Legado e autonomia: quando investir em pessoas é preparar comunidades para o futuro

Impacto das ONGs
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Imagem: ChatGPT

 

Por Vitor Hugo Neia

 

O Brasil ainda convive com um cenário persistente de baixa mobilidade social, no qual o local de nascimento, a renda familiar e o acesso desigual à educação continuam determinando as oportunidades ao longo da vida. Estudo do Atlas da Mobilidade Social, do IMDS (Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social), plataforma de acompanhamento de políticas públicas com foco na ascensão social, revela que a probabilidade de uma criança brasileira nascidas na metade mais pobre da população ter ascensão social capaz de colocá-la entre os 10% mais ricos quando adulta é menor do que 2%.

A pesquisa evidencia que educação de qualidade, inserção no mercado de trabalho formal e redes de apoio são fatores decisivos para romper ciclos de vulnerabilidade, e que sua ausência aprofunda desigualdades entre gerações. Esse debate ganha ainda mais sentido no mês em que celebramos o voluntariado, tradicionalmente associado à solidariedade e ao engajamento individual. Mais do que ações pontuais, a data convida à reflexão sobre qual legado estamos deixando: iniciativas que aliviam urgências momentâneas ou estratégias capazes de ampliar escolhas, autonomia e protagonismo ao longo do tempo.

Investir em inclusão produtiva é investir em autonomia. Mais do que gerar renda imediata, trata-se de criar condições para que pessoas e comunidades possam planejar o futuro, tomar decisões e construir trajetórias sustentáveis. Nesse sentido, o debate contemporâneo sobre filantropia e investimento social privado reúne experiências que mostram como é possível alavancar potências já existentes nos territórios, respeitar saberes locais e promover inclusão, autonomia e solidariedade de forma integrada. As soluções mais potentes, muitas vezes, já estão onde os desafios se manifestam, o que falta é financiamento estruturado, de longo prazo, e estratégias que reconheçam o território como ponto de partida.

Fortalecer lideranças locais e organizações de base é condição essencial para que esse investimento gere continuidade sem dependência. Isso passa, necessariamente, pela transferência gradual de capacidades, responsabilidades e poder de decisão. Na prática, significa investir não apenas em atividades-fim, mas também em estrutura institucional, formação em gestão, governança, captação de recursos e incidência política. Significa reconhecer e remunerar o trabalho das lideranças comunitárias, integrá-las aos processos decisórios desde o início e construir modelos de atuação baseados na corresponsabilidade. Quando organizações de base são fortalecidas como protagonistas, e não como executoras periféricas, o investimento social deixa de ser episódico e passa a se traduzir em legado, capaz de atravessar ciclos de financiamento e sustentar transformações no longo prazo.

É a partir dessa compreensão que a Fundação Grupo Volkswagen orienta sua atuação social. Com foco na valorização da juventude e na construção de redes de apoio duradouras, a Fundação entende que a transformação social vai além do indivíduo, alcançando famílias e comunidades inteiras. Essa visão se materializa no Projeto Autonomia, criado com o compromisso de ampliar oportunidades para jovens em situação de vulnerabilidade social, aliando formação técnica, desenvolvimento socioemocional e acompanhamento contínuo em uma jornada completa de capacitação.

O Projeto Autonomia parte do princípio de que autonomia não se constrói de forma isolada. Por isso, sua implementação é guiada por diagnósticos socioterritoriais que identificam as reais demandas, vocações e desafios de cada localidade. Na comunidade do Montanhão, em São Bernardo do Campo, por exemplo, a escuta ativa junto a moradores, lideranças locais e organizações de base foi fundamental para desenhar uma estratégia conectada à realidade do território, fortalecendo vínculos, ampliando repertórios e criando oportunidades concretas de inserção produtiva.

Essa atuação territorial reforça uma convicção central: autonomia individual e fortalecimento comunitário caminham juntos. O trabalho digno surge como elo entre essas dimensões, ao mesmo tempo em que gera renda, reconhecimento social e pertencimento. Ao apostar na permanência nos territórios, a Fundação Grupo Volkswagen reafirma seu compromisso com processos de longo prazo, baseados em apoio técnico, construção coletiva e corresponsabilidade. O objetivo não é substituir iniciativas locais, mas cocriar, junto às comunidades, estratégias sustentáveis que fortaleçam redes locais de transformação.

Nesse contexto, o voluntariado ganha um novo significado. Mais do que doar tempo ou conhecimento, trata-se de integrar esforços a projetos estruturantes, capazes de gerar impacto duradouro. O legado que se busca não é apenas o de ações bem-intencionadas, mas o de comunidades mais preparadas para conduzir seu próprio desenvolvimento. Reconhecer, apoiar e investir nas potências locais é um passo essencial para que o investimento social cumpra seu papel mais transformador: ampliar autonomia, reduzir desigualdades e construir futuros possíveis.

 

Link da pesquisa utilizada: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2025/06/menos-de-2-das-criancas-pobres-no-brasil-atingem-a-renda-dos-mais-ricos.shtml

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Vitor Hugo Neia

Diretor-geral da Fundação Grupo Volkswagen desde 2018. Mestre em História Social pela USP, tem ampla experiência em gestão de projetos no terceiro setor, com foco em inclusão produtiva, desenvolvimento comunitário e redução das desigualdades.