Desigualdade começa na infância e compromete toda a trajetória escolar, alertam especialistas
EducaçãoPesquisadores afirmam que a desigualdade afeta o aprendizado desde os primeiros anos de vida e defendem que escola e políticas públicas atuem juntas para romper esse ciclo

Por Vitória Serrão.
O Brasil está entre os países mais desiguais do mundo, seja pelo Índice de Gini, seja pela disparidade na distribuição do Produto Interno Bruto (PIB) entre os extremos da pirâmide social. Os reflexos dessa desigualdade podem ser observados no acesso a serviços básicos, como saúde, educação e emprego digno.
Apesar dos avanços registrados pela educação brasileira nas últimas décadas, as profundas desigualdades sociais ainda representam um dos principais desafios para o sistema de ensino diante das transformações tecnológicas e sociais contemporâneas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a necessidade de trabalhar é o principal motivo da evasão escolar entre os homens, sendo responsável por 61,2% dos casos de abandono dos estudos. Entre as mulheres, a evasão é frequentemente motivada pela gravidez e pela responsabilidade com os afazeres domésticos e os cuidados familiares.
Diante desse cenário, o programa Brasil ODS debate, em seu novo episódio “Impactos da desigualdade social na educação brasileira”. Apresentado pelo jornalista e fundador do Observatório do Terceiro Setor (OTS), Joel Scala, o bate-papo também contou com o apoio do colunista do OTS, Paulo Almeida.
A discussão está alinhada ao ODS 4 (Educação de Qualidade), ODS 10 (Redução das Desigualdades) e ODS 8 (Trabalho Decente e Crescimento Econômico) da Agenda 2030 e se desenvolve a partir da discussão de como a desigualdade social afeta diferentes etapas da trajetória educacional e os impactos desse cenário no futuro do trabalho e no desenvolvimento do país.
O Brasil se construiu de forma desigual
Para o professor doutor Ivan Siqueira, titular em Interdisciplinaridade da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e pesquisador nas áreas de educação básica, tecnologias digitais e inteligência artificial aplicada à educação, a desigualdade é um fator estrutural que atravessa toda a trajetória escolar.
“A desigualdade é uma variável, um vetor que perpassa todos os níveis e todas as dimensões da educação. Desde a educação infantil, crianças que crescem em ambientes com poucos estímulos têm prejuízos no processo de alfabetização, o que compromete o aprendizado de língua portuguesa e matemática. Essas dificuldades se acumulam ao longo da vida escolar, afetam disciplinas como física e química, dificultam a conclusão do ensino médio e limitam as oportunidades futuras. Uma dimensão estrutural da educação brasileira é exatamente a desigualdade”, afirma.
Já Nathalie Reis Itaboraí, professora da rede estadual de Minas Gerais e editora de publicações da Editora UFJF, destaca que a escola pode tanto reproduzir quanto combater as desigualdades sociais. A professora também defende que a redução das desigualdades depende de políticas públicas integradas, que vão além da educação.
“É preciso combater todas essas desigualdades ao mesmo tempo. A escola deve estar cada vez mais preparada para enfrentar esse desafio, mas também são necessárias políticas de renda, saneamento, segurança e combate à violência. Uma criança que cresce em um ambiente marcado pelo tráfico ou por milícias não tem as mesmas condições de aprendizagem. É um problema multifatorial que exige ações em todas as esferas”, conclui.
Acompanhe o Brasil ODS
O Brasil ODS é uma produção audiovisual do Observatório do Terceiro Setor (OTS), apresentado por Joel Scala, com o apoio da Fapesp — Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. A iniciativa é voltada à divulgação científica e ao debate público sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU.
O programa vai ao ar às quintas-feiras no portal do OTS e às 15h na Rádio Brasil de Fato (98,9 FM).
