Os Desafios contemporâneos e as mudanças culturais

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Em evento realizado pelo Instituto Ethos, foram debatidos temas ligados aos Direitos Humanos que nos fazem refletir sobre desigualdade social no país

ethos

O Dia Internacional dos Direitos Humanos será comemorado no dia 10 de dezembro em todo o mundo. Mas aqui no Brasil será que devemos mesmo comemorar?

Para refletirmos sobre essa data e sobre essa causa, o Instituto Ethos realizou na última quarta-feira (07 de dezembro) o evento Diálogos Ethos – Desafios Contemporâneos. A proposta foi debater sobre o setor empresarial, a mobilidade urbana e, é claro, sobre Direitos Humanos em diferentes frentes: equidade de gênero e raça e também o combate ao trabalho infantil.

O papel do setor privado na garantia dos Direitos Humanos se tornou fundamental. Atualmente, com a política em crise e com a deficiência das políticas públicas, o primeiro passo para estimular as questões como equidade de gênero e racial e combate ao trabalho infantil está sendo dado por empresas de grande porte.

Empresas – Equidade de Gênero e Raça

Em parceria com o Centro Britânico Brasileiro, o evento foi uma oportunidade para o lançamento do Guia Temático dos Indicadores Ethos – CEERT para promoção da equidade racial, que tem como objetivo estimular a diversidade racial, oferecendo orientações de medidas para diminuir a desigualdade e para identificar as boas práticas já existentes.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Ethos, em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mostra que nas 500 empresas participantes as mulheres representam apenas 13,6% da área executiva. O único setor das empresas que possui mais mulheres do que homens é o setor de estágio. Elas representam 58,9% dos estagiários.

A ironia dessa desigualdade é que as mulheres tendem a ter mais estudos do que os próprios homens. Enquanto elas têm em média 7,5 anos de estudos, os homens têm 7 anos. Do contingente de brasileiros que passam dos 15 anos de estudos, as mulheres representam 58,1%.

“A nossa participação no Congresso Nacional gira em torno de 10%, e no Supremo e no Executivo também há um vazio de diversidade. Nós temos o desafio de intensificar a perspectiva de gênero. Seriam necessários 80 anos para que a igualdade fosse alcançada”, afirmou Flavia Piovesan, secretária especial de Direitos Humanos do Ministério da Justiça e Cidadania.

Quando falamos de cor e raça, os índices pioram ainda mais. No quadro executivo, os negros representam 4,7%. O setor de trainees é o que concentra a maior parte de negros, com 58,2%. E cerca de 50% das empresas dizem que essa diferença é devido à falta de qualificação da pessoa negra para determinados cargos.

A pesquisa completa pode ser acessada através do link.

Trabalho Infantil

O trabalho realizado por jovens abaixo de 16 anos é considerado crime, mas, ainda assim, aqui no Brasil existem milhões de crianças nessa situação. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD), existem cerca de 2,2 milhões de jovens trabalhando ilegalmente.

Apesar de o número ter diminuído em comparação ao ano passado (2,6 milhões), ele ainda é muito alto. O trabalho infantil também abrange as crianças que vendem mercadorias nas ruas e faróis das cidades.

Quase 2 milhões de jovens em idade escolar estão fora da escola, e o principal motivo é a busca de trabalho para auxiliar nas despesas de casa. Muitos dos jovens que desistem dos estudos antes de concluir o Ensino Fundamental II ou o Ensino Médio dificilmente voltam a estudar.

“A gente dá muita ênfase ao desenvolvimento infantil, nos três primeiros anos de vida, que é essencial, mas nós criamos uma interpretação de que aquele investimento iria garantir o desenvolvimento da criança no futuro, mas não é o suficiente”, declarou Mário Volpi, coordenador do programa de Cidadania dos Adolescentes do Unicef. “As crianças estão sendo protegidas na primeira década da vida apenas, e na segunda não. A queda do número de mortalidade infantil é compensada no aumento do número de jovens mortos”, completou.

 

Processo Cultural

Ambas as situações de gênero e raça e também de trabalho infantil são consideradas heranças de uma cultura cujo desenvolvimento partiu da premissa de que mulher é feita para ficar em casa, negro é pobre e sem educação e que quanto mais cedo o jovem começa a trabalhar, mais rápido ele cresce.

Percebemos que nos últimos anos esses assuntos foram bastante debatidos, em busca de soluções. O movimento feminista ganhou mais força, a luta pela igualdade racial tomou conta de boa parte da população e a busca por uma educação de qualidade se tornou cada vez mais exigente.

Mais do que implantar os direitos humanos em empresas, é necessário que sejam realizadas políticas públicas que compreendam essas mudanças culturais. Mas temos que reconhecer que o setor privado é fundamental para essa garantia de direitos, pois é a partir das oportunidades dadas por eles e pela aceitação da diversidade que cada jovem poderá ter motivação para melhorar suas condições de vida.