Pesquisa da Pacová revela obstáculos no acesso a financiamento para comunicação popular no Brasil
Captação de RecursosEstudo nacional identifica entraves estruturais e aponta caminhos para fortalecer o apoio a coletivos e mídias comunitárias

Quais são as principais dificuldades que coletivos, movimentos e mídias de comunicação popular enfrentam para acessar financiamento no Brasil? Essa foi a pergunta que guiou a pesquisa “Barreiras ao Financiamento para Organizações de Comunicação Popular”, conduzida pela Pacová e promovida pela Rede Comuá. O estudo, que ouviu 50 organizações em todas as regiões do país, revela um cenário de precariedade estrutural, dependência de voluntariado e falta de políticas públicas consistentes de fomento ao setor.
A pesquisa foi realizada entre maio e agosto de 2025, com metodologia mista (quantitativa e qualitativa), envolvendo formulários, entrevistas em profundidade e análise territorial. Participaram 50 organizações de todas as regiões do Brasil, abrangendo coletivos negros, indígenas, periféricos, quilombolas, feministas e comunitários.
O estudo faz parte da estratégia de produção de conhecimento do Programa de Incidência da Pacová, com apoio do Instituto ACP por meio da Chamada Aberta 2025.
A publicação traz um diagnóstico claro: a maior parte das organizações de comunicação popular enfrenta dificuldades para acessar recursos financeiros. Entre os principais entraves estão a falta de apoio técnico para captação (21%), a ausência ou irregularidade do CNPJ (19%), a linguagem técnica e burocrática dos editais (13%) e exigências rígidas de prestação de contas (13%).
Essas barreiras impedem o fortalecimento institucional e comprometem a continuidade de projetos essenciais para a democratização da informação.
De acordo com o estudo, 79% das organizações não recebem recursos com frequência, e quase metade (46%) jamais acessou financiamento em sua trajetória. Mesmo entre as que conseguiram captar, 35% receberam valores inferiores a R$ 50 mil, montante insuficiente para sustentar equipes e infraestrutura.
“Foi um processo de escuta das organizações, movimentos, grupos e coletivos que fazem da comunicação popular uma prática cotidiana de resistência e de construção de futuro que ela emergiu. Comunicar não é apenas uma ferramenta, mas uma causa política fundamental para sustentar a democracia, a justiça social e o direito à informação”, destaca a equipe da Pacová na apresentação da pesquisa.
Desigualdades regionais e dependência da filantropia nacional
O levantamento aponta ainda fortes disparidades regionais. O Nordeste concentra mais da metade das iniciativas mapeadas (54%), seguido pelo Norte (21%), evidenciando que a comunicação popular é mais enraizada fora do eixo Sudeste-Sul. Apesar da potência territorial, a filantropia nacional ainda é a principal fonte de apoio, 52% das organizações que acessaram recursos o fizeram por meio de fundações e ONGs brasileiras.
No entanto, o estudo mostra que o poder público participa pouco (19%), e as empresas privadas representam apenas 6% das fontes de financiamento. Esse quadro reforça a concentração de recursos e a fragilidade da cultura de doação voltada à comunicação comunitária no país.
“Ao mesmo tempo, as dificuldades de enquadrar o projeto em editais culturais ou de comunicação revelam a lacuna de financiamento para mídias comunitárias que não se encaixam em formatos convencionais”, informa o relatório.
Acesse a publicação completa em Pacová Relatório.
Caminhos para a transformação
A pesquisa propõe recomendações práticas para transformar esse cenário e fortalecer o ecossistema da comunicação popular. Entre as principais estão:
- Reconhecer a comunicação como causa – Apoiar a comunicação popular não apenas como meio de divulgar projetos, mas como uma frente política central que sustenta direitos, mobilizações e identidades;
- Financiamento de base, e não apenas por projetos – Ofertar recursos institucionais e flexíveis, que permitam planejamento de longo prazo, remuneração de equipes e fortalecimento estrutural;
- Simplificação de processos – Reduzir a complexidade dos editais, traduzir suas exigências em linguagem acessível e oferecer acompanhamento técnico ao longo do processo;
- Diversidade de formatos de apoio – Criar linhas de microfinanciamento, bolsas e apoios emergenciais que atendam organizações menores e informais, sem inviabilizá-las pela ausência de CNPJ;
- Construção coletiva das regras – Desenvolver chamadas públicas com participação das próprias organizações na definição de critérios, de modo a refletir suas realidades e necessidades.
A Pacová reforça que a mudança depende tanto de decisões institucionais e filantrópicas quanto da articulação coletiva das próprias organizações populares.
“O financiamento da comunicação deve ser entendido como investimento em democracia, em justiça social e em direitos humanos. Para as organizações populares, o desafio é continuar construindo caminhos coletivos, sistematizando experiências, incidindo de forma organizada e reafirmando que comunicar é, também, disputar projeto de sociedade”, conclui a pesquisa.
Sobre a Pacová
A Pacová nasceu em 2023, do encontro entre militantes e organizações populares que já enfrentavam, em seus territórios, os impactos da desigualdade, do racismo, do patriarcado e da emergência climática. Com missão de fortalecer a autonomia de movimentos sociais, coletivos e organizações populares por meio da articulação, incidência, formação e mobilização de recursos. Buscando transformar a filantropia, tornando-a mais acessível e conectada com os saberes e práticas locais, promovendo justiça social e climática. Para mais informações basta acessar o site oficial da Pacová.

22/03/2026 @ 22:15
Muito útil essa matéria.
Faço parte do Território Mídias Brasil, um projeto de Comunicação Popular, Periférica e do Campo.
Ficariamos muito felizes em poder colaborar com a rede e elaborar possibilidades de ascenção para uma comunicação de fato popular e democrática em nosso país.