Estudo aponta avanços no tratamento da dislexia com uso de atividades lúdicas e habilidades motoras

Saúde Infantil
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Dislexia foi tema do programa Brasil ODS, no mês de setembro; durante o programa, pesquisadores destacam a importância do diagnóstico precoce, do apoio familiar e da formação docente para reduzir impactos na aprendizagem

Estudo aponta avanços no tratamento da dislexia com uso de atividades lúdicas e habilidades motoras
Imagem: Canva

Por Sabrina Azevedo

No Brasil, mais de 7,8 milhões de pessoas vivem com dislexia, o que representa cerca de 4% da população, tornando o transtorno a dificuldade de aprendizagem mais comum nas salas de aula. O programa Brasil ODS trouxe para discutir essa questão o José Angelo Barela, professor e Pollyanna Lima Cerqueira, médica.

A condição afeta a leitura, a escrita, a soletração, a memória de curto prazo e até mesmo a orientação espacial, impactando diretamente o desempenho escolar e a autoestima das crianças.

Um estudo coordenado pelo professor José Angelo Barela, em parceria com o