Economia circular direciona políticas públicas para um horizonte mais próspero e democrático
Economia Circular
A PNEC é só o primeiro passo de uma jornada que vai definir os rumos e o progresso do país

Por Marcelo Souza
Ao longo dos mais de 15 anos dedicados inteiramente aos estudos, análises e construção teórica e prática em torno da economia circular, posso finalmente afirmar que estamos tratando desse tema tão urgente com a devida atenção.
É cômico – para não dizer trágico – que em pleno 2025 ainda há figuras de relevância que subestimam o assunto ou classificam como uma mera “tendência”. Para estes, eu reforço: estamos falando de uma mudança estrutural na forma como produzimos, consumimos e descartamos.
E o Brasil deu um passo histórico de profunda relevância histórica nessa direção, com a aprovação da Política Nacional de Economia Circular (PNEC). Isso nos revela que o tema ganhou relevância a nível de política pública. Confesso que fico muito esperançoso com isso.
Esse documento representa a materialização de anos de debates, pesquisas e esforços coletivos para inserir a circularidade no centro da estratégia de desenvolvimento do país.
Os números mostram a urgência dessa transição: segundo dados do Banco Mundial, o Brasil gera anualmente mais de 2,4 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos, com taxa de reciclagem abaixo de 3%. Enquanto isso, o potencial econômico não aproveitado nesses materiais ultrapassa R$ 14 bilhões por ano.
O que me chamou a atenção na política recentemente aprovada é sua abordagem pragmática. Ela não se limita a estabelecer metas, mas cria mecanismos concretos para alcançá-las.
Lições globais, alternativas locais
Um exemplo é o sistema de incentivos fiscais para empresas que adotarem práticas circulares, algo que já mostrou resultados expressivos em países como a China, onde a taxa de reciclagem de metais raros em eletrônicos saltou de 12% para 45% em cinco anos após medidas similares.
Durante o Fórum Mundial de Economia Circular (WCEF) deste ano, tive a oportunidade de discutir com especialistas internacionais como essas políticas estão se tornando globais. A China, por exemplo, já incluiu a economia circular em seu último plano quinquenal, com investimentos que ultrapassam US$ 50 bilhões.
O interessante é que, apesar das diferenças de escala, os desafios são parecidos: como integrar pequenos recicladores às cadeias formais? Como garantir que as inovações em design de produtos realmente facilitem a reparação e reciclagem?
A política brasileira acerta ao abordar essas questões de frente. Ela estabelece desde a criação de centros de pesquisa em ecodesign até a simplificação de normas para cooperativas de catadores. Isso nos mostra o quão sofisticado e democrático está sendo o debate.
Adesão e desafios
Os resultados começam a aparecer. Um levantamento recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que 85% das médias e grandes indústrias brasileiras já desenvolvem pelo menos uma prática de economia circular, e 68% dos empresários relatam que essas ações contribuem para a redução de emissões de gases de efeito estufa.
Claro, os desafios permanecem. Ainda precisamos avançar em regulamentações específicas, especialmente para setores como o têxtil e o de construção civil. E é fundamental monitorar a implementação da política nacional, garantindo que ela não vire letra morta. Mas o caminho está traçado.
O que aprendi nesses anos todos trabalhando com economia circular é que políticas públicas robustas não nascem prontas. Elas são construídas passo a passo, promovendo ajustes necessários e sempre ao lado da população.
O importante é manter o rumo. E o Brasil, com sua nova política nacional, mostrou que está pronto para fazer parte dessa transição que está transformando lixo em valor, problemas em soluções, e desafios em oportunidades.
A economia circular chegou para ficar. E agora está na agenda do desenvolvimento brasileiro.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
