Uma infância roubada pela guerra: a história de la petite Charlotte
Direitos HumanosLivro da autora, Silvia Wolosker Levi, reconstrói a trajetória de sua mãe, Charlotte Goldsztajn Wolosker, que teve a familia perseguida pelo regime nazista durante a Segunda Guerra Mundial; “Charlotte era apenas minha mãe, presença, colo e amor. Agora ela também é história”

O livro La Petite Charlotte: Memórias de dor. Raízes de amor, escrito por Silvia Wolosker Levi, reconstrói a trajetória de sua mãe, Charlotte Goldsztajn Wolosker, marcada pela ruptura familiar provocada pela perseguição sistemática aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
Ainda criança, Charlotte foi separada dos pais e passou anos escondida no interior da França, Apesar de distantes, eles enfrentaram destinos igualmente dolorosos sob o regime nazista.
A obra acompanha o período de sobrevivência durante o conflito e a imigração da família para o Brasil, onde foi possível reconstruir a vida, apesar do silêncio que envolvia as experiências traumáticas do passado. Ao longo dos anos, Charlotte evitou compartilhar essas lembranças com filhos e netos. Apenas recentemente, ela decidiu resgatar os fragmentos de memória guardados, transformando-os em um relato de resistência, superação e coragem.
Segundo Charlotte, o processo de reconstrução das memórias foi difícil, mas ao mesmo tempo, serviu como uma cura. “Voltei a fazer terapia, o que me ajudou a acessar essas difíceis lembranças. Mas o mais lindo, emocionante e especial de tudo foi poder ter essa experiência ao lado da minha filha. Me emociono muito pelo ato de amor que Silvia dedicou a mim.”
Já Silvia, a autora do livro, conta como o mergulho aprofundado na história da sua mãe transformou a forma como ela a enxerga. “Charlotte era apenas minha mãe, presença, colo e amor. Agora ela também é história. É coragem escrita nas entrelinhas e delicadeza de quem atravessou as piores tempestades sem perder a doçura no olhar”, destaca.
“Me sinto privilegiada de ser filha de uma mulher que, sem saber, foi sempre grandiosa e extraordinária” – Silvia Wolosker Levi
O olhar feminino sobre as memórias do Holocausto
O principal diferencial do livro está na ruptura desse silêncio intergeracional a partir de uma perspectiva ainda pouco explorada na literatura de memórias do Holocausto: o olhar feminino.
“Minha narrativa explora o cuidado silencioso, a resistência emocional e a preservação da dignidade nos detalhes mais íntimos. Trazer um olhar feminino para essa narrativa é falar sobre mulheres que mesmo diante do horror, ainda encontravam maneiras de amar, de proteger, de acolher, de sobreviver”, comenta Silvia.
Embora o testemunho das mulheres tenha sido fundamental para a preservação da história, estudos indicam que esse campo foi majoritariamente ocupado por autores homens nas antologias e rankings clássicos do gênero. Entre as vozes femininas mais conhecidas estão Anne Frank (O Diário de Anne Frank), Charlotte Delbo (Auschwitz e Depois), Olga Lengyel (Cinco Chaminés), Etty Hillesum (Um Diário Interrompido), Edith Eger (A Escolha) e Ruth Klüger (Still Alive).
Ao contribuir com o preenchimento dessa lacuna histórica, o lançamento propõe uma reflexão sobre a potência de transformar o trauma em narrativa e memória coletiva.
“Eu sou o eco dessas mulheres, que atravessaram o tempo carregando dores que não puderam nomear e, ainda assim, seguiram. Eu sou a continuação, a memória viva e espero seguir honrando tudo o que elas foram. Só sou porque elas foram”, conclui Silvia.
O silêncio de um trauma
Para o psicanalista Christian Dunker, colaborador do Observatório do Terceiro Setor, experiências traumáticas podem se tornar indizíveis por colocarem o sobrevivente diante do real. “Contar a história exigiria reviver o horror de uma forma que o sujeito não consegue suportar, pois o trauma é uma perturbação da temporalidade, onde o passado se repete como um presente eterno e angustiante”, afirma.
Segundo Dunker, o silêncio em torno dessas vivências tende a atravessar gerações, dando origem ao que chama de “neurose de destino” ou luto espectral, em que o trauma é transmitido sem ser plenamente elaborado pelos descendentes.
Conheça ONGs que acolhem pessoas em situações de trauma
No Brasil, diversas ONGs, associações e institutos trabalham com o acolhimento, tratamento e superação de lembranças traumáticas, focando em diferentes públicos e contextos, como violência, refugiados e traumas psicológicos gerais.
Aqui estão algumas das principais entidades atuantes:
- Unibes Social (União Brasileiro-Israelita do Bem-Estar Social): Realiza um programa de apoio contínuo a sobreviventes do Holocausto residentes no Brasil, focado em suporte social, financeiro e preservação de memórias, muitas vezes lidando com o trauma pós-guerra.
- Associação Brasileira do Trauma: Focada na pesquisa, tratamento e prevenção dos efeitos do trauma, utiliza o método de Experiência Somática (Somatic Experiencing – SE) para resolução de traumas psicológicos.
- Instituto Brasileiro do Trauma: Atua na capacitação profissional e no atendimento de comunidades vulneráveis, com o objetivo de tornar o Brasil um país trauma-informed (consciente do trauma).
- Pró-Vítima (Instituto Brasileiro de Atenção e Proteção Integral às Vítimas): Associação independente que oferece apoio psicológico e jurídico para vítimas de diversos tipos de violência e traumas.
