Avançamos em escolaridade, mas estagnamos em mobilidade social
Políticas Públicas

Por Vitor Hugo Neia
A mobilidade social sempre foi entendida como a promessa de que, com esforço e investimento em educação, as novas gerações teriam uma vida melhor do que a de seus pais. No entanto, a mais recente edição da pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades & Mobilidade Social 2025, realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com a Ipsos-Ipec e a Fundação Grupo Volkswagen, mostra que essa escada está cada vez mais longa, íngreme e instável.
O estudo revela avanços expressivos em escolaridade: 72% dos entrevistados afirmam ter alcançado nível de instrução superior ao de seus pais. Porém, esse esforço não se reflete da mesma forma em renda e moradia. Apenas 45% superaram a geração anterior em renda e 47% em condições habitacionais. O resultado evidencia um descompasso estrutural. A educação segue essencial, mas já não garante, sozinha, uma trajetória de prosperidade.
Apesar de conquistas pontuais, a percepção coletiva é de retrocesso. Para 72% da população das capitais, a vida piorou nos últimos cinco anos, e 80% acreditam que as desigualdades aumentaram em suas cidades. Esse sentimento de insegurança mostra que os avanços não se transformaram em estabilidade e que a promessa de progresso permanece frágil diante de um cotidiano marcado por vulnerabilidades.
Nos últimos cinco anos, 61% dizem que a renda se manteve ou aumentou, enquanto 39% relatam queda. O dado revela uma mobilidade instável, sujeita a crises e ao aumento do custo de vida. Para 56% das famílias, foi necessário recorrer a atividades extras, muitas vezes informais, como faxina, manutenção ou revenda de produtos, para complementar o orçamento. O mais preocupante é que até trabalhadores com carteira assinada também precisaram buscar alternativas, evidenciando que nem o emprego formal assegura hoje condições de vida adequadas.
A pressão sobre os orçamentos domésticos é clara. A alimentação aparece como principal peso nas despesas para 84% dos entrevistados. A substituição de carnes por ovos como proteína predominante foi relatada em diversos territórios, sinal de empobrecimento nos padrões de consumo. Não por acaso, dois terços da população afirmam perceber o aumento da fome e da pobreza em suas cidades. Em São Paulo, essa percepção chega a 71%.
Ainda assim, a mobilidade intergeracional revela conquistas históricas. Quase metade dos entrevistados considera ter melhorado em renda e moradia em relação aos pais. Mas o avanço, embora real, mostra sinais de fragilidade. Entre os jovens de 25 a 34 anos, apenas 44% dizem ter conseguido melhorar a condição de moradia. O dado acende um alerta sobre as dificuldades enfrentadas por uma geração mais escolarizada, mas menos capaz de transformar esse capital em conquistas concretas.
Esses resultados reforçam que não basta olhar para indicadores isolados. A mobilidade social deve ser entendida como um ecossistema que envolve educação, renda, condições de vida, redes comunitárias e acesso a direitos. Quando uma dessas dimensões não avança, as conquistas das famílias tornam-se frágeis e reversíveis.
É por isso que precisamos recolocar a mobilidade social no centro da agenda nacional. Não se trata apenas de crescer economicamente, mas de garantir que esse crescimento seja inclusivo e sustentável. Geração de emprego digno, políticas de redistribuição de renda, fortalecimento das capacidades locais e proteção social precisam caminhar juntas.
Essa não é uma tarefa que cabe a um único ator. Empresas, terceiro setor, poder público e comunidades devem agir de forma coordenada para que avanços individuais se convertam em trajetórias sólidas e coletivas.
Na Fundação Grupo Volkswagen, assumimos esse compromisso de forma estruturada. Desde 2024, elegemos a mobilidade social como causa única, com foco na inclusão produtiva. Atuamos em territórios prioritários para transformar qualificação em renda e fortalecer o protagonismo das comunidades. Nosso papel é somar esforços para que famílias e territórios inteiros encontrem condições de prosperar com autonomia.
O paradoxo revelado pela pesquisa deve servir de guia para todos nós. Avançamos em escolaridade, mas recuamos em segurança econômica. A promessa de progresso das novas gerações corre o risco de se transformar em frustração coletiva se não criarmos condições reais de ascensão. É urgente repensar políticas e práticas, colocando a mobilidade social como eixo estratégico de desenvolvimento do país.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
