Infância, proteção e o preço da exposição

Saúde Infantil
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Imagem: Adobe Stock

 

Por Michéle Mansor

 

A discussão sobre a adultização infantil, ou seja, a exposição precoce de crianças a temas e comportamentos do mundo adulto, é mais urgente do que nunca. Recentemente, a viralização do vídeo do influenciador Felca, que abordou a erotização e sexualização de meninas e meninos na internet, jogou luz sobre esse problema complexo e alarmante. Além disso, a aprovação, pela Câmara dos Deputados do projeto de lei que cria regras para a proteção de crianças e adolescentes quanto ao uso de aplicativos, jogos eletrônicos, redes sociais e programas de computador, trouxe o debate para toda a sociedade.

O fenômeno da adultização não é novo e não está presente apenas no mundo digital. Crianças e adolescentes sempre participaram de programas de auditório, trabalharam como atores mirins, dançaram músicas sensuais em clipes e venderam artigos e produtos.  Mas a questão foi ampliada – e menos regulada – quando este universo se transportou para o universo digital que não respeita limites. A facilidade na produção e o consumo de conteúdos digitais ampliou um problema que sempre existiu, trazendo inúmeras questões para toda uma geração que se vê exposta sem ao menos consentir ou entender o que está fazendo.

Precisamos proteger crianças e jovens, defendendo os direitos fundamentais previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). E a melhor forma de fazer isso é possibilitando que as crianças sejam crianças, lhes permitindo tempo para brincar, o aprender e se desenvolver ambiente seguro, livre de pressões, de julgamentos e da necessidade de performar para um público adulto.

Além disso, a exposição no mundo digital traz o perigo constante da exposição ao mundo da sexualidade e da exploração sexual e todas suas nefastas consequências no desenvolvimento socioemocional das vítimas.

Para meninos e meninas em formação, a percepção de si mesmos, a construção da autoestima e a forma como interagem com o mundo são fundamentais. A exposição precoce ao mundo adulto – e todas as suas pressões e perigos – pode distorcer essa jornada, levando-os a internalizar uma identidade baseada na aparência e no olhar do outro. Como consequência temos altos níveis de ansiedade, baixa autoestima e distúrbios de imagem, representando uma violação direta ao direito ao desenvolvimento integral, previsto na Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU (Organização das Nações Unidas), da qual o Brasil é signatário.

A responsabilidade por mudar esse cenário é de todos nós. A sociedade precisa impedir a naturalização da adultização e criar um olhar crítico para esses casos. Cabe às plataformas digitais criarem mecanismos mais eficazes de proteção e punição aos produtores e consumidores do conteúdo. É fundamental também que as famílias, as escolas e a sociedade se unam para evitar desproteções, como negligência, exploração, violência ou crueldade contra meninas e meninos.

Por fim, cada um de nós, adultos que convivem com crianças expostas, deve agir para promover a garantia dos seus direitos. Proteger a infância não é apenas uma obrigação legal, mas um imperativo moral para que a próxima geração cresça com dignidade e saúde mental.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Michele Mansor

Com mais de 30 anos de atuação na área social, Michéle Mansor é psicóloga e especialista em Direitos Humanos. Atualmente, lidera a gestão nacional dos projetos da Aldeias Infantis SOS, coordenando mais de 80 iniciativas em todo o Brasil.