50% dos brasileiros acham aceitável “dar tapas” para educar crianças
Direitos HumanosApesar de 91% dos brasileiros enxergarem o diálogo como a melhor forma de educar uma criança, 49% confessou que já deu tapas com a mão para punir

Uma pesquisa revelou como os brasileiros percebem e reagem às diferentes formas de violência contra crianças e adolescentes. Lançado na última terça-feira (14), durante evento em São Paulo, o levantamento identificou práticas violentas que ainda são socialmente naturalizadas ou confundidas com ações educativas.
Nomeada como “Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes“, o estudo chega a sua segunda edição, sendo fruto de uma parceria entre a Quaest Pesquisa e Consultoria e o Infinis (Instituto Futuro é Infância Saudável).
“Lançar essa segunda pesquisa na semana em que o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) completa 36 anos traz um significado muito importante para nós” afirmou Márcia Kalvon, Diretora-Executiva do Infinis.
Segundo ela, a ideia é que os dados possam fomentar o debate sobre a violência contra os menores, servindo de reflexão não apenas aos cuidadores, mas para toda sociedade.
A percepção dos brasileiros sobre a infância
Um dos objetivos da pesquisa também era entender o que os brasileiros pensam sobre a infância. Ao serem questionados sobre “o que é ser criança”, 42% dos entrevistados disseram que a infância é sinônimo de brincadeira. O aprendizado (11%), diversão (8%) e inocência (7%) aparecem na sequência como os termos mais citados.

Para Márcia, este foi o achado mais poético do estudo. “O brincar é extremamente fundamental para o desenvolvimento de uma criança e de um adolescente. Então, essa é uma imagem muito bonita da pesquisa”, comentou a Diretora-Executiva.
Além disso, Márcia afirmou que a definição de infância da população brasileira está de acordo com a filosofia do Infinis, que enxerga o brincar como uma ferramenta poderosa tanto para o desenvolvimento quanto para suavizar os momentos de estresse e trauma enfrentados pelos jovens.
Nesse sentido, ela citou o trabalho do Sabará Hospital Infantil que, assim como o Infinis e o Instituto Pensi, faz parte do ecossistema da Fundação José Luiz Setúbal. Referência em pediatria no Brasil, o Sabará foi pioneiro no país ao oferecer suporte de Child Life Specialists aos seus pacientes.
Os Child Life Specialists são profissionais de saúde que ajudam crianças e suas famílias a lidarem com o estresse e o medo gerados por internações e procedimentos médicos. Eles utilizam justamente o brincar terapêutico, assim como outras estratégias de enfrentamento, para reduzir traumas e promover um ambiente hospitalar mais acolhedor e seguro.
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O tapa ainda é visto como um método aceitável para educar
O levantamento buscou entender como os brasileiros idealizam a educação das nossas crianças e adolescentes. De forma geral, a população reconhece que conversa e o castigo deveriam ser as punições mais severas, com apenas 4% dos brasileiros afirmando que atitudes mais rígidas, como dar tapas ou uma surra, são aceitáveis.

No entanto, o levantamento fez questão de salientar que esse resultado pode estar sujeito ao viés de desejabilidade social, quando existe a tendência dos indivíduos ajustarem suas respostas para se apresentarem de forma mais socialmente aceita. Esse fenômeno tende a afetar a mensuração de opiniões e comportamentos, sobretudo em temas sensíveis.
Embora considerem que o melhor modo para educar e punir seja a conversa, os brasileiros reconhecem que já gritaram, bateram, ou castigaram uma criança. Nesse aspecto, vale o destaque para o tapa com a mão, que é praticado e aceito por um número expressivo de brasileiros. Segundo o estudo, 50% consideram aceitável punir desse modo, já tendo praticado alguma vez.
Existe também um outro ponto paradoxal quando se trata das agressões físicas. Apesar de recriminarem essas repressões, 62% dos brasileiros preferem se omitir ao ver uma criança apanhando ou levando puxões de orelha na rua.
32% dos brasileiros não fariam nada, porque “cada um sabe da própria vida”, enquanto 30% até gostariam de intervir, “mas ficariam constrangidos de falar alguma coisa”.

“Acho que esse é um traço que traduz, em alguma medida, a naturalização da violência na sociedade brasileira, mas também é um traço desse nível de individualismo e atomização que a sociedade está alcançando”, afirmou Felipe Nunes, Sócio-Fundador da Quaest.
Esse pensamento individualista sobre a criação das crianças segue na contramão dos princípios do ECA. Afinal, a Lei nº 8.069/1990 estabelece que assegurar os direitos básicos das crianças e adolescentes é um dever compartilhado pela família, sociedade e o Estado.
O papal da educação contra a violência punitiva
Durante a apresentação do levantamento, Felipe Nunes destacou a educação como um dos principais caminhos para romper esse ciclo de violência. Nesse sentido, ele citou o acesso à informação e os maiores índices de escolaridade como fatores fundamentais.
“É sempre importante e necessário reforçarmos como a educação e o nível de escolaridade da sociedade é um tema central para que a gente consiga ativar outras pautas”, disse.
No entanto, Nunes reforçou que também é preciso ir além, construindo políticas públicas, coletando dados e gerando um senso de conscientização coletiva. “O que a gente fez no evento de hoje é uma forma de contribuir. Ou seja, mostrar dados e fazer as pessoas se enxergarem neles.”
Sobre o estudo
A segunda edição do estudo “Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças adolescentes no Brasil” realizou 2.202 entrevistas entre 29 de maio a 7 de junho, contando com uma margem de erro estimada de 2 pontos percentuais.
A coleta dos dados foi realizada por meio de entrevistas face-a-face (cara a cara), por meio da aplicação de questionários estruturados. O público-alvo do estudo eram brasileiros com 18 anos ou mais.
