Quando o doador canta “Evidências” e pede pastel na feira: o que as OSCs podem aprender com isso

Cultura de Doação
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Imagem: Divulgação

 

Por Erika Sanchez Saez (Kika)

 

Dois vídeos lançados pelo Instituto ACP em 2025 — “Evidências” e “Pastel” — têm circulado no nosso campo, usando humor e caricatura para retratar dilemas comuns da relação entre doadores e organizações da sociedade civil. Se você já esteve no papel de captar recursos ou de dialogar com o financiador, é provável que tenha rido (talvez de nervoso)… e também se reconhecido em algumas cenas.

 

No primeiro, “Evidências” (https://youtu.be/5BRw84w7Yxg?si=NxyfZJ4ZFa0BI_fW) , o financiador canta em serenata suas inseguranças e exigências à OSC. A letra expõe uma contradição familiar: quem exige relatórios impecáveis nem sempre oferece os recursos necessários para produzi-los. Já no “Pastel” (https://youtu.be/TXOyYsXbCKY?si=R0VmZHV_h1kZc-1g) , a metáfora da feira mostra três perfis de doadores: o burocrata controlador, o “empreendedor” que quer mudar o combinado no meio do caminho e a sensível que evita repetir apoio para não “gerar dependência”.

É fácil se identificar com a frustração que esses personagens provocam. Mas o que podemos tirar de lição?

  • Reconhecer padrões: perceber que não é “só com a gente” ajuda a não naturalizar práticas injustas.
  • Cultivar diálogo e conversas honestas: apontar incongruências com respeito para o seu doador ou potencial doador pode abrir espaço para ajustes no relacionamento.
  • Criar uma cultura de desenvolvimento institucional dentro da organização: quanto mais sólida a organização, mais autonomia terá para negociar em condições menos desiguais.
  • Ter uma estratégia robusta: fortalece a argumentação da organização e quando a OSC está mais segura sobre sua estratégia e custos, consegue responder de forma firme, mas construtiva.

O Instituto ACP, que também é um doador institucional, usa esses vídeos para convidar à reflexão. Mas, do lado das OSCs, a provocação é outra: como transformar situações de desgaste em oportunidades de diálogo e de fortalecimento?

Afinal, mesmo em relações marcadas por assimetrias de poder — de um lado quem tem o recurso, de outro quem precisa dele —, existem caminhos para ampliar a voz das organizações. E quanto mais conscientes estivermos das armadilhas e dos “papéis” que os doadores podem assumir, mais preparados estaremos para construir relações sustentáveis e saudáveis para a sociedade civil.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Kika Sanchez Saez

Comunicadora social e pesquisadora, diretora executiva do Instituto ACP. Integra o comitê gestor da Plataforma Conjunta, a iniciativa Sociedade Viva e conselhos como Funbea, Move Social, Arredondar e CONFOCO. Autora de Filantropia Colaborativa e de outras publicações sobre filantropia e terceiro setor, é formada em Comunicação Social pela ESPM e mestre em Cooperação, Globalização e Desenvolvimento pela Universidade de Barcelona.