Quase 90% dos brasileiros enxergam desigualdade de gênero

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Mesmo assim, muitos se calam sobre o problema; dados são de pesquisa dos institutos Avon e Locomotiva

desigualdade de gênero
Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, apresenta dados de pesquisa durante Fórum Fale Sem Medo – Crédito da imagem: Josilene Rocha

Existe desigualdade entre homens e mulheres na nossa sociedade? Segundo 88% dos brasileiros, sim. O dado aparece na pesquisa ‘O papel do homem na desconstrução do machismo’, lançada no dia 7 de dezembro pelo Instituto Avon e pelo Instituto Locomotiva, e é só o primeiro dado de muitos que mostram a urgência de discutir a busca pela igualdade de gênero.

Um exemplo de ambiente em que a desigualdade é clara é o mercado de trabalho. Enquanto a média salarial de um homem branco com ensino superior completo é de R$ 6.590, a média salarial de uma mulher branca com o mesmo grau de instrução é de R$ 3.915. Falamos aqui em raça porque ela também é um fator de desigualdade: homens negros com ensino superior ganham em média R$ 4.730 e mulheres negras, R$ 2.870.

A divisão de tarefas em casa é outro exemplo de como as mulheres são afetadas pelo machismo no dia a dia. Elas são as principais responsáveis por quase todas as atividades domésticas. Em 84% das casas, são elas que lavam as roupas; em 81%, são elas que cozinham e limpam a casa; em 76%, são elas que passam as roupas. A única “tarefa doméstica” que os homens executam mais do que as mulheres é dirigir. E há uma divisão igualitária na hora de colocar o lixo para fora.
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Outro dado que chama a atenção é que apenas 59% dos brasileiros concordam que “todas as mulheres devem ser respeitadas, não importando sua aparência ou seu comportamento”. “Me preocupam os que ainda não têm certeza disso, porque não é uma questão de politicamente correto, mas sim de civilização contra a barbárie”, destaca Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva.

A pesquisa também mostrou que 27% dos brasileiros acreditam que, em alguns casos, a mulher pode ter culpa por ter sido estuprada.

“Precisamos desconstruir a ideia de que os homens têm direito sobre o corpo da mulher”, alerta Amanda Lemos, da ONU Mulheres.

Discurso x prática

84% dos entrevistados pela pesquisa afirmaram que “todos deveriam lutar por um mundo menos machista” e 78% disseram acreditar que as mulheres devem conhecer seus direitos e ser incentivadas a lutar por eles. Em contrapartida, nem todas essas pessoas colocam em prática essa filosofia.

Mesa para debater pesquisa contou com diversos especialistas sobre relações de gênero - Crédito da imagem: Josilene Rocha
Mesa para debater pesquisa contou com diversos especialistas sobre relações de gênero – Crédito da imagem: Josilene Rocha

78% admitiram que não interferem em briga de casal ou interferem apenas se houver algum tipo de violência extrema. Além disso, 61% consideram que a mulher que se deixou fotografar também tem culpa quando um homem compartilha suas imagens íntimas sem autorização.

Outro ponto que ficou claro com o estudo é que muitos homens, embora sejam contra o desrespeito às mulheres, preferem se calar diante dos amigos, por medo de serem julgados. 31% dos homens ouvidos disseram apoiar o feminismo, mas não defender a causa na frente de outros homens, e 24% disseram não ter coragem de sair em defesa das mulheres no meio de outros homens. Assim, eles acabam sendo coniventes com diversas violências contra as mulheres.

Conversa “de homem para homem”

Uma das principais conclusões da pesquisa foi que a forma mais eficiente para combater o machismo é o diálogo. 34% dos homens entrevistados afirmaram ter deixado de praticar alguma atitude violenta contra a mulher. Desses, 54% mudaram de atitude por causa de uma conversa com alguém próximo.

Pesquisa entrevistou 1.800 homens e mulheres, em 70 municípios distribuídos pelas cinco regiões do país - Crédito da imagem: Josilene Rocha
Pesquisa entrevistou 1.800 homens e mulheres, em 70 municípios distribuídos pelas cinco regiões do país – Crédito da imagem: Josilene Rocha

A conversa é especialmente efetiva se for entre homens: 35% dos que afirmaram ter parado com ao menos uma atitude violenta contra a mulher fizeram isso por conselho de um amigo ou parente homem.

As redes sociais e campanhas educativas também funcionam para muita gente. 18% dos homens que mudaram alguma atitude fizeram isso por causa de posts e comentários nas redes sociais ou campanhas.

E, se o diálogo é um bom caminho, um discurso mais agressivo é exatamente o oposto. 44% dos homens afirmaram que ser chamados de machistas não os incentiva a se envolver mais no enfrentamento ao preconceito e à violência contra a mulher.

“Para chegarmos aos homens, precisamos usar mensagens positivas. Não adianta apenas apontar o dedo para eles”, explica o canadense Michael Kaufman, do Instituto Promundo. De acordo com ele, no Brasil ou em outros países, como no próprio Canadá, é através de mensagens positivas que você gera mudanças de comportamento, pois ninguém gosta de ser julgado.

O machismo também afeta os homens

Outra questão levantada durante os debates do Fórum Fale Sem Medo, no qual a pesquisa foi lançada, é que os homens precisam entender que o machismo também é negativo para eles.

O canadense Michael Kaufman, do Instituto Promundo, falou sobre as angústias causadas pelo machismo - Crédito da imagem: Josilene Rocha
O canadense Michael Kaufman, do Instituto Promundo, falou sobre as angústias causadas pelo machismo – Crédito da imagem: Josilene Rocha

Por mais que através da cultura machista os homens conquistem uma série de privilégios, como a maioria dos altos cargos em organizações públicas e privadas, essa cultura também os torna mais suscetíveis a frustrações e até ao suicídio.

“Desde o nascimento de um menino, vêm aqueles estereótipos de que ele tem que ser forte, corajoso, poderoso, sem sentimentos. E ninguém pode ser tudo isso”, destaca Kaufman. “E quando o homem foge desse padrão ‘homem de verdade’, ele é humilhado”, continua.

Ainda segundo o canadense, essas cobranças sociais são parte do motivo da violência do homem contra a mulher. A frustração e a insegurança geram um desespero, uma atitude violenta. Claro que isso não justifica o fato de os homens serem violentos com as mulheres, mas serve como uma possível explicação para muitos casos.

Além de Kaufman, o psicólogo Leandro Feitosa, que trabalha com grupos de homens agressores, é outro defensor da tese de que a pressão para que os homens se encaixem no estereótipo do “homem de verdade” é, muitas vezes, desencadeadora da violência.

O Fórum Fale Sem Medo

Djamila Ribeiro, pesquisadora na área de Filosofia Política, professora (FESPSP) e secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, foi uma das participantes do evento - Crédito da imagem: Josilene Rocha
Djamila Ribeiro, pesquisadora na área de Filosofia Política, professora (FESPSP) e secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, foi uma das participantes do evento – Crédito da imagem: Josilene Rocha

O fórum foi realizado no Auditório MASP Unilever, em São Paulo, no dia 7 de dezembro, contou com o lançamento da pesquisa dos institutos Avon e Locomotiva e com uma série de debates, todos focados no papel do homem na desconstrução do machismo.

Tanto o evento quanto o estudo fazem parte da campanha ‘Fale sem Medo – Não à Violência Contra a Mulher’, coordenada pelo Instituto Avon.