Evento na B3 debate novos caminhos para o ensino da matemática no país
Direitos Humanos“Em um cenário onde apenas 5% dos jovens brasileiros saem do Ensino Médio sabendo o adequado da matemática, apoiar projetos que desenvolvem habilidades matemáticas é investir no futuro do país”, comenta Fabiana Prianti, head da B3 Social

Por Lucas Neves
Somente 5% dos alunos do 3º ano do ensino médio, na rede pública brasileira, possuem desempenho adequado em matemática. Este dado do Todos Pela Educação e do Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional), divulgado em abril, foi um dos assuntos repercutidos em evento sobre ensino e aprendizado da matemática, realizado em São Paulo na última quarta-feira (20).
O painel “Como a Matemática vai incluir o Brasil na economia digital” aconteceu no auditório da B3 (Bolsa de Valores do Brasil), organizado pelo Instituto Sidarta, em parceria com a B3 Social, Fundação Itaú e o Iede.
Durante o evento, educadores, formuladores de políticas públicas, agentes da sociedade civil e líderes do setor produtivo puderam acompanhar duas mesas de debate e a exibição do documentário “Counted Out” (“Excluídos pela Matemática” em tradução livre).
Em entrevista ao Observatório do Terceiro Setor (OTS), Fabiana Prianti, head da B3 Social, diz que a organização acredita na matemática como uma das “competências-chave” no preparo dos jovens para os desafios da economia digital.

“Em um cenário onde apenas 5% dos jovens brasileiros saem do Ensino Médio sabendo o adequado da matemática, apoiar projetos que desenvolvem habilidades matemáticas é investir no futuro do país. É ampliar a inclusão produtiva e a capacidade do Brasil de competir em um cenário global cada vez mais digitalizado”, comenta Fabiana.
* É compreendido como economia digital a aplicação de tecnologias digitais — como IA (Inteligência Artificial), armazenamento em nuvem e blockchain — em atividades econômicas.
Papel do terceiro setor na melhoria do ensino matemático
Questionada sobre o papel das OSCs (Organizações da sociedade civil) na difusão do ensino matemático de qualidade, Fabiana salienta a capacidade do terceiro setor em se aproximar de realidades locais, inovar em metodologias de ensino e criar soluções criativas para despertar o interesse dos estudantes.
“Quando essas iniciativas se somam a parcerias com empresas e governos, conseguimos potencializar resultados, disseminar boas práticas e ampliar o alcance de um ensino matemático mais atrativo e conectado com o cotidiano dos alunos” — Fabiana Prianti, head da B3 Social
A presidente do Instituto Sidarta, Ya Jen Chang, também acredita no potencial da sociedade civil para reverter o cenário de defasagem da matemática nas escolas brasileiras, afirmando que o instituto trabalha justamente com este propósito.
Para Ya Jen, quanto mais o assunto for abordado e gerar inconformidade, maior a possibilidade da execução de ações efetivas. “E esse é o meu chamado, então. O que a gente fez durante o evento é para que as pessoas não fiquem só no incômodo”.

Estimulando o interesse pela matemática
O Instituto Sidarta é responsável por implementar no Brasil o programa Mentalidades Matemáticas, criado pela britânica Jo Boaler, professora da Universidade de Stanford e idealizadora da abordagem, que também esteve presente no painel.
Colocando a matemática como peça-chave na promoção do desenvolvimento humano e a mobilidade socioeconômica dos estudantes brasileiros, o Mentalidades Matemáticas trabalha pela diminuição da desigualdade por meio da educação. Sendo assim, o programa busca ressignificar o ensino e aprendizagem da disciplina, oferecendo meios estimulantes e conectados à realidade dos jovens.
Segundo Ya Jen, o programa não é somente uma metodologia, mas sim uma abordagem e uma forma de enxergar a matemática.
“Quando falamos da abordagem que ele traz — com a neurociência e estudos da psicologia e da sociologia, aplicados à educação — começamos a ter um arcabouço muito mais amplo de como abordar a matemática. Não pela ótica do procedimento, mas sim de como a gente faz a matemática mais conectada” — Ya Jen Chang, presidente do Instituto Sidarta
A presidente do Instituto Sidarta observa o atual modelo padrão de ensino matemático como “muito voltado para memorização de fórmulas e procedimentos”, gerando uma desconexão com a realidade.
Além de trazer aplicabilidade no ensino, Ya Jen defende que os jovens sejam encorajados a se reconhecerem como pensadores matemáticos. “Pode ser que eles ainda não saibam as fórmulas, e tudo bem”, diz, afirmando que a matemática está no DNA humano, aplicada por todos no dia a dia, desde a primeira infância.
Impacto da matemática no avanço do país
Entre os convidados para o painel também estava Marcelo Viana, diretor-geral do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada). Em conversa com o OTS, Viana lembra da importância da matemática na geração de recursos materiais e financeiros para o país, capazes de melhorar as condições de vida da população.
“A importância da matemática para a geração de riqueza é inquestionável e amplamente comprovada. Temos oportunidades de aumentar a participação da disciplina na economia brasileira e isso tem um potencial enorme”, destaca.

Um estudo do Itaú Social, com apoio do IMPA, revelou que os rendimentos dos profissionais que atuam em áreas ligadas à Matemática corresponderam a 4,6% do PIB (Produto Interno Bruto) do país, entre os anos de 2012 e 2023.
“Estamos falando em trilhões de reais a mais por ano que a digitalização da nossa economia — com maior incorporação da matemática — tem o potencial para produzir”, lembra o diretor da IMPA.
Painel sobre papel da matemática na economia digital
Para Fabiana Prianti, o evento teve um resultado positivo, uma vez que pôde reunir especialistas, educadores e organizações que compartilham a mesma preocupação. “É uma honra promover e ser casa de um evento com a Jo Boaler e instituições tão importantes como o Instituto Sidarta, IMPA, Fundação Itaú, Ministério e Secretaria da Educação”, comenta a head da B3 Social.
Ela ainda destaca o papel fundamental da troca de experiências reais para avançar nessa agenda em prol do ensino e aprendizagem da matemática, assim como a construção coletiva de novos caminhos.
“Nossa expectativa é que os debates de hoje sirvam de inspiração para políticas públicas, parcerias e projetos que possam impactar a vida de milhares de estudantes brasileiros” — Fabiana Prianti, head da B3 Social
O painel “Como a Matemática vai incluir o Brasil na economia digital” colabora diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), promovidos pela Agenda 2030 da ONU. Sobretudo, com o ODS 4 (Educação de qualidade), que visa garantir o acesso à educação inclusiva, de qualidade e equitativa, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.
