Uso excessivo da IA pode gerar “dívida cognitiva”, mas especialista afirma que a tecnologia não substitui o pensamento humano 

Educação
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Convidado do programa Olhar da Cidadania, o psicólogo Otávio Cabral-Marques debate os impactos da inteligência artificial no desenvolvimento cognitivo e explica por que a tecnologia deve ser uma aliada e não um substituto  do pensamento crítico.

(Foto: Magnif

Por Vitória Serrão.

A tecnologia tem ampliado as possibilidades humanas em diversos setores. No caso da inteligência artificial (IA), a otimização do tempo na realização de tarefas é um dos benefícios mais evidentes. No entanto, essa praticidade também tem levantado debates sobre o aumento do comodismo e a redução dos estímulos ao pensamento crítico no cotidiano.

Estudos apontam que o uso excessivo de ferramentas de inteligência artificial pode comprometer habilidades relacionadas ao pensamento crítico, especialmente por meio do fenômeno conhecido como descarregamento cognitivo (cognitive offloading), em que tarefas mentais são delegadas à tecnologia. 

Uma pesquisa do MIT Media Lab, intitulada “Your Brain on ChatGPT”, introduziu o conceito de “cognitive debt” (dívida cognitiva), que relaciona o uso frequente da IA a uma possível redução da capacidade cognitiva quando as pessoas deixam de realizar atividades intelectuais simples por conta própria.

Diante desse cenário, o programa Olhar da Cidadania recebe o professor Otávio Cabral-Marques, psicólogo, biólogo e livre-docente em Medicina Molecular pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). No episódio “Uso da IA e redução cognitiva”, o especialista discute como a inteligência artificial tem transformado rapidamente a forma como estudamos, trabalhamos e produzimos conhecimento, além de refletir sobre os impactos dessa tecnologia no desenvolvimento do pensamento crítico.

O conhecimento vai além de respostas rápidas 

Para o psicólogo Otávio Cabral-Marques, a percepção de que a inteligência artificial pode reduzir a capacidade humana de pensar está relacionada a uma visão limitada sobre o papel da tecnologia. Segundo ele, a IA deve ser compreendida como uma ferramenta capaz de ampliar as possibilidades humanas, e não de substituí-las.

“A inteligência artificial é uma ferramenta. O que parecia reduzir nossa cognição pode, na verdade, abrir espaço para ampliá-la, permitindo que dediquemos mais tempo à criatividade, às artes e a outras dimensões do desenvolvimento humano.”

O especialista compara o momento atual às grandes transformações tecnológicas vividas pela humanidade desde a Revolução Industrial. Para ele, toda inovação provoca incertezas em um primeiro momento, mas tende a gerar novas formas de desenvolvimento ao longo do tempo.

“Estamos no meio de uma revolução tecnológica. No começo ela assusta, mas, depois de uma desordem inicial, surge uma nova ordem, uma evolução.”

Cabral-Marques afirma que o desafio está em compreender a inteligência artificial como uma aliada. Ao assumir tarefas repetitivas e operacionais, a tecnologia pode liberar as pessoas para atividades que exigem criatividade, pensamento crítico e inovação, reforçando que o conhecimento humano vai muito além da capacidade de oferecer respostas rápidas.

Sobre o Olhar da Cidadania

O Olhar da Cidadania é um programa do Observatório do Terceiro Setor, apresentado pelo jornalista Joel Scala, contando com as colunas de Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP e Paulo Artaxo professor titular e chefe do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP.

O programa vai ao ar todas às quintas-feiras às 13:30h, na Rádio USP (São Paulo: 93.7 FM / Ribeirão Preto: 107.9 FM). Também é possível conferir os episódios posteriormente no portal do Observatório.

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