Iniciativa brasiliense mobiliza homens e aposta na arteterapia no combate à violência doméstica
ONGs em Ação
Com abordagem disruptiva de “homem para homem” e uso de arteterapia sustentável, projeto financiado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF) apresenta solução para a crise recorde de feminicídios no Brasil
Desde o início de abril, um movimento social vem ganhando força em Sobradinho II. Em meio ao agravamento da violência contra a mulher na região, o projeto CULTURA QUE CURA iniciou suas atividades propondo uma resposta que foge do caminho tradicional da punição: a transformação de quem historicamente ocupa o lugar de agressor.
Com encontros que acontecem semanalmente, a iniciativa atua diretamente na ressocialização de homens e no fortalecimento de famílias atravessadas pela dependência química e pelo machismo estrutural. Por meio da arteterapia e da partilha de histórias reais de superação, o projeto busca desconstruir padrões tóxicos de masculinidade e abrir espaço para novas formas de existir, conviver e se responsabilizar.
O Distrito Federal vive uma escalada de violência: entre 2024 e 2025, os casos de feminicídio cresceram 27%, sendo que 62,2% das mortes aconteceram dentro de casa. Ao mesmo tempo, o consumo de álcool e outras drogas aparece como fator associado em até 92% dos casos de violência doméstica. O DF também ocupa o segundo lugar no ranking nacional de consumo abusivo de álcool, com um em cada quatro cidadãos ingerindo quantidades excessivas.
É nesse cenário que o CULTURA QUE CURA se posiciona como uma alternativa necessária. Um dos pilares do projeto é o protagonismo masculino no enfrentamento à violência. À frente das atividades está Tarcísio Rocha, que transforma sua própria trajetória marcada pela dependência química em ferramenta de conscientização. Em rodas de conversa francas e diretas, ele promove um diálogo “de homem para homem”, rompendo resistências e incentivando reflexões profundas sobre comportamento, responsabilidade e impacto nas relações familiares.
Essa experiência compartilhada não apenas legitima o trabalho, mas cria pontes reais com os participantes, que encontram no projeto um espaço de acolhimento, escuta e reconstrução. “O engajamento dos homens é fundamental. A gente precisa romper o silêncio e assumir responsabilidade coletiva nesse processo de mudança”, afirma Tarcísio.
A história dele se entrelaça com a de Kátia Nunes, coordenadora do projeto e sua companheira. Juntos, eles carregam uma vivência marcada por ciclos de violência e superação. “Sair da drogadição não é fácil, é uma luta diária. Nós vivemos a violência doméstica por muitos anos, mas hoje somos prova de que a mudança é possível”, relata Kátia.
Realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF) em parceria com o CAPS AD de Sobradinho II, a Casa da Cidadania e o Instituto Incas, o projeto estrutura suas ações em oficinas que integram cuidado emocional, desenvolvimento pessoal e geração de renda. Entre as atividades, o macramê surge como símbolo da reconstrução de vínculos. A técnica de tecelagem manual exige concentração e paciência, promovendo foco cognitivo e redução da ansiedade, ao mesmo tempo em que oferece uma possibilidade concreta de autonomia financeira.
A criação de vasos ecológicos e o uso de geotintas, produzidas a partir da terra da própria região, reforçam o vínculo com o território e com práticas sustentáveis, democratizando o acesso à arte. Já a confecção de biojoias com sementes e fibras naturais amplia as possibilidades de inclusão produtiva.
Na escultura em argila, os participantes encontram uma das experiências mais simbólicas do processo: ao moldar a matéria, são convidados a “moldar a si mesmos”, elaborando emoções e ressignificando vivências difíceis de verbalizar.
Com uma abordagem sensível e humanizada, o CULTURA QUE CURA deve impactar diretamente cerca de 200 pessoas ao longo de dois meses de atividades. Os encontros oferecem acompanhamento psicossocial e um ambiente seguro para que os participantes revisitem suas histórias e construam novas perspectivas. “A ideia é mostrar que cada pessoa tem valor e pode reconstruir sua história através do cuidado e da cultura”, reforça Tarcísio.
