza de que a filantropia e o ISP são peças-chave para o Brasil do futuro.
A publicação é dividida em 3 partes, as quais retratam os contextos, desafios e avanços de cada década de atuação do grupo. Para o gerente de Programas e Práticas da Filantropia do GIFE, Gustavo Bernardino, a construção do documento “GIFE 30 anos” gera reflexões que vão em duas direções: uma voltada ao próprio GIFE e outra mais relacionada ao setor da filantropia.
“No primeiro caso, percebemos que o lugar que o GIFE ocupa no ecossistema da filantropia e do Investimento Social Privado (ISP) – bem como suas relações, oportunidades e desafios envolvidos nisso – se manifestava décadas atrás e até hoje se mantém; certamente, fruto da natureza associativa do GIFE e das articulações que foram sendo alicerçadas ao longo deste tempo”, diz.
No segundo aspecto, Bernardino destaca o papel do documento em revisitar a trajetória do ISP no Brasil. “Mostra que muito do que floresceu a partir dos anos 90 em relação às organizações sociais no Brasil – a exemplo de pessoas associando-se livremente para atuar por alguma causa – tem a ver com o retorno do país a um ambiente democrático, no qual as condições propícias a essas manifestações voltaram a ser habilitadas.”
Conforme o gerente de Programas e Práticas da Filantropia do GIFE, o caminho para esse florescimento permaneceria interditado se não houvesse retorno da democracia no país, em meados dos anos 80.
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O futuro do GIFE e do Investimento Social Privado
A celebração dos 30 anos do GIFE serve não só como um momento de reflexão sobre o que já foi feito, mas também para planejar o que está por vir. Pensando no futuro e nos objetivos do grupo, Bernardino diz acreditar que a quarta década do GIFE marcará um período em que a filantropia trabalhará de forma mais orientada para mudanças sistêmicas.
“Isso significa tanto atuar para que o Brasil possa enfrentar o que mais precisa – suas mazelas e a indignidade com que vive parte expressiva da população – quanto admitir um olhar mais horizontalizado e com real desejo e intenção de aprender e reorientar sua própria atuação a partir do que acontece nos territórios”.
Segundo ele, isso deverá ocorrer em meio a um contexto de esgarçamento do ambiente político-social. “São grandes os desafios e a filantropia precisará ter ainda mais resiliência e senso de urgência”, conclui Bernardino.
Entrevista completa
A seguir, confira a entrevista completa do Observatório com Gustavo Bernardino, gerente de Programas e Práticas da Filantropia do GIFE.
Quais descobertas ou reflexões surgiram durante o processo de pesquisa e elaboração do documento GIFE 30 anos?
As reflexões vão em duas direções: uma mais voltada ao próprio Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE) e outra mais relacionada ao setor da filantropia institucionalizada no Brasil.
No primeiro caso, percebemos que o lugar que o GIFE ocupa no ecossistema da filantropia e do Investimento Social Privado (ISP) – bem como suas relações, oportunidades e desafios envolvidos nisso – se manifestava décadas atrás e até hoje se mantém; certamente, fruto da natureza associativa do GIFE e das articulações que foram sendo alicerçadas ao longo deste tempo. Disso também deriva a capacidade da organização de se adaptar ao longo do tempo em função das mudanças na conjuntura social, política e cultural do país.
Já no segundo caso, revisitar essa trajetória mostra que muito do que floresceu a partir dos anos 90 em relação às organizações sociais no Brasil – a exemplo de pessoas associando-se livremente para atuar por alguma causa – tem a ver com o retorno do país a um ambiente democrático, no qual as condições propícias a essas manifestações voltaram a ser habilitadas. Se não fosse pelo retorno da democracia, o caminho para esse florescimento permaneceria interditado.
Como a publicação ajuda a compreender a evolução do investimento social privado no Brasil?
A série de produtos que o GIFE lançou no marco dos 30 anos da instituição – além da publicação, vídeos de cada uma das décadas e videocast com entrevistas de lideranças do GIFE – mostra os desafios de cada tempo na constituição da trajetória da organização.
A primeira década marca a fundação de uma associação de organizações interessadas em promover iniciativas voltadas ao bem comum a partir da mobilização e transferência de seus próprios recursos financeiros. À medida que isso vai crescendo naqueles primeiros anos, o GIFE passa pelo desafio de se inserir junto a esses novos atores que vão se formando e atraí-los para um espaço de reconhecimento, colaboração e trocas de conhecimento que, em essência, marca a instituição.
Já na segunda década, as questões voltavam à busca da ampliação e do fortalecimento da institucionalização do setor, garantindo a perenidade do Investimento Social Privado como ator de transformação social e legítimo para contribuir com as questões do país. Nisso estavam envolvidas questões de transparência e prestação de contas do setor, apoio a organizações da sociedade civil, desenvolvimento do exercício da avaliação do impacto e da governança das organizações.
Após esse acúmulo reunido, a terceira década do GIFE passa a ser focada em garantir que o setor esteja mais vinculado a questões que demarcam uma sociedade desigual, como é o caso da brasileira. Novos temas, atores e questões emergem em nossa contemporaneidade: pandemia da Covid-19, enfrentamento às desigualdades raciais e de gênero, mudanças climáticas. Toda essa trajetória é recontada por meio dos produtos lançados.
Que conselho essa publicação deixa para as novas gerações de investidores sociais e lideranças do terceiro setor?
Eu entendo que fica marcado um campo em evolução: a constituição do GIFE em 1995 contou com menos de 30 organizações; hoje, já somos uma rede com mais de 170 associados. Ou seja: vem crescendo o número de empresas que realizam investimento social no país, bem como o de famílias de alta renda que se engajam com as questões do país, além dos múltiplos arranjos de mobilização de recursos privados para causas sociais que se desenvolveram desde então.
Há, ainda, muito mais espaço para crescimento se conseguirmos inspirar novos atores e termos um ambiente regulatório mais favorável à filantropia, o que impulsionará a cultura de doação no país.
Olhando para o futuro e para a 4° década de atuação do GIFE. Qual é o principal objetivo a ser cumprido e o maior desafio a ser superado no campo do Investimento Social Privado?
Acredito que a 4° década do GIFE marcará um período em que a filantropia estará trabalhando de forma mais orientada para mudanças sistêmicas.
Isso significa tanto atuar para que o Brasil possa enfrentar o que mais precisa – suas mazelas e a indignidade com que vive parte expressiva da população – quanto admitir um olhar mais horizontalizado e com real desejo e intenção de aprender e reorientar sua própria atuação a partir do que acontece nos territórios, que é onde a transformação de fato acontece. E isso deverá ocorrer em meio a um contexto de esgarçamento do ambiente político-social que impacta a nossa democracia e em um mundo que se torna muito mais exposto às mudanças climáticas que vêm ocorrendo fundamentalmente em função de ação antrópica.
São grandes os desafios e a filantropia precisará ter ainda mais resiliência e senso de urgência.
Sobre o GIFE
O GIFE é uma associação de investidores sociais privados do Brasil, sejam eles institutos, fundações ou fundos familiares, corporativos independentes ou empresas. Nascido como grupo informal em 1989, o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas foi instituído como organização sem fins lucrativos, em 1995. Desde então, tornou-se referência no país no tema do ISP.
