País que foi o menos desenvolvido do mundo supera a China em crescimento

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Educação foi uma das principais armas para o crescimento de Bangladesh. Sucessivos governos concentraram esforços na melhoria e na expansão da educação. Além disso, a taxa de trabalhadores abaixo da linha da pobreza caiu de de 73,5% em 2010 para 10,4% em 2018

Trabalhadoras têxteis de Bangladesh/ Foto: Marie Claire France

Abalado por instabilidade política, corrupção, desastres naturais, fome e pobreza, Bangladesh foi considerado o menos desenvolvido do mundo em termos econômicos per capita.

O país do Sudeste Asiático, graças a um boom econômico, associado a avanços em educação e saúde pública e a um menor índice de vulnerabilidade, pode se livrar, até 2024, do selo de Países Menos Desenvolvidos (PMD) da Organização das Nações Unidas (ONU).

Em março deste ano, a previsão era de que o país crescesse em torno de 8% agora em 2020, acima da China, que tinha previsão de crescer 6%. Com o agravamento da crise do coronavírus no mundo, previsões de junho apontavam para um crescimento de 1,6% em Bangladesh e de 1% na China – muito menos do que o previsto anteriormente, mas ambos com mais crescimento do que grande parte do mundo diante da pandemia.

Para o Brasil, a previsão é de queda de 8%, taxa inferior apenas à do Peru (12%) na América do Sul.

Bangladesh também tem aumentado a renda per capita, com uma queda do número de trabalhadores que vivem abaixo da linha de pobreza, de 73,5% em 2010 para 10,4% em 2018, segundo o Banco de Desenvolvimento da Ásia.

Além disso, um relatório de competitividade do Fórum Econômico Mundial de 2019 apontou que Bangladesh foi o segundo país asiático que mais subiu nesse ranking.

Conhecido antes como Paquistão Oriental, Bangladesh conquistou sua independência em 1971 como um país extremamente pobre, com um PIB recuando 14% em um ano, segundo o Banco Mundial.

A comunidade internacional considerava o país um “caso perdido” que demandaria sempre ajuda externa.

Passou 15 anos sob um regime militar, e ainda que tenha superado a instabilidade política e restabelecido a democracia na década de 1990, a situação ali continuou volátil até a chegada em 2009 de um governo popular, mas autoritário. O extremismo local também aumentou.

Outro fator que afetou a economia ao longo de anos foi sua situação geográfica: é um país de baixa altitude, propenso a ciclones e inundações, e um dos mais vulneráveis às mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global.

Mas nos últimos anos o país tem apresentado sinais de desenvolvimento sustentado, graças a investimentos em capital humano, aumento do PIB per capita, melhorias em infraestrutura e maior resiliência a calamidades econômicas e ambientais.

A desaceleração no crescimento populacional também tem contribuído para o aumento da renda per capita.

“É uma recuperação milagrosa e impensável 20 anos atrás”, afirma Sabir Mustafa, editor do serviço bengali da BBC.

Educação

Educação foi uma das principais armas para o crescimento do país. Sucessivos governos concentraram esforços na melhoria e na expansão da educação em diversas etapas. Até os anos 1980, o ensino superior estava nas mãos do governo, por meio de universidades públicas. O setor privado também se expandiu, e hoje há mais de 100 faculdades particulares no país.

O resultado tem sido a entrada de uma força de trabalho capacitada no setor de serviços, essencial em Bangladesh, que corresponde a 50% do PIB.

Segundo Sabir Mustafa, não se deve esquecer da atuação das organizações não governamentais que preencheram lacunas da administração pública a partir dos anos 1980, com projetos nutricionais e de empoderamento das mulheres, por exemplo.

“As ONGs atuaram nesses vazios criando escolas informais para os excluídos, promovendo a saúde primária e até mesmo atraindo capital estrangeiro para projetos os quais o governo não tinha como bancar.”

A indústria de confecção tem oferecido oportunidades de emprego a mulheres de zonas rurais que antes não tinham chance de ser parte da força de trabalho do país.

Outra fonte de recursos importantes é o montante de remessas feitas por cidadãos que vivem no exterior, representando cerca de US$ 15 bilhões por ano — vindos principalmente de países do Golfo e do Sudeste Asiático, como Cingapura, Arábia Saudita, Malásia e Bahrein.

Corrupção

Agora o principal desafio enfrentado pelo país é um velho conhecido dos brasileiros: a corrupção. Um dos setores mais afetados é o bancário, que tem quase US$ 11 bilhões nos chamados empréstimos podres, que nunca serão pagos porque estão ligados a pessoas com boas conexões políticas.

Sem recursos, os bancos não conseguem ampliar o crédito para quem precisa dele, como as pequenas e médias empresas. Ao mesmo tempo, o governo, altamente endividado, exige empréstimos do setor para seus projetos ambiciosos.

A corrupção também afeta as condições de trabalho. Embora existam leis para garantir a segurança e a saúde dos trabalhadores, elas não são implementadas ou fiscalizadas. E embora a economia esteja crescendo, a diferença entre ricos e pobres tem aumentado.

Para Mustafa, se Bangladesh pode enfrentar o embate com a natureza, pode também fazer frente à burocracia e à corrupção que atravancam o país.

Fontes: BBC News e UOL


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