“O racismo corrói a energia mental e emocional da população negra”, afirma psicanalista

Direitos Humanos
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No Olhar da Cidadania, a psicanalista Késia Rodrigues explica como o racismo estrutural e as desigualdades sociais produzem sofrimento psíquico e afetam a população negra

(Foto: Magnific)

Por Vitória Serrão.

A saúde mental também está diretamente relacionada às desigualdades sociais. No Brasil, as desigualdades estruturais, o racismo e a violência de gênero atuam como importantes fatores de vulnerabilidade psicológica, deixando marcas profundas na vida de milhões de pessoas.

Segundo pesquisa realizada pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), mulheres e pessoas negras apresentam as maiores prevalências de Transtornos Mentais Comuns (TMC). No caso das mulheres negras, os riscos de adoecimento mental e as taxas de suicídio são significativamente superiores aos dos homens brancos, realidade associada às desigualdades, ao racismo estrutural e à invisibilidade social.

Em reflexão a essa realidade, o Olhar da Cidadania recebe a psicanalista Késia Rodrigues, criadora do projeto “Muito Além da Terapia”. Durante o programa “Psicanálise, igualdade de gênero e racismo”, a especialista discute como a saúde mental, sob uma perspectiva crítica, está profundamente relacionada às questões sociais, raciais e de gênero.

 O racismo como violência psíquica e trauma coletivo

Para a psicanalista Késia Rodrigues, o racismo faz parte do cotidiano da população negra e está diretamente ligado ao trauma coletivo vivido no Brasil.

“O racismo está tão presente no cotidiano que, muitas vezes, se mistura com a própria experiência de vida das pessoas negras. Chega um momento em que nos perguntamos: o que é racismo e o que é simplesmente a nossa vida? São experiências que acabam se confundindo.”

Segundo ela, os impactos dessa violência são acumulativos e afetam profundamente a saúde mental.

“O racismo cotidiano vai desgastando nossa energia psíquica e emocional. Muitas vezes, o corpo negro já está em um estado de sofrimento tão intenso que a pessoa nem consegue identificar a origem desse adoecimento, porque ele resulta de anos de experiências e agressões acumuladas.”

Reinventar a psicanálise no contexto brasileiro

Késia também defende que a psicanálise precisa dialogar com a realidade brasileira e considerar os efeitos do racismo na constituição subjetiva da população.

“Trazer a psicanálise para o contexto brasileiro significa reconhecer o impacto do racismo tanto na formação da subjetividade das pessoas negras quanto das pessoas brancas. Se há pessoas desumanizadas por esse processo, também existem aquelas que são levadas a se perceber acima da humanidade. Esse debate precisa estar presente na psicanálise e também incluir os saberes dos povos originários.”

Sobre o Olhar da Cidadania

O Olhar da Cidadania é um programa do Observatório do Terceiro Setor, apresentado pelo jornalista Joel Scala, contando com as colunas de Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP e Paulo Artaxo professor titular e chefe do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP.

O programa vai ao ar todas às quintas-feiras às 13:30h, na Rádio USP (São Paulo: 93.7 FM / Ribeirão Preto: 107.9 FM). Também é possível conferir os episódios posteriormente no portal do Observatório.

Escute o episódio: