Como está a Captação de Recursos esse ano?
Captação de Recursos
Por Luiza Serpa
Nos últimos meses, uma pergunta tem se repetido nas minhas conversas: “E aí, como está a captação de recursos? Está parada, né? Sabe o motivo?”
É como se houvesse um consenso silencioso de que a doação no Brasil estivesse congelada, travada entre crises políticas, econômicas e um cenário de polarização que lembra o clima dos Estados Unidos em tempos de Trump. Mas será que essa é a realidade?
A Pesquisa Doação Brasil 2024, realizada pelo IDIS e Ipsos, ajuda a responder. O estudo revela que, no ano passado, o volume total de doações individuais no país chegou a R$ 24,3 bilhões — um aumento em relação ao ciclo anterior. Em outras palavras, a captação não está parada. Há dinheiro circulando. O que mudou foi o comportamento do doador?
Os dados mostram quedas significativas na forma como doamos: a doação de bens caiu de 75% em 2022 para 67% em 2024; a recorrência mensal, de 44% para 39%; e a fidelidade — doar para a mesma organização ano após ano — recuou de 55% em 2020 para 49% em 2024. O doador está presente, mas menos comprometido a longo prazo.
Isso explica por que tantas organizações sentem um “vazio” mesmo diante do crescimento nominal. Captação não é só volume, é previsibilidade. Sem doações recorrentes e vínculos sólidos, a sustentabilidade fica ameaçada. E aqui entram outros elementos que vão além da economia: a perda de confiança nas instituições e o desgaste emocional com a polarização política.
A polarização rouba espaço da empatia. Quando o debate público é tomado por narrativas ideológicas e desinformação, causas sociais perdem protagonismo e doadores se retraem, muitas vezes por medo de se associarem a agendas distorcidas ou por passarem a se preocupar ainda mais consigo mesmo. Some a isso a tendência de doar mais em situações emergenciais, que estão bastante recorrentes como enchentes, desastres, crises humanitárias, e menos para causas permanentes, estruturantes e aí temos um quadro de captação instável.
Para reverter esse cenário, é preciso mais do que campanhas criativas. É urgente reconstruir confiança, mostrando com clareza a importância dessa atuação e os resultados gerados. É hora de valorizar a recorrência, criando mecanismos que facilitem doações mensais. É estratégico aproveitar os picos de generosidade em emergências para engajar apoiadores de forma duradoura. E, acima de tudo, é essencial comunicar para além da polarização, resgatando valores universais que unem — e não dividem — as pessoas.
A captação de recursos no Brasil não está parada. Mas ela está, sim, mais desafiadora. O caminho é estreito, mas possível: passa por consistência, transparência e capacidade de criar vínculos que sobrevivam às crises e ao barulho político.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

30/08/2025 @ 13:47
Muito boa a visão da Luiza. A importância do comprometimento do doador com a continuidade da doação para possibilitar a longevidade das ações das organizações