A mobilidade social está nos dados — por que continua fora do debate público?
Políticas Públicas
Por Vitor Hugo Neia
À medida em que o primeiro semestre de 2025 se encerra, um dado alarmante nos faz refletir: menos da metade dos brasileiros nascidos nas famílias mais pobres do país consegue superar a renda de seus pais. A constatação é do Atlas da Mobilidade Social, lançado recentemente pelo Instituto de Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), que analisou milhões de vínculos intergeracionais de renda no Brasil.
O levantamento aponta que apenas 49% dos filhos nascidos entre os 50% mais pobres ascendem na escala de renda em relação à geração anterior. Entre eles, somente 10,8% alcançam os 25% mais ricos da população e menos de 2% conseguem chegar ao topo da pirâmide, entre os 10% mais ricos. Ou seja, o “elevador social” está emperrado para a maioria da população — e o tema ainda não desperta o senso de urgência que deveria.
Esses dados são o retrato explícito da desigualdade estrutural no Brasil. O local de nascimento, a cor da pele e o nível de escolaridade dos pais ainda determinam, com assustadora precisão, as chances de uma pessoa ter uma vida melhor do que a da geração anterior. Isso não é apenas injusto — é ineficiente. Um país que não oferece oportunidades equitativas desperdiça talentos, bloqueia trajetórias promissoras e compromete seu próprio desenvolvimento.
O Atlas também revela disparidades regionais profundas: nas regiões Norte e Nordeste, cerca de três em cada quatro filhos de famílias pobres permanecem entre os menos favorecidos, enquanto no Sul essa taxa cai para dois em cada cinco. A diferença entre as regiões aponta que políticas públicas e condições estruturais importam — e que romper com o ciclo de pobreza é possível quando há um ambiente minimamente favorável à ascensão social.
Diante disso, a pergunta que se impõe é: por que a mobilidade social ainda está ausente do debate público? Por que seguimos discutindo desigualdade em termos genéricos, sem encarar os mecanismos que perpetuam a pobreza e impedem milhões de brasileiros de mudarem de vida?
Ao longo dos últimos anos, acumulamos estudos que escancaram as desigualdades brasileiras. Já é amplamente reconhecido que a pobreza se distribui de forma desigual entre territórios, raças e gêneros. No entanto, um aspecto permanece pouco discutido: a dificuldade concreta de romper com essas condições ao longo das gerações. A imobilidade social é menos visível que a pobreza, mas igualmente limitadora. Quando o esforço individual não encontra um ambiente favorável para florescer, o discurso do mérito perde força — e com ele, a confiança das pessoas nas instituições e na possibilidade de mudança real.
A mobilidade social deveria ser tratada como uma prioridade nacional — um compromisso de Estado e de sociedade. Não se trata de um conceito abstrato, mas de uma política concreta: promover as condições para que as pessoas possam estudar, trabalhar, empreender e acessar uma vida mais digna do que aquela que herdaram. Isso exige um ecossistema favorável, com educação pública de qualidade, formação profissional, acesso a crédito e apoio à geração de renda.
Na Fundação Grupo Volkswagen, atuamos com a convicção de que a transformação social exige mais do que boas intenções — exige foco, consistência e compromisso com o longo prazo. Por isso, em 2024, adotamos a mobilidade social como nossa causa única. Direcionamos nossos investimentos para territórios marcados por múltiplas vulnerabilidades, buscando fortalecer as capacidades locais e apoiar iniciativas que gerem inclusão produtiva, renda e autonomia. Nossa atuação se baseia no fortalecimento de organizações de base, na articulação com políticas públicas e na escuta ativa das comunidades. Mais do que apoiar ações pontuais, buscamos construir caminhos sustentáveis para que indivíduos e coletivos possam superar barreiras históricas e transformar realidades.
Mas a responsabilidade pela mobilidade social não pode recair apenas sobre iniciativas isoladas. É preciso um pacto entre os setores público, privado e a sociedade civil. Governos devem garantir políticas de transição escola-trabalho, combater a evasão escolar e investir em proteção social. Empresas precisam ir além do marketing social e assumir seu papel como agentes de mudança. E o investimento social privado deve ser cada vez mais estratégico, mensurável e direcionado à superação de barreiras estruturais.
A mobilidade social não é uma utopia. É uma construção possível — e absolutamente necessária. E ela começa com uma escolha: colocá-la no centro do debate, da política e do investimento. Que este segundo semestre de 2025 seja não apenas um ponto de reflexão, mas o início de um novo ciclo de compromissos reais com um Brasil mais justo, mais dinâmico e mais possível para todas as pessoas.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor
