Empreendedorismo feminino: estudo revela protagonismo das mulheres em territórios vulneráveis

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Segundo o levantamento ‘Potencialidades & Inclusão Produtiva’, nos territórios vulneráveis mapeados, as mulheres são protagonistas em questões econômicas e sociais; a seguir, confira os dados do estudo e uma entrevista completa com Maria Ruanes Coelho, da Fundação Grupo Volkswagen, organização responsável pelo levantamento

Ilustração: Magnific

Por Lucas Neves

O estudo Potencialidades & Inclusão Produtiva revela que, em territórios de alta vulnerabilidade, os negócios locais são majoritariamente  liderados por mulheres. Desenvolvido pela Fundação Grupo Volkswagen em parceria com o Instituto Toré, o levantamento evidencia o protagonismo econômico e social feminino.

Ao todo, foram quatro territórios analisados pela pesquisa: Jabaquara, na cidade de São Paulo; Montanhão e a região do Pós-balsa, em São Bernardo do Campo; e Resende, no Rio de Janeiro. Nesses locais, as mulheres não apenas são maioria entre os respondentes, como lideram grande parte dos empreendimentos.

No caso do Jabaquara, 100% dos empreendimentos mapeados pelo estudo são liderados exclusivamente por mulheres. “Isso mostra uma potência econômica muito relevante nesses territórios, especialmente considerando que estamos falando de regiões de alta vulnerabilidade social”, disse Maria Ruanes Coelho, analista de Impacto Social da Fundação Grupo Volkswagen, em entrevista ao Observatório do Terceiro Setor (OTS).

Os desafios do empreendedorismo feminino

Apesar do protagonismo, o levantamento mostrou que essas mulheres ainda enfrentam desafios estruturais relevantes, como a informalidade e sobrecarga com o cuidado e sustento da família. 

“No Montanhão, por exemplo, 82,5% das pessoas que sustentam sozinhas suas casas são mulheres. Isso evidencia que existe um enorme potencial produtivo e empreendedor, mas que ele ainda é atravessado por barreiras estruturais que limitam o crescimento desses negócios”, destaca Maria.

Quando se trata do cuidado familiar, a responsabilidade também recai às trabalhadoras. Conforme a pesquisa, 45,1% das mulheres no Jabaquara cuidam sozinhas de outras pessoas, contra 4,2% dos homens. No Montanhão, 24,9% são cuidadoras exclusivas, evidenciando a dupla jornada que impacta diretamente sua capacidade produtiva.   

“Os dados revelam um contraste importante: essas mulheres lideram negócios, sustentam suas famílias e ainda concentram grande parte das responsabilidades de cuidado” — Maria Ruanes Coelho

Segundo a analista de Impacto Social da Fundação Grupo Volkswagen, a dupla jornada tem impacto direto na capacidade dessas mulheres de expandirem seus negócios e acessarem novas oportunidades. 

“Quando uma mulher precisa, ao mesmo tempo, gerar renda, cuidar da casa, dos filhos e de outras pessoas da família, sobra menos tempo para qualificação, planejamento, gestão financeira e desenvolvimento do próprio empreendimento”, afirmou.

Os Desafios estruturais que freiam o crescimento dos negócios femininos

No campo produtivo, a pesquisa evidencia uma série de gargalos para o empreendedorismo feminino. Entre eles está a alta informalidade: 44,4% dos negócios no Jabaquara são informais, cenário que se repete em Montanhão e Pós-Balsa, além de atingir 46,7% em Resende.

Além disso, o estudo aponta que o principal desafio não está na ausência de iniciativa, mas na combinação de restrições estruturais, como: 

  • falta de tempo, devido à sobrecarga de cuidado; 
  • limitação de capital;
  • acesso insuficiente à formação e redes de apoio. 

Sendo assim, embora as mulheres liderem a dinâmica econômica local e demonstrem alto interesse em qualificação, o avanço da inclusão produtiva depende de estratégias integradas que articulem crédito, capacitação e suporte social, com olhar específico para as desigualdades de gênero. 

Trabalho conjunto entre a iniciativa privada e o setor público

Durante a entrevista ao OTS, Maria fala sobre a necessidade de um trabalho integrado entre o poder público e privado para reduzir essa sobrecarga e potencializar o empreendedorismo feminino. No seu ponto de vista, as políticas públicas têm um papel fundamental na ampliação de redes de proteção social, acesso à educação, creches, serviços de cuidado e programas de geração de renda. 

“Quando uma mulher consegue ter apoio no cuidado familiar, ela amplia sua capacidade de estudar, empreender e acessar oportunidades econômicas” — Maria Ruanes Coelho

Por outro lado, Maria acredita que as iniciativas privadas e o investimento social também podem atuar acelerando processos de inclusão produtiva, oferecendo formação, apoio à gestão, educação financeira, acesso a redes e fortalecimento do empreendedorismo local. 

“A pesquisa mostra justamente que existe um capital humano muito potente nesses locais. O desafio está em construir condições para que essas mulheres consigam transformar esforço em desenvolvimento econômico sustentável”.

O projeto Empreenda Social

O estudo Potencialidades & Inclusão Produtiva foi desenvolvido a partir do projeto Empreenda Social. “O Empreenda Social é uma iniciativa apoiada pela Fundação Grupo Volkswagen que atua no fortalecimento do empreendedorismo e da inclusão produtiva em territórios de maior vulnerabilidade social”, destaca Maria.

O objetivo do programa é apoiar pessoas empreendedoras — especialmente mulheres — por meio de formação, desenvolvimento de capacidades de gestão, educação financeira e geração de renda. 

Segundo Maria, a iniciativa parte do entendimento de que muitos negócios em territórios vulnerabilizados já existem e movimentam a economia local, mas ainda enfrentam dificuldades relacionadas à informalidade, acesso a mercado, organização financeira e planejamento estratégico. 

“O programa busca oferecer ferramentas práticas para fortalecer esses empreendimentos e ampliar sua sustentabilidade” — Maria Ruanes Coelho

Uma das pessoas beneficiadas pela Fundação por intermédio do Programa Empreenda foi Renata Jesus Valeriano. Mãe atípica do pequeno Arthur, Renata precisou deixar um emprego fixo para acompanhar seu filho nas terapias e demais tratamentos após o diagnóstico de autismo.   

“Não consegui continuar no trabalho fixo, pois passei a acompanhar meu filho nas sessões de fisioterapia e terapias. Para me manter, passei a trabalhar com a venda de artesanato produzido por terceiros”, explicou Renata.   

Moradora de Resende, uma das regiões assistidas pelo projeto, Renata se especializou e viu na venda, mais de uma forma de sobreviver, e sim uma oportunidade de evoluir e continuar com os cuidados de seu filho. “Com o curso aprendi coisas novas que hoje consigo colocar em prática. Antes eu revendia produtos de terceiros, hoje, com o apoio do projeto, eu vendo itens próprios”.  

Entrevista completa com Maria Ruanes Coelho

A seguir, confira a entrevista completa com Maria Ruanes Coelho, analista de Impacto Social da Fundação Grupo Volkswagen:

1- Entre todos os indicadores levantados pela pesquisa, qual dado mais chamou a atenção da equipe e por quê?

Um dos dados que mais chamou nossa atenção foi perceber que, em alguns territórios, o empreendedorismo local é majoritariamente feminino e, no caso do Jabaquara, 100% desses empreendimentos mapeados são liderados exclusivamente por mulheres. Isso mostra uma potência econômica muito relevante nesses territórios, especialmente considerando que estamos falando de regiões de alta vulnerabilidade social.

Ao mesmo tempo, os dados revelam um contraste importante: essas mulheres lideram negócios, sustentam suas famílias e ainda concentram grande parte das responsabilidades de cuidado. No Montanhão, por exemplo, 82,5% das pessoas que sustentam sozinhas suas casas são mulheres. Isso evidencia que existe um enorme potencial produtivo e empreendedor, mas que ele ainda é atravessado por barreiras estruturais que limitam o crescimento desses negócios.

Outro ponto que chama atenção é o interesse muito alto por qualificação. Em alguns territórios, mais de 90% das pessoas demonstraram interesse em cursos e capacitações. Isso mostra que não falta disposição para aprender e crescer — muitas vezes faltam acesso, tempo e oportunidade.

2- A pesquisa evidencia que muitas mulheres são as únicas responsáveis pelo sustento da casa e pelos cuidados familiares. Como essa dupla jornada impacta o potencial produtivo dessas empreendedoras e interfere no crescimento dos seus negócios?

A dupla jornada tem impacto direto na capacidade dessas mulheres de expandirem seus negócios e acessarem novas oportunidades. Quando uma mulher precisa, ao mesmo tempo, gerar renda, cuidar da casa, dos filhos e de outras pessoas da família, sobra menos tempo para qualificação, planejamento, gestão financeira e desenvolvimento do próprio empreendimento.

Isso aparece de forma muito concreta na pesquisa. Em territórios como o Jabaquara, quase metade das mulheres entrevistadas afirmou cuidar sozinha de outras pessoas. Essa sobrecarga acaba empurrando muitas empreendedoras para a informalidade ou para negócios de sobrevivência, dificultando que elas consigam estruturar e escalar suas atividades.

Ao mesmo tempo, o estudo mostra que existe vontade de crescer. Há grande interesse em cursos técnicos, habilidades digitais e gestão. Ou seja, não estamos falando de falta de iniciativa ou capacidade, mas de um contexto estrutural que limita o tempo, os recursos e as condições para que essas mulheres consigam desenvolver plenamente seu potencial produtivo.

3- Como a parceria entre políticas públicas e iniciativas privadas poderiam atuar para reduzir essa sobrecarga feminina?

Esse é um desafio que exige atuação integrada. As políticas públicas têm um papel fundamental na ampliação de redes de proteção social, acesso à educação, creches, serviços de cuidado e programas de geração de renda. Quando uma mulher consegue ter apoio no cuidado familiar, ela amplia sua capacidade de estudar, empreender e acessar oportunidades econômicas.

Por outro lado, as iniciativas privadas e o investimento social podem atuar acelerando processos de inclusão produtiva, oferecendo formação, apoio à gestão, educação financeira, acesso a redes e fortalecimento do empreendedorismo local. Também é importante pensar em soluções adaptadas à realidade dessas mulheres, com trilhas formativas mais flexíveis e conectadas às necessidades dos territórios.

A pesquisa mostra justamente que existe um capital humano muito potente nesses locais. O desafio está em construir condições para que essas mulheres consigam transformar esforço em desenvolvimento econômico sustentável.

4- Qual principal mensagem vocês gostariam que empresas, governos e sociedade absorvessem a partir desse estudo?

A principal mensagem é que esses territórios possuem enorme potência econômica e empreendedora, especialmente liderada por mulheres, mas que ainda existem barreiras estruturais importantes impedindo que esse potencial se transforme em desenvolvimento sustentável e mobilidade social.

O estudo mostra que não falta iniciativa, capacidade ou interesse por qualificação. O que muitas vezes falta é acesso: acesso a crédito, formação, redes de apoio, proteção social e oportunidades. Quando olhamos para esses territórios apenas pela ótica da vulnerabilidade, deixamos de enxergar sua capacidade de transformação.

Por isso, acreditamos que investir em inclusão produtiva, fortalecimento de capacidades locais e redução das desigualdades de gênero é também investir no desenvolvimento econômico e social dessas comunidades de forma mais ampla.

5- Poderia falar um pouco sobre o projeto Empreenda. Quais são os principais objetivos da iniciativa nos territórios atendidos e os maiores impactos percebidos?

O Empreenda Social é uma iniciativa apoiada pela Fundação Grupo Volkswagen que atua no fortalecimento do empreendedorismo e da inclusão produtiva em territórios de maior vulnerabilidade social. O objetivo do programa é apoiar pessoas empreendedoras — especialmente mulheres — por meio de formação, desenvolvimento de capacidades de gestão, educação financeira e geração de renda.

A iniciativa parte do entendimento de que muitos negócios nesses territórios já existem e movimentam a economia local, mas ainda enfrentam dificuldades relacionadas à informalidade, acesso a mercado, organização financeira e planejamento estratégico. Por isso, o programa busca oferecer ferramentas práticas para fortalecer esses empreendimentos e ampliar sua sustentabilidade.

Os impactos percebidos vão além da geração de renda. O programa contribui para aumento da autonomia, fortalecimento da autoestima e ampliação das perspectivas de futuro dessas mulheres e de suas famílias. Histórias como a da Renata, em Resende, mostram isso de forma muito concreta: ela conseguiu transformar uma atividade informal em uma oportunidade de desenvolvimento próprio, conciliando geração de renda com os cuidados necessários ao filho.