Nove anos aprendendo que cidadania se constrói em comunidade
Políticas Públicas

Por Anne Wilians
Existe um provérbio africano muito conhecido que diz: é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.
Sempre achei essa frase profundamente verdadeira. Ela nos lembra que o desenvolvimento humano nunca acontece de forma isolada. Crianças, jovens e adultos se formam em comunidade, pela família, pela escola, pela vizinhança, pelas instituições e pelas experiências que encontram ao longo da vida.
Com o tempo, aprendi também que comunidade não é apenas o lugar da convivência. É o espaço onde a proteção circula, onde valores se consolidam, onde a confiança se constrói e onde o direito deixa de ser uma abstração para ganhar sentido na vida concreta.
Com a cidadania acontece algo muito parecido. Conhecer direitos, compreender responsabilidades e participar da vida pública não são aprendizados automáticos. Esses processos se constroem ao longo do tempo, em ambientes que estimulam o diálogo, o conhecimento e a confiança nas instituições.
Talvez por isso essa reflexão faça ainda mais sentido para mim em março. Neste mês, o Instituto Nelson Wilians completa nove anos de atuação, e olhar para essa trajetória é também revisitar o que esse percurso me ensinou sobre o papel das comunidades na formação cidadã e na construção da vida pública.
Ao olhar para esses nove anos, o que mais me chama a atenção é justamente o quanto esse trabalho nunca foi feito sozinho. Fundar o Instituto foi, para mim, transformar em compromisso uma convicção antiga: a de que o direito só cumpre plenamente sua função quando encontra pessoas, territórios e relações capazes de torná-lo compreensível, acessível e vivo.
Quando o direito se aproxima da vida das pessoas?
Quando eu ainda era adolescente, comecei a imaginar um projeto que aproximasse o direito da vida das pessoas. A ideia era simples, mas ao mesmo tempo muito ambiciosa: tornar o conhecimento jurídico mais acessível, mais compreensível e mais presente no cotidiano.
Naquele momento, eu já percebia algo que mais tarde se confirmou com ainda mais força. Havia muitas iniciativas necessárias, generosas e importantes, especialmente voltadas a respostas emergenciais e pontuais. Mas o que eu sonhava construir era algo estruturante, conectado à vida pública e às políticas que organizam a vida em sociedade. Eu queria contribuir para formar caminhos mais permanentes, capazes de mobilizar escola, território, organizações sociais e equipamentos públicos em torno do desenvolvimento das pessoas e das comunidades.
Com o tempo, fui entendendo que aproximar o direito da sociedade não significa apenas falar sobre leis. Significa criar condições para que as pessoas compreendam seus direitos, saibam onde buscar orientação e se reconheçam como parte ativa da vida social.
É nesse ponto que educação, cidadania e comunidade se encontram. Porque ninguém aprende sozinho a participar da vida pública. Esse aprendizado depende de vínculos, de referências, de escuta e de espaços em que o conhecimento se transforma em ação responsável.
Foi dessa convicção que nasceu o Instituto Nelson Wilians. Desde o início, a proposta do Instituto foi contribuir para fortalecer a educação para a cidadania e a cultura da legalidade, criando pontes entre conhecimento jurídico, formação educacional e participação social.
O direito só cumpre plenamente sua função quando deixa de ser apenas um texto legal e passa a orientar decisões na realidade das pessoas. Em outras palavras, os direitos precisam existir não apenas na norma, mas também nas condições reais de exercício. E isso exige mediação, confiança, previsibilidade e pertencimento.
Juventudes, escolhas e oportunidades
Um dos aprendizados mais importantes ao longo desses anos foi compreender a importância de trabalhar com juventudes.
A juventude é um período de formação de valores, escolhas e perspectivas de futuro. Ela não é homogênea. É quando muitos jovens começam a refletir sobre seu papel na sociedade, sobre as oportunidades que desejam construir e sobre os caminhos que querem seguir.
Não por acaso, o próprio campo de estudos sobre juventudes insiste em falar no plural. Pesquisadoras como Helena Abramo ajudaram a consolidar essa compreensão de que juventude não é um bloco único, mas uma experiência social atravessada por diferenças de território, renda, gênero, raça, repertório e oportunidades. Falar de juventudes, portanto, é reconhecer uma realidade plural, feita de trajetórias distintas que precisam ser consideradas com seriedade e escuta.
De acordo com a PNAD Contínua Educação 2024, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui cerca de 47,8 milhões de jovens entre 15 e 29 anos, o que representa aproximadamente um quarto da população do país.
