Universitários negros enfrentam obstáculos com o retorno às aulas online

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Dificuldades financeiras, falta de acesso à internet e mesmo pouco domínio no uso de computadores afetam universitários negros, principalmente os autodeclarados pretos

Foto: Marcello Casal Jr. | Agência Brasil

Por: Mariana Lima

Após quase 6 meses sem aulas, as universidades federais começam a retornar ou planejar um retorno por meio do espaço virtual.

De acordo com o Ministério da Educação (MEC), 19 universidades estão com as atividades suspensas, 47 operam ou estão se organizando para operar de forma remota, enquanto três já funcionam em caráter parcial.

Contudo, o retorno às aulas no formato online esbarra em dificuldades causadas pela alteração do perfil socioeconômico dos estudantes e da falta de acesso à internet.

As transformações no corpo discente universitário são consequência da aprovação da lei de cotas, entre 2013 e 2018, que possibilitou a reserva de mais de 645 mil vagas para o ingresso de estudantes de escolas públicas, pessoas pretas, pardas e indígenas, e pessoas com deficiência.

O dado foi apresentado em uma pesquisa do Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (Gemaa) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que ainda revelou como a mudança em questão trouxe novas demandas para o espaço universitário e reforçou a importância dos programas de assistência estudantil.

Uma sequência de obstáculos

De acordo com o levantamento, que consta no boletim ‘Raça, Gênero e Saúde Mental nas Universidades Federais’, os principais fatores que acabam afetando a vida e o desempenho acadêmico de mulheres e homens pretos e pardos são as dificuldades financeiras.

Observando apenas o quadro em referência às mulheres negras, 26% citaram as dificuldades financeiras, 24% problemas emocionais e 23% carga excessiva de trabalhos estudantis.

Os homens negros também citaram as dificuldades financeiras na mesma proporção (26%), além da falta de disciplina para estudar (24%) e o tempo de deslocamento para a universidade (17%).

O levantamento analisou dados da ‘V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Estudantes de Graduação das Instituições Federais de Ensino Superior Brasileiras‘, realizada em 2018.

Como ficar e concluir os estudos?

Sobre a permanência na universidade e as principais motivações para abandono, as mulheres negras são as que mais declaram pensar em abandonar o curso em que estão com a matrícula ativa (55%).

O índice cai para 52% entre as mulheres brancas, para 48% entre homens negros e 46% para homens brancos.

A questão do abandono universitário também é pautada por dificuldades financeiras para 37% e 36% das mulheres e homens negros, respectivamente.

A questão do ensino remoto

A ‘V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Estudantes de Graduação das Instituições Federais de Ensino Superior Brasileiras‘ apontou que enquanto 48,8% dos alunos brancos possuem domínio do uso do computador, o índice não passa de 10,6% entre os estudantes pretos.

Nesse cenário, o ensino remoto emergencial estabelecido pela portaria nº 544 do MEC, que trata da substituição das aulas presenciais para meios digitais enquanto durar a pandemia do novo coronavírus, reacende velhos debates sobre o impacto da desigualdade socioeconômica e racial no ensino.

No dia 19 de agosto, o MEC anunciou medidas para promover o acesso à internet entre alunos de universidades e institutos federais durante a pandemia.

A meta é que 400 mil estudantes de famílias com renda per capita inferior a meio salário mínimo sejam atendidos inicialmente. As medidas podem ser estendidas a 900 mil estudantes com renda de até 1,5 salário mínimo posteriormente.

Fonte: Gênero e Número