Copa do Mundo: o que fica de legado depois dos holofotes?
Impacto das ONGs

Por Wenceslau Madeira
A Copa do Mundo é, talvez, o maior símbolo de encontro entre povos que existe no esporte. Por isso chama atenção que a edição de 2026 tenha chegado cercada por debates sobre restrições, dificuldades de acesso e tratamentos desiguais a quem deveria fazer parte dessa celebração global.
A discussão vai além de questões logísticas ou organizacionais. O que está em jogo é a mensagem transmitida por um evento dessa dimensão. Se o futebol se apresenta como uma linguagem universal, a experiência da Copa precisa refletir esse princípio de inclusão e pertencimento.
É nesse contexto que o debate sobre legado ganha relevância. O impacto de uma Copa pode ser observado na qualidade dos jogos, nas estruturas construídas e, principalmente, na capacidade de ampliar acessos, criar oportunidades e gerar benefícios que permaneçam depois do encerramento da competição.
Mais de dez anos depois da Copa realizada no Brasil, essa continua sendo uma reflexão necessária.
Quando se fala em legado, normalmente pensamos no que é visível. Estádios, centros de treinamento, obras e equipamentos construídos para receber uma competição de alcance internacional. São ativos importantes, mas representam apenas uma parte da história.
Há um legado menos perceptível, distante das fotografias oficiais e dos relatórios de entrega. Ele aparece nas trajetórias das pessoas. Em diferentes regiões do país, estruturas utilizadas em 2014 ganharam novos significados ao passarem a receber projetos esportivos e educacionais.
Minha experiência na organização social De Peito Aberto ajuda a ilustrar esse processo. O Centro de Treinamento de Praia do Forte, em Mata de São João, no litoral da Bahia, utilizado pela seleção da Croácia durante o torneio, recebeu atividades esportivas para crianças e adolescentes da região. O mesmo ocorreu em outros espaços ligados à Copa de 2014, como a Arena Fonte Nova e o Estádio de Pituaçu, em Salvador, a Arena Independência, em Belo Horizonte, e a Arena Pantanal, em Cuiabá.
Em diferentes contextos, essas estruturas passaram a abrigar iniciativas voltadas à formação esportiva e cidadã. São exemplos de como equipamentos mobilizados para um evento global podem continuar servindo às comunidades muito depois do apito final.
Esse é um aspecto fundamental do legado material: ele só ganha valor quando permanece em uso. Uma arena vazia, um centro de treinamento sem atividade ou um equipamento público subutilizado representam oportunidades desperdiçadas. A infraestrutura cumpre seu papel quando amplia o acesso, estimula a prática esportiva e beneficia quem vive naquele território.
Mas limitar a discussão a esses espaços seria insuficiente. O esporte produz mudanças que não aparecem no concreto. Uma criança que passa a frequentar regularmente uma atividade esportiva desenvolve pertencimento, convivência e responsabilidade. Um adolescente que encontra no esporte um ambiente seguro fortalece seus vínculos com a escola, com a comunidade e com novas perspectivas de futuro.
São resultados menos visíveis, mas que costumam atravessar gerações.
Vale refletir, então, sobre uma tendência cada vez mais presente em diferentes setores: a valorização excessiva daquilo que é mais fácil de exibir.
Vivemos um período em que discursos sobre impacto, sustentabilidade e transformação social ocupam espaço crescente na comunicação de empresas e instituições. Isso é positivo. O problema surge quando a narrativa passa a receber mais atenção do que as ações que a sustentam.
No campo ambiental, esse fenômeno ficou conhecido como greenwashing: situações em que o discurso sustentável supera as práticas efetivamente realizadas. Na área social, algo semelhante também acontece. Campanhas ganham visibilidade, enquanto projetos enfrentam dificuldades para manter continuidade. A comunicação avança mais rápido do que os resultados concretos.
Transformação exige permanência, acompanhamento e compromisso de longo prazo. Exige compreender que mudanças sociais não acontecem na velocidade das campanhas publicitárias nem seguem o calendário dos grandes eventos.
Quando uma estrutura esportiva permanece ativa e acessível à comunidade, o legado se materializa. O mesmo acontece quando crianças, adolescentes e idosos seguem participando de atividades, criando vínculos, aprendendo e ampliando suas oportunidades. É nessa continuidade que reside o valor mais duradouro de qualquer grande evento.
A Copa do Mundo passa. Os jogos ficam na memória. As imagens permanecem nos arquivos. O legado, porém, é construído diariamente nos campos, quadras e espaços esportivos que seguem cumprindo uma função social.
As obras têm data para serem inauguradas. A transformação das pessoas não.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
