IPPF reúne especialistas para fortalecer a resposta global à Aids
Direitos HumanosÀs vésperas da 26ª Conferência Internacional de Aids (Aids 2026), a Federação Internacional de Planejamento Familiar para a Região das Américas e Caribe reúne lideranças globais em pré-conferência e reforça defesa da integração dos serviços de saúde

A Federação Internacional de Planejamento Familiar para a Região das Américas e Caribe (IPPF ACRO) promoverá, no próximo 26 de julho, no Rio de Janeiro, uma pré-conferência para discutir os principais desafios da resposta global ao HIV, reunindo representantes de organismos internacionais, governos, sociedade civil, pesquisadores e lideranças comunitárias.
O evento preparatório antecede a 26ª Conferência Internacional de Aids, que será realizada de 27 a 31 de julho, também na capital fluminense. A mobilização ocorre diante de um cenário preocupante de redução do financiamento internacional e ampliação das desigualdades no acesso à saúde.
Ao falar sobre o propósito da pré-conferência, Maria Antonieta Alcade, Diretora Geral do IPPF, afirma que a mensagem central do evento é destacar que a eficácia da resposta ao HIV é indissociável da garantia dos direitos humanos, da igualdade de gênero e da autonomia corporal.
“Não podemos tratar o HIV apenas sob uma ótica médica; trata-se de uma arena profundamente política que exige modelos flexíveis, liderados pelas comunidades e centrados nas pessoas em toda a sua diversidade”, diz Maria Antonieta.
A IPPF é uma das maiores redes globais dedicadas à promoção da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos, participando da conferência com uma ampla agenda de debates, encontros estratégicos e articulações políticas voltadas ao fortalecimento de uma resposta ao HIV.
Segundo Maria Antonieta, a IPPF está trazendo para o Brasil uma delegação diversa de mais de 100 líderes de 35 países para atuar como uma voz feminista combativa na agenda global. Para concretizar esse objetivo, a pré-conferência apresentará quatro momentos principais:
- um diálogo de abertura com autoridades globais e nacionais sobre a responsabilidade política necessária para reformular a governança global;
- um segmento liderado por jovens que eleva as demandas das juventudes;
- uma imersão profunda na garantia de estruturas de financiamento sustentáveis;
- um intercâmbio regional de alto nível da IPPF entre os seus membros, apresentando os modelos integrados ao redor do mundo, com o lançamento do Guia Global de Práticas de Trabalho Sexual.
A integração dos serviços de HIV e de saúde sexual e reprodutiva
Em relação aos eixos abordados, a programação da pré-conferência terá como foco temas considerados centrais para o futuro da resposta global ao HIV. Entre eles, está a integração dos serviços de HIV e de saúde sexual e reprodutiva.
Segundo a Diretora Geral do IPPF, na prática, isso significa romper com os silos dos programas de saúde e cuidar do indivíduo como um todo. “Por meio do nosso modelo integrado (IPES+), nossas associações oferecem prevenção, testagem e tratamento de HIV na mesma consulta em que o cliente acessa serviços contraceptivos, cuidados de IST/IRT (Infecções Sexualmente Transmissíveis / Infecções do Trato Reprodutivo), exames de rastreamento de câncer do colo do útero, saúde materna, aborto seguro ou apoio psicossocial para violência baseada em gênero.”
Ela destaca que essas ações são fundamentais para otimizar recursos, tempo e reduzir drasticamente o estigma que muitas vezes afasta as populações mais marginalizadas das clínicas exclusivas de HIV.
Defendendo um financiamento sustentável
O financiamento é outra pauta central defendida pelo IPPF. A proposta da federação é chegar à 26ª Conferência Internacional de Aids com uma pergunta clara e urgente: Onde está o dinheiro?
Conforme a IPPF, apesar do crescente reconhecimento global da importância da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos (SDSR), os compromissos financeiros internacionais nessa área estão aquém do necessário. Como consequência, até mesmo os progressos e conquistas fundamentais estão em risco de retrocesso.
“O risco de retrocesso é real e está piorando. Atualmente, estima-se que 40,8 milhões de pessoas vivem com HIV em todo o mundo, e o progresso histórico que acumulamos está sendo severamente ameaçado por profundas lacunas de financiamento e por uma visível fragmentação da arquitetura de saúde global”, salienta Maria Antonieta.
Segundo ela, esse sufocamento financeiro enfraquece os sistemas de coordenação e a capacidade de resposta dos países. Além disso, Maria ressalta que a escassez de insumos vitais — como testes de HIV, preservativos, antirretrovirais e ferramentas de prevenção biomédica como a PrEP — já é uma realidade em vários contextos, sobrecarregando os sistemas de saúde que enfrentam escassez de mão de obra e interrupções nos serviços.
Entre os motivos para essa escassez de financiamento, Maria Antonieta cita a combinação perigosa entre volatilidade política, crises econômicas e climáticas e uma reação agressiva anti-direitos que desestabiliza o apoio internacional.
“Especificamente, a resposta global tem sofrido com mudanças abruptas e cortes nas políticas de assistência externa de grandes doadores internacionais — como as incertezas operacionais e fiscais que cercam o futuro de mecanismos vitais como o programa norte-americano PEPFAR.”
Além disso, em muitos contextos, ela comenta que o financiamento para a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos tem sido erroneamente tratado como ajuda humanitária opcional ou moeda de troca política, em vez de ser reconhecido como o investimento estratégico e inegociável que realmente é para blindar as democracias e os sistemas de apoio social.
Sobre a Federação Internacional de Planejamento Familiar para a Região das Américas e Caribe (IPPF)
A Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF) é uma das maiores redes globais voltadas à promoção da saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos. Presente em mais de 140 países e territórios, a organização trabalha para garantir acesso a serviços de saúde de qualidade, fortalecer sistemas públicos, promover igualdade de gênero e defender o direito de todas as pessoas de decidir, de forma livre e informada, sobre seus corpos e suas vidas.
