São Paulo precisa preservar a natureza que ainda tem
Políticas Públicas

Por Fred Affonso Ferreira
É comum pensar na natureza como algo distante da vida urbana. Antes de se tornar uma metrópole de concreto, São Paulo nasceu entre rios. O Pátio do Colégio, marco inicial da cidade, foi erguido em uma colina cercada pelo Tamanduateí e pelo Anhangabaú. Séculos depois, a capital cresceu afastando de sua paisagem cotidiana a água, a vegetação e parte da biodiversidade que marcaram sua origem. O resultado aparece no calor acumulado nas ruas, na falta de sombra para quem caminha e na dificuldade cada vez maior de fazer a água da chuva encontrar espaço no solo.
Pesquisa da Universidade de São Paulo, divulgada em maio deste ano, aponta que as áreas urbanizadas mais críticas da Grande São Paulo podem atingir 60°C de temperatura de superfície no verão, enquanto regiões mais frias, associadas à maior cobertura vegetal e à presença de corpos d’água, chegam a, no máximo, 25°C. O dado mostra, de forma concreta, que a diferença entre uma cidade tomada pelo concreto e uma cidade que preserva árvores, sombra e solo permeável interfere diretamente na temperatura, no conforto urbano e na forma como as pessoas vivem o espaço público.
Em uma São Paulo cada vez mais verticalizada, ainda existem áreas que mostram outra forma de ocupar a cidade. A região dos Jardins é uma delas. Suas ruas arborizadas, praças e espaços permeáveis, para além de uma paisagem agradável, são parte de uma lógica urbana que ganha importância justamente quando a capital enfrenta calor extremo, adensamento e perda de áreas naturais.
Essa forma de ocupar a cidade vem do conceito de bairro jardim, que buscava aproximar construção, arborização, áreas livres e convivência. Nos Jardins, essas características aparecem no desenho das ruas, na presença das árvores, nas praças e nos espaços permeáveis que ainda resistem em uma área valorizada, adensada e constantemente pressionada da capital. Esse cenário não se preservou por acaso. O tombamento dos Jardins América, Europa, Paulista e Paulistano foi decisivo para proteger o traçado urbano e a vegetação, especialmente a arbórea, como partes da área protegida. Foi essa proteção que ajudou a impedir que a lógica original do bairro fosse substituída, aos poucos, por mais concreto, menos sombra e menos permeabilidade.
O desafio é impedir que essa lógica urbana seja desmontada aos poucos. A perda raramente acontece de uma vez. Ela aparece no jardim que vira piso, na árvore podada para acomodar fios, na área permeável que desaparece atrás de uma obra pequena. Em uma metrópole cada vez mais quente e adensada, essas escolhas deixaram de ser detalhes privados. Elas fazem parte da forma como São Paulo se prepara, ou deixa de se preparar para o futuro climático. Preservar o que ainda resiste dentro da cidade não é olhar para trás. É uma forma concreta de planejar o que São Paulo ainda pode ser.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
Sobre o autor: Fred Affonso Ferreira é presidente da AME Jardins, entidade que representa moradores dos Jardins, em São Paulo. Jornalista e morador da região, atua pela preservação do tombamento, pelo respeito ao zoneamento e aos projetos urbanísticos dos bairros. Também defende a ampliação das áreas verdes, a proteção do meio ambiente, a zeladoria urbana, o diálogo com o poder público e o reforço da segurança na região.