- Mapa do Acolhimento: Plataforma que conecta mulheres vítimas de violência a psicólogas e advogadas voluntárias para acolhimento e superação de traumas.
- Associação Brasileira de Saúde Mental: Organização que fomenta o debate, projetos sociais e o cuidado com a saúde mental, articulando serviços que lidam com sofrimento psíquico.
- Planeta de TODOS: ONG focada no acolhimento e integração de refugiados no Brasil, oferecendo suporte para as memórias traumáticas decorrentes de conflitos.
- Centro de Valorização da Vida (CVV): Atua nacionalmente oferecendo apoio emocional gratuito e sigiloso (pelo telefone 188) para prevenção de suicídio, muitas vezes decorrente de traumas.
- Museu Judaico de São Paulo: Cultiva as diversas expressões, histórias, memórias, tradições e valores da cultura judaica, em diálogo com o contexto brasileiro, com o tempo presente e com as aspirações de seus diferentes públicos.
Confira a entrevista completa com Silvia Wolosker Levi e Charlotte Goldsztajn Wolosker
Silvia e Charlotte concederam entrevista ao Observatório do Terceiro Setor, abordando o processo de criação do livro La Petite Charlotte: Memórias de dor. Raízes de amor. Confira a conversa, na íntegra, a seguir:
Depois de mergulhar tão profundamente na história da sua mãe, o que mudou na forma como você a enxerga?
Silvia Wolosker Levi: Charlotte era apenas minha mãe, presença, colo e amor. Agora ela também é história. É coragem escrita nas entrelinhas e delicadeza de quem atravessou as piores tempestades sem perder a doçura no olhar. Ao mergulhar em sua vida, encontrei uma mulher com medos, sonhos, desafios e recomeços.
Escrever esse livro foi como abrir uma janela para enxergá-la com mais verdade e com muita admiração. Me sinto privilegiada de ser filha de uma mulher que, sem saber, foi sempre grandiosa e extraordinária.
A obra contribui para ampliar o espaço de narrativas femininas sobre o Holocausto. No seu ponto de vista, o que olhar feminino revela de diferente ou complementar sobre esse período histórico?
Silvia Wolosker Levi: Dentro de uma tragédia como o holocausto, além de números e estatísticas, existiram seres humanos lutando por sua sobrevivência que nos últimos tempos tem sido esquecido e muita vezes negado. Um detalhe curioso é que a maioria das histórias que conhecemos sobre sobreviventes do regime nazista são de personagens masculinos. Isso não se dá por acaso. Como para uma pessoa ser considerada judia precisa ter nascido de um ventre judeu, o plano de Hitler enfatizava o extermínio de nossas mulheres.
Quando decidi contar a história de minha família, conheci mais profundamente minha querida vovó Cecilia, uma mulher extraordinária e minha própria mãe, Charlotte, uma mulher que já admirava, mas sem ter a noção de sua grandiosidade. Percebi assim, a importância e responsabilidade de meu livro em retratar o impacto dos horrores do nazismo em mulheres e crianças fora dos campos de concentração.
Minha narrativa explora o cuidado silencioso, a resistência emocional e a preservação da dignidade nos detalhes mais íntimos. Trazer um olhar feminino para essa narrativa é falar sobre mulheres que mesmo diante do horror, ainda encontravam maneiras de amar, de proteger, de acolher, de sobreviver.
Eu sou o eco dessas mulheres, que atravessaram o tempo carregando dores que não puderam nomear e, ainda assim, seguiram. Eu sou a continuação, a memória viva e espero seguir honrando tudo o que elas foram. Só sou porque elas foram.
Como foi o processo de reconstruir memórias traumáticas que permaneceram ocultas por tanto tempo?
Charlotte Goldsztajn Wolosker: Foi um processo muito difícil, mas ao mesmo tempo de cura.
Voltei a fazer terapia, o que me ajudou a acessar essas difíceis lembranças. Mas o mais lindo, emocionante e especial de tudo foi poder ter essa experiência ao lado da minha filha. Me emociono muito pelo ato de amor que Silvia dedicou a mim.
Durante muitos anos, a senhora optou por não falar sobre essas memórias. Qual foi o ponto de virada que a fez romper o silêncio e compartilhar sua história?
Charlotte Goldsztajn Wolosker: O povo judeu sofreu e sofre muita discriminação e preconceito. Muitos como eu optam pelo silêncio como uma forma de apagar os horrores do passado e focar nas alegrias e conquistas do presente.
Mas em 07 de outubro de 2023, tudo mudou.
Fiquei muito assustada com o aumento do antissemitismo e com o desconhecimento do mundo sobre a ética e tradição de nosso povo.
Minhas memórias mostram que sempre o amor fala mais alto. Espero que os jovens e as futuras gerações entendam que nenhum tipo de preconceito, seja ele por cor, raça ou religião, são justificáveis.
No mundo polarizado que vivemos, devemos nos afastar dos discursos de ódio, se abrir para as diferenças e respeitar o ser humano.
Qual é a mensagem mais importante que você acredita que o livro passa aos leitores nos dias atuais?
Charlotte e Silvia: Expor ao mundo os horrores do Holocausto que exterminou 6 milhões de judeus durante a segunda guerra mundial e honrar a vida de tantas pessoas como a de minha mãe, que de alguma forma conseguiram seguir adiante.
Que a gente sempre tenha coragem para lembrar. Porque lembrar é resistir.