Esse número revela algo muito importante: falar de juventude é falar do futuro da sociedade brasileira. Acredito que, quando os jovens encontram ambientes educativos que estimulam reflexão crítica, participação social e compreensão de direitos, as escolhas se tornam mais conscientes e as oportunidades se ampliam. Por isso acreditamos tanto na educação para a cidadania como um caminho de transformação social.
E, neste mês de março, essa reflexão também me faz pensar de forma muito direta em meninas e mulheres. Em uma sociedade marcada por índices ainda graves de violência de gênero, comunidade não pode ser apenas uma palavra inspiradora. Comunidade também precisa significar proteção concreta, escuta, interrupção do silêncio e responsabilidade compartilhada.
Em 2025, ao menos 1.248 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil, e 66,3% desses crimes aconteceram dentro de casa, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Uma sociedade que se pretende comunidade não pode tratar essa violência como assunto privado. Proteger meninas e mulheres também é uma forma de educar para a cidadania.
O papel das organizações sociais
Ao longo desses nove anos, outra certeza também se consolidou para mim: impacto social se constrói em colaboração.
Nenhuma organização transforma realidades sozinha. Famílias, educadores, escolas, organizações da sociedade civil, instituições públicas e lideranças comunitárias exercem papéis complementares na construção de ambientes que favoreçam o desenvolvimento humano e a participação cidadã.
Quando esses atores trabalham de forma articulada, criam-se redes capazes de sustentar projetos de longo prazo, fortalecer comunidades e ampliar o acesso à informação e a oportunidades educacionais.
Essa cooperação entre diferentes instituições é essencial para reduzir a distância que ainda existe entre direitos reconhecidos e direitos efetivamente exercidos no cotidiano. É também isso que dá consistência à ideia de comunidade no campo social. Comunidade não é apenas proximidade. É corresponsabilidade: quando diferentes atores reconhecem que proteger, orientar e formar cidadãos não é uma tarefa isolada, mas um compromisso compartilhado.
Nove anos de uma construção coletiva
Ao completar nove anos, o Instituto Nelson Wilians reafirma um compromisso que orienta sua atuação desde o início: contribuir para que mais pessoas conheçam seus direitos, compreendam seus deveres e participem de forma consciente da vida social e democrática.
Ao longo dessa trajetória, desenvolvemos iniciativas educativas, apoiamos organizações sociais, produzimos materiais formativos e construímos parcerias com educadores e instituições comprometidas com a promoção da cidadania. Mais do que uma soma de ações, esses nove anos também formaram um aprendizado institucional. Aprendemos que a cidadania não se fortalece apenas com informação. Ela se fortalece quando existe uma comunidade capaz de reconhecer pessoas como sujeitos de direitos, orientar caminhos e sustentar a confiança na vida pública.
Nada disso teria sido possível sem a participação de muitas pessoas que acreditam nessa causa: profissionais, voluntários, educadores e organizações que caminham conosco ao longo desses anos.
Quando olho para essa história, vejo que o Instituto cresceu junto com uma rede de pessoas comprometidas com a educação e com o fortalecimento da cidadania.
E talvez essa seja a maior riqueza dessa trajetória. Nove anos depois, o que esse percurso me confirma é que comunidade não é apenas o lugar onde se convive. É também o espaço onde se aprende a proteger, a participar, a pedir ajuda, a reconhecer direitos e a agir com responsabilidade diante do outro.
Uma aldeia que educa para a cidadania
Volto, então, ao provérbio que mencionei no início. Se é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança, também é preciso uma comunidade inteira para formar cidadãos conscientes e fortalecer sociedades mais justas. Talvez essa seja uma das lições mais valiosas que o Instituto me ensinou ao longo desses nove anos: a cidadania não floresce no isolamento. Ela cresce quando encontra relações, referências e compromissos compartilhados.
Famílias, educadores, organizações sociais, instituições públicas e iniciativas privadas podem contribuir, cada uma à sua maneira, para criar ambientes em que o conhecimento, o diálogo e a participação façam parte do cotidiano. É assim que a cultura da legalidade ganha corpo, não apenas como respeito à norma, mas como confiança de que os direitos importam, de que as instituições precisam funcionar e de que a vida em sociedade exige corresponsabilidade.
Ao completar nove anos de atuação, sigo acreditando que esse é um dos caminhos mais promissores para fortalecer a cidadania no Brasil.
E fico profundamente grata por todas as pessoas e organizações que fazem parte dessa construção coletiva.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
