Somos todos deficientes porque não somos todos iguais

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“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” Carl Jung

Imagem ilustrativa. Quadro ‘Operários’, de Tarsila do Amaral, que retrata parte da diversidade do povo brasileiro, principalmente de seus trabalhadores

Por Irene Reis

Se nos aprofundarmos nesta frase, tal e como ela merece, entenderemos que não faz sentido que uma pessoa se julgue superior ou inferior a outra. Menos sentido ainda que uma julgue a outra como inferior.

Quando falamos sobre deficiência, estamos perpetuando uma visão condicionada na escassez, no que falta e não na abundância. Só posso considerar o outro como menos a partir de um referencial de um mais, e é neste impasse que os desencontros acontecem.

A Síndrome da Normose, como dizia o professor Hermógenes, faz com que tenhamos à mão sempre uma etiqueta para passar adiante. O Pai haverá dito “amai o próximo”, mas por um ruído de comunicação continuamos entendendo isso como “etiquetai o próximo, eximindo-te de qualquer etiqueta que possa soar como negativa”! Ser classificado como deficiente supõe um funcionamento esperado.

DEFICIENTE: falho, falto, que não é suficiente sob o ponto de vista quantitativo, incompleto.

O dicionário traz ainda como sinônimo de deficiente: defeituoso, defectivo, errado, malfeito, carente, parco, pouco. Antônimo disso é perfeito, impecável, completo.

Completo? Sério? Podemos nos olhar no espelho e sentirmos que somos completos?

Se admitirmos que somos todos seres não prontos, não completos, não perfeitos, consideraremos, então, a hipótese de que não somos todos iguais.

A diferença, aliás, nos iguala em nossa Humanidade. Todos diferentes, somos todos deficientes em algo, mas com muito para contribuir e ensinar a outros.

Mas como a educação trata a respeito destas diferenças?

Fui entrevistar uma profissional referência no assunto, Mônica Xavier, fundadora do Empathiae, a respeito da deficiência intelectual.

Mônica define deficiência como aquilo que nos falta e que precisamos nos adaptar para, mesmo assim, termos qualidade de vida.

Para ela, a questão mais relevante hoje, com relação à pessoa com deficiência intelectual, por exemplo, e o que mais estressa as famílias, é o acesso à educação de qualidade. Precisamos de professores capacitados e motivados para que acolham e incluam nossos meninos em suas salas de aula. Sem capacitação não há inclusão, alerta ela.

Muitas famílias já estão devidamente informadas sobre os direitos de seus filhos, porém, os demais ainda não estão. Com que tipo de diversidade seu filho, sua filha, tem a oportunidade de conviver em seu ambiente escolarizado e em sua comunidade?

Para jamais concluir e sim refletir, vale pensar o que propõe Paulo Freire quando afirma que “a vida humana só tem sentido a partir da busca incessante da libertação de tudo aquilo que nos desumaniza e nos proíbe de ser mais humanos, dignos e livres em nosso ser existencialmente situado”.

Referências e sugestões para avançar na temática:

Mônica Xavier – Empathiae – Mentes diferentes. Disponível em:

<https://www.youtube.com/watch?v=m_pb31faCHk>. Acesso em 07/08/2018.

Empathiae – sobre o que é ter empatia e acolher. Disponível em:

<https://www.youtube.com/watch?v=cV8gvon8G90>. Acesso em: 07/08/2018.

Significado de “deficiente”. Disponível em:

<https://www.dicio.com.br/deficiente/>. Acesso em: 07/08/2018.

Empathiae – Organização sem fins lucrativos preocupada com a situação da família, principalmente da figura materna, quando do nascimento do bebê com deficiência. Disponível em:

<http://empathiae.org/>. Acesso em: 07/08/2018.

STRECK, D. R.; REDIN, E.; ZITKOSKI, J. J. (Orgs.). Dicionário Paulo Freire. Belo Horizonte: Autêntica, 4ª ed., 2018, p.141 – 144.

Irene Reis dos Santos

É bacharel e licenciada em letras - Português e Espanhol pela FFLCH - USP, especialista em tradução, pesquisando, no mestrado em Ciências da Educação, sobre participação de estudantes na comunidade por meios de Grêmios. Atualmente, leciona espanhol no Instituto Cervantes, contribui com editoras e é diretora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação (coreduc.org), entidade do terceiro setor que fomenta parcerias em prol da educação pública. Irene acredita que as vivências interculturais e a aprendizagem baseada em projetos de vida em comunidade são a chave para o complexo desenvolvimento da sociedade planetária.