O plástico é tão problemático quanto o sistema que o produz descontroladamente

Economia Circular
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Não basta reciclar, é preciso reinventar todo o sistema produtivo, da matéria-prima ao descarte

 

Por Marcelo Souza

Enquanto celebramos mais um Dia Internacional Sem Sacola Plástica, em 3 de julho, é preciso ir além do discurso simplista de “consciência individual”.

O problema está tanto no material plástico, desde sua extração de combustíveis fósseis até sua persistência ambiental, quanto no modelo econômico que explora essas características de forma predatória.

Se o plástico revolucionou setores como medicina e tecnologia, sua produção em escala suicida – cerca de 400 milhões de toneladas anuais, com 79% virando lixo – transformou suas propriedades úteis em uma ameaça global.

O material que poderia ser valioso torna-se vilão quando extraído, produzido e descartado sem qualquer compromisso com os limites planetários.

Sou testemunha disso há décadas, trabalhando com logística reversa de eletrônicos.

 

O mito da responsabilidade compartilhada

A indústria plástica repete como mantra que “todos somos responsáveis”, mas os números desmentem essa narrativa.

Segundo a OCDE, apenas 9% do plástico global é reciclado, e não por falta de esforço dos cidadãos, e sim porque 90% dos resíduos plásticos sequer são projetados para serem recicláveis.

Enquanto isso, grandes corporações continuam empurrando embalagens descartáveis, sabendo que 13 milhões de toneladas vazam para os oceanos anualmente. É cinismo falar em “consumo consciente” diante deste cenário tão assustador.

 

Uma alternativa

Não precisamos de mais sacolas retornáveis; precisamos de leis que proíbam plásticos de uso único, como já ocorre em 34 países.

Precisamos de tributação pesada sobre plásticos virgens – que hoje são absurdamente mais baratos que resinas recicladas.

Também precisamos de transparência. Pressionar as marcas para que declarem publicamente quantas toneladas produzem e onde terminam.

Na Europa, o PPWR (Plastic Packaging Waste Regulation) avança nisso; aqui, sequer temos dados oficiais sobre reciclagem.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor

 

Sobre o autor: Marcelo Souza é CEO da Indústria Fox – Economia Circular, preside o Conselho da Ilumi Materiais Elétricos e atua em conselhos do CIESP e da Fiesp. Professor da PUC-Campinas, é presidente do Instituto Nacional de Economia Circular (INEC) e autor de três livros, incluindo a antologia Reciclagem de A a Z.