A seguir, confira a entrevista completa do Observatório com Maria Antonieta Alcade

1. Que mensagem a IPPF pretende transmitir com a pré-conferência para a Conferência Internacional de Aids?
Resposta: Nossa mensagem central é que a eficácia da resposta ao HIV é indissociável da garantia dos direitos humanos, da igualdade de gênero e da autonomia corporal. Não podemos tratar o HIV apenas sob uma ótica médica; trata-se de uma arena profundamente política que exige modelos flexíveis, liderados pelas comunidades e centrados nas pessoas em toda a sua diversidade. A história já provou isso. E a longa experiência da IPPF na prestação de serviços integrados de SSR-HIV (Saúde Sexual e Reprodutiva e HIV) vem provando isso há décadas.
Estamos trazendo para o Brasil uma delegação diversa de mais de 100 líderes de 35 países para atuar como uma voz feminista combativa na agenda global. Para concretizar isso, nossa pré-conferência oficial com a Gestos apresenta quatro momentos principais: um diálogo de abertura com autoridades globais e nacionais sobre a responsabilidade política necessária para reformular a governança global; um segmento liderado por jovens que eleva as demandas das juventudes; uma imersão profunda na garantia de estruturas de financiamento sustentáveis; e um intercâmbio regional de alto nível da IPPF entre nossos membros, apresentando nossos modelos integrados ao redor do mundo, juntamente com o lançamento do Guia Global de Práticas de Trabalho Sexual.
2. Considerando o cenário de declínio no financiamento internacional, existe o risco de o mundo perder os avanços alcançados nas últimas décadas na luta contra o HIV?
Resposta: Sem dúvida. O risco de retrocesso é real e está piorando. Atualmente, estima-se que 40,8 milhões de pessoas vivem com HIV em todo o mundo, e o progresso histórico que acumulamos está sendo severamente ameaçado por profundas lacunas de financiamento e por uma visível fragmentação da arquitetura de saúde global. Esse sufocamento financeiro enfraquece os sistemas de coordenação e a capacidade de resposta dos países. A escassez de insumos vitais — como testes de HIV, preservativos, antirretrovirais e ferramentas de prevenção biomédica como a PrEP — já é uma realidade em vários contextos, sobrecarregando os sistemas de saúde que enfrentam escassez de mão de obra e interrupções nos serviços. Se as comunidades mais afetadas continuarem a ser excluídas e os recursos continuarem a minguar, as consequências para a saúde pública global serão catastróficas.
3. O que explica esse declínio no financiamento?
Resposta: Estamos testemunhando uma combinação perigosa de volatilidade política, crises econômicas e climáticas e uma reação agressiva anti-direitos que desestabiliza o apoio internacional. Especificamente, a resposta global tem sofrido com mudanças abruptas e cortes nas políticas de assistência externa de grandes doadores internacionais — como as incertezas operacionais e fiscais que cercam o futuro de mecanismos vitais como o programa norte-americano PEPFAR. Além disso, em muitos contextos, o financiamento para a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos tem sido erroneamente tratado como ajuda humanitária opcional ou moeda de troca política, em vez de ser reconhecido como o investimento estratégico e inegociável que realmente é para blindar as democracias e os sistemas de apoio social.
4. A IPPF defende a integração dos serviços de HIV e de saúde sexual e reprodutiva. Como isso funciona na prática?
Resposta: Na prática, significa romper com os silos dos programas de saúde e cuidar do indivíduo como um todo. Por meio do nosso modelo integrado (IPES+), nossas associações oferecem prevenção, testagem e tratamento de HIV na mesma consulta em que o cliente acessa serviços contraceptivos, cuidados de IST/IRT (Infecções Sexualmente Transmissíveis / Infecções do Trato Reprodutivo), exames de rastreamento de câncer do colo do útero, saúde materna, aborto seguro ou apoio psicossocial para violência baseada em gênero. Isso otimiza recursos, tempo e resolve uma barreira crucial: reduz drasticamente o estigma que muitas vezes afasta as populações mais marginalizadas das clínicas exclusivas de HIV.
Globalmente, esse modelo ofereceu 29 milhões de serviços de HIV apenas em 2025 — incluindo mais de 135.000 intervenções de terapia antirretroviral (TARV) e 20.000 iniciações de PrEP — além de 31,5 milhões de serviços de IST/IRT e 143.000 vacinações contra o HPV. Também provamos que a tecnologia biomédica, como a expansão de novas modalidades de PrEP (oral, injetável ou o anel vaginal), só atinge seu potencial pleno quando combinada com estratégias estruturais como a Educação Integral em Sexualidade (EIS).
Por exemplo, na América Latina, escalamos esse impacto por meio de polos especializados, como o Centro de Excelência para EIS da Profamilia na Colômbia, que funciona como um hub regional fornecendo assistência técnica crítica, mentoria e liderança colaborativa. Entre abril de 2025 e março de 2026, esse esforço coordenado capacitou 300 professores, 200 educadores pares e permitiu que 1.380 jovens concluíssem programas de EIS.
Além disso, aqui mesmo no Brasil, nossa organização membra Gestos (e coorganizadora da Pré-Conferência) oferece um serviço inovador e único voltado para a juventude, focando profundamente na ampliação do acesso a direitos, no combate à discriminação e no empoderamento das populações jovens, particularmente LGBTQA+ e jovens que vivem com HIV. Isso é fundamental agora que o Brasil enfrenta um aumento preocupante nos casos de HIV entre os jovens — uma característica marcante que reflete nossos desafios regionais mais amplos.
