ACNUR acompanha chegada de haitianos e fortalece ações de acolhimento no Brasil

Direitos Humanos
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A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) tem apoiado desde a recepção de voos até ações de inclusão socioeconômica dos haitianos, em um trabalho realizado em parceria com organizações da sociedade civil e organizações lideradas por pessoas refugiadas

O mediador intercultural Jude Sam Mondesir tem apoiado a comunicação com os grupos recém-chegados (©ACNUR/Paola Bello)

O Brasil voltou a receber grupos que chegam do Haiti em busca de proteção, após a retomada das emissões de vistos de reunião familiar. Com o apoio de organizações lideradas por pessoas refugiadas, famílias têm fretado voos que chegam diretamente a diferentes cidades brasileiras. Apenas nesta semana, dois voos fretados aterrissaram. O primeiro chegou em Campinas (SP), na terça-feira (14), e o segundo, nesta quarta (15) em Guarulhos (SP), com escala em Manaus (AM). Cerca de 180 pessoas haitianas chegaram em cada voo.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) viabilizou a presença de um mediador intercultural na recepção dos grupos nos aeroportos, em parceria com a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo. Com essa ação, o objetivo do ACNUR é tornar mais compreensíveis e acessíveis as informações repassadas no momento da chegada.

Além disso, a agência aplicou questionário para identificar as principais demandas e apoiou a recepção e transporte das pessoas que chegaram em Manaus e Guarulhos e seguiram para outras cidades. Este último trabalho foi feito em parceria com organizações lideradas por pessoas refugiadas – a Associação dos Trabalhadores Haitianos no Amazonas (ATHAM) e a Associação dos Haitianos no Brasil (AHB).

“Como associação, nosso papel é garantir que as pessoas cheguem bem ao destino. Compramos as passagens de ônibus para as outras cidades, damos um prato de comida de boas-vindas, ajudamos a fazer câmbio de dinheiro e compras também. Quem vai para Porto Alegre, nós acompanhamos até a rodoviária ou até a chegada do familiar no aeroporto”, explica Anne Milceus, liderança à frente da Associação dos Haitianos no Brasil (AHB). A associação está localizada em Porto Alegre (RS) e, nesta quarta (15), esteve na recepção das cerca de 170 pessoas que chegaram em Guarulhos (SP).

Jeanne-Marie Hippolite estava entre as pessoas apoiadas em Guarulhos. Ela conta que veio para o Brasil para encontrar a família, que há três anos vive no Paraná. “Vim para o Brasil porque aqui é mais seguro. Estou feliz porque vou reencontrar minha família depois de tantos anos. Ainda não falo português, então para mim foi muito importante contar com esse apoio na chegada, com pessoas que falam meu idioma, me deram atenção e me passaram informações. Também agradeço o apoio que recebi com o transporte. Acabei de chegar e já me sinto em casa”, afirma.

A haitiana Jeanne-Marie Hippolite chegou nesta quarta, 15, a Guarulhos (SP) e recebeu apoio do ACNUR para reencontrar a família no Paraná (©ACNUR/Paola Bello)

Ao longo do ano, equipes do ACNUR apoiaram e acompanharam voos que chegaram em Porto Alegre (RS), Florianópolis (SC), Foz do Iguaçu (PR), Curitiba (PR), Campinas (SP), Guarulhos (SP), Manaus (AM) e Belém (PA). Além do apoio com transporte e recepção, o foco da atuação das equipes tem sido dar suporte aos casos de proteção às crianças e adolescentes desacompanhados ou separados, assim como o referenciamento das pessoas em situação de maior vulnerabilidade social aos serviços públicos.

“Junto à Polícia Federal e à Defensoria Pública, fazemos a identificação de casos de crianças ou adolescentes haitianos desacompanhados ou separados que precisam de procedimentos especializados de regularização documental e de guarda. Esse é um passo importante, logo na chegada ao Brasil, para garantir a proteção à criança de forma alinhada às diretrizes do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente e ao Guia desenvolvido pelo Conanda com o ACNUR, Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania e Unicef, explica a oficial de proteção do ACNUR, Silvia Sander.

Os desafios linguísticos

A comunicação é uma barreira que surge logo na chegada dessa população ao país. Afinal, os haitianos têm como idiomas oficiais o crioulo e o francês. Para apoiar a compreensão de tantas informações que são passadas na chegada dos voos, existem profissionais de mediação intercultural que atuam como ponte e ajudam a facilitar a comunicação, o entendimento e a convivência.

Com apoio do ACNUR, pessoas haitianas têm sido treinadas e contratadas como mediadoras interculturais na recepção dos voos. No Rio Grande do Sul, por exemplo, essa ação tem sido feita em parceria com o Serviço Jesuíta para Migrantes e Refugiados (SJMR), enquanto em São Paulo, a contratação de mediação é feita por meio da Cáritas Arquidiocesana.

Há 13 anos no Brasil, Jude Sam Mondesir lembra das próprias experiências quando realiza as mediações. “A língua portuguesa é uma das maiores barreiras para quem chega pela primeira vez ao Brasil. Quando a pessoa encontra alguém que fala o seu idioma, ela se sente mais tranquila, compreendida. Além disso, quem já passou por esse processo entende quais são os medos e as dúvidas que surgem nesse momento. Eu passei bastante dificuldade quando cheguei e hoje consigo superar esses desafios. É importante ter um mediador para ajudar as pessoas a superarem também”, explica.

Para facilitar o processo de chegada e inclusão, o ACNUR também oferece a página Help em crioulo e materiais informativos no idioma voltados às comunidades haitianas.

Crise humanitária no Haiti

Estima-se que 6,4 milhões de pessoas necessitem de assistência humanitária, enquanto quase 6 milhões estão à beira da fome. A escalada da violência deslocou internamente quase 1,5 milhão de pessoas, sendo que metade desse total foi deslocada entre agosto de 2024 e março de 2026.

Em nota, o ACNUR afirmou que acompanha com profunda preocupação o agravamento da situação de segurança, direitos humanos e condições humanitárias no Haiti. Diante desta rápida deterioração, o ACNUR emitiu orientações legais para garantir que a proteção internacional a refugiados seja garantida às pessoas haitianas.