A ONG que você ajuda (ou trabalha) mede impacto ou apenas atividades?

Impacto das ONGs
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Imagem: ChatGPT

 

Por Edmond Sakai

 

Li o artigo de Jeanne Bell, “What Are Key Performance Indicators (KPIs) to Measure Nonprofit Success?”, publicado pela Nonprofit Quarterly, e penso que é muito importante abordarmos um tema super relevante para o Terceiro Setor: como medir o sucesso de uma Organização Social por meio de indicadores-chave de desempenho (KPIs). A autora argumenta que, diferentemente das empresas, o desempenho de uma ONG não pode ser avaliado apenas por indicadores financeiros, pois o verdadeiro objetivo dessas ONGs é gerar impacto social e estou de pleno acordo.

Bell começa destacando que a mensuração de desempenho em ONGs é mais complexa do que no setor privado. Com efeito, enquanto uma empresa pode medir sucesso por lucro, crescimento de receita ou retorno ao acionista, as Organizações Sociais precisam avaliar mudanças sociais, fortalecimento comunitário, transformação de vidas e outros resultados que nem sempre são facilmente quantificáveis.

O artigo apresenta cinco questões fundamentais que toda liderança de ONG deve responder ao construir seus KPIs:

1.Como definir o que é um bom desempenho para a ONG?

2.Como alinhar essa definição com as expectativas de financiadores, Conselhos e demais stakeholders?

3.Como criar indicadores que façam sentido para a equipe e para a governança?

4.Como coletar evidências e dados de forma consistente?

5.Como evitar que os indicadores incentivem comportamentos equivocados ou distorçam as prioridades da Organização?

A autora enfatiza que KPIs não devem ser uma lista de tudo o que pode ser medido. Acho esta afirmativa bem colocada. Devem representar, segundo ela, um conjunto reduzido de indicadores estratégicos capazes de mostrar se a ONG está avançando em sua missão e mantendo sua sustentabilidade institucional.

Outro ponto importante é a distinção entre:

  • Indicadores antecedentes (leading indicators): apontam tendências futuras de sucesso, como número de inscrições em um programa.
  • Indicadores de resultado (lagging indicators): mostram se o resultado esperado foi alcançado, como percentual de participantes que concluíram um programa com sucesso.

O artigo recomenda que as Organizações utilizem dashboards para acompanhar seus KPIs e ressalta que os indicadores devem estar diretamente conectados aos fatores que impulsionam receitas, despesas e resultados dos programas.

A principal advertência da Bell é que muitas ONGs desenvolvem dashboards durante o planejamento estratégico, mas abandonam seu uso poucos meses depois. KPIs só produzem valor quando são discutidos regularmente, utilizados para aprendizado organizacional e ajustados conforme a instituição evolui.

Comparação com a realidade das ONGs no Brasil

O artigo descreve uma realidade bastante comum nas ONGs internacionais mais estruturadas, mas ainda distante da maior parte do setor social brasileiro.

Trago abaixo minhas cinco percepções, baseadas em minha experiência trabalhando em ONGs internacionais e nacionais, seja nos EUA, seja em nosso País:

  1. A maioria das ONGs brasileiras ainda mede atividades, não impacto

É comum encontrar Organizações acompanhando indicadores como:

  • Número de beneficiários atendidos;
  • Quantidade de oficinas realizadas;
  • Número de cestas distribuídas;
  • Quantidade de eventos promovidos.

Esses são indicadores operacionais importantes, mas raramente demonstram transformação social efetiva. Por isto que há críticos que os chamam de “métricas de vaidade”, pois são fáceis de medir.

Assim, a pergunta central continua pouco respondida: o que mudou na vida das pessoas atendidas?

Em um artigo meu de 2022 intitulado “A relevância de instituições sociais pensarem em mensurar seus dados (KPIs) e implementar ações de impacto”, dei exemplos de perguntas que deveriam ser feitas pelos dirigentes, financiadores e voluntários de uma ONG para de fato avaliar o impacto real de uma ação em uma dada localidade. Dá uma olhada lá no link acima.

Em muitas Organizações brasileiras, especialmente pequenas e médias, a cultura de avaliação de impacto ainda é incipiente. Precisariam explorar mais este tema.

  1. Organizações internacionais costumam ter maior maturidade em KPIs

ONGs internacionais atuando no Brasil normalmente trazem metodologias já consolidadas de monitoramento e avaliação (M&E: Monitoring and Evaluation). Organizações como World Vision International, Save the Children, Médecins Sans Frontières e The Nature Conservancy costumam trabalhar com algumas (ou todas) metodologias abaixo:

  • Marco Lógico: matriz visual/tabela que serve para planejar, monitorar e avaliar projetos, isto é, sua estrutura operacional;
  • Teoria da Mudança: ao contrário de um Marco Lógico, mapeia o caminho lógico que uma ONG percorre para alcançar um impacto social de longo prazo, ou seja, funciona mais como uma bússola estratégica explicando o porquê e o como a mudança ocorrerá;
  • Sistemas Digitais de Monitoramento e Avaliação: softwares que servem para coletar, centralizar e analisar os dados gerados pelo Marco Lógico e Teoria da Mudança;
  • Indicadores de Resultado;
  • Indicadores de Impacto;
  • Relatórios Periódicos de Aprendizagem.

Nesses casos, KPIs são parte integrante da gestão. Legal!

  1. O principal gargalo brasileiro é capacidade institucional

Mesmo quando existe interesse em medir resultados, muitas ONGs enfrentam dificuldades como:

  • Falta de equipe especializada;
  • Ausência de sistemas de coleta de dados;
  • Restrições orçamentárias;
  • Baixa maturidade tecnológica;
  • Financiamentos de curto prazo.

Frequentemente, o financiador exige indicadores, mas não financia a estrutura necessária para produzi-los. Dureza, né?

  1. O crescimento da cultura ESG está mudando esse cenário

Nos últimos anos, empresas financiadoras passaram a exigir métricas mais robustas para justificar investimentos sociais.

Institutos e fundações empresariais vêm demandando:

  • Indicadores de impacto;
  • Métricas de eficiência;
  • Indicadores de diversidade;
  • Métricas de governança;
  • Acompanhamento de resultados.

Essa pressão está acelerando a profissionalização do setor o que acho excelente.

  1. O problema não é a ausência de KPIs, mas a escolha dos KPIserrados

Uma das maiores lições do artigo da Bell para o contexto brasileiro é que muitas ONGs acabam medindo apenas aquilo que é fácil medir. Por exemplo:

  • Número de participantes;
  • Número de reuniões;
  • Alcance nas redes sociais;
  • Quantidade de materiais distribuídos.

Mas deixam de medir aspectos estratégicos como:

  • Retenção de doadores;
  • Custo da captação de recursos;
  • Satisfação dos beneficiários;
  • Engajamento dos voluntários;
  • Fortalecimento institucional: KPIs como taxa de retenção de talentos; proporção entre doações de indivíduos, empresas, milionários e de verbas governamentais; avaliação da eficiência operacional e tempo gasto em burocracias internas versus tempo dedicado à atividade-fim; e porcentagem do orçamento total investida na capacitação da equipe e infraestrutura;
  • Mudanças efetivas geradas nos públicos atendidos.

Já vi muito disso!

Se tivéssemos que posicionar as ONGs no Brasil em uma escala de maturidade de gestão por indicadores, a minha avaliação sobre o estágio atual do País seria a seguinte:

 

Nível Situação predominante
ONGs pequenas Medem atividades e prestação de contas básicas
ONGs médias Possuem alguns indicadores de resultado, mas pouca gestão baseada em dados
Grandes ONGs nacionais Estruturas formais de monitoramento, porém com níveis variados de sofisticação
ONGs internacionais no País Geralmente possuem sistemas maduros de KPIs e avaliação de impacto

 

O setor social brasileiro avançou significativamente na última década, mas ainda existe uma distância considerável entre medir execução e medir transformação social.

A principal mensagem do artigo da Bell para as ONGs brasileiras é que KPIs não devem ser vistos como uma exigência burocrática dos financiadores. Eles são instrumentos de gestão que ajudam a Organização a aprender, corrigir rumos e aumentar seu impacto social ao longo do tempo. Afinal, é preciso lembrar da famosa máxima de Peter Drucker: “o que não pode ser medido, não pode ser gerenciado”. É isso aí!

Boa sorte no avanço dos KPIs de sua ONG!

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Edmond Sakai

Edmond Sakai é advogado e professor. Foi diretor de ONGs como Operation Smile, Aldeias Infantis SOS-Brasil, Human Rights Watch-Brasil, The Nature Conservancy-Brasil e JCI. É mestre em Integração da América Latina pela USP e em Administração de ONGs pela Washington University in St. Louis. Foi professor de Direito Internacional na UNESP, de Gestão do Terceiro Setor na FGV-SP e Representante da JCI na ONU. Recebeu Voto de Júbilo da Câmara Municipal de São Paulo.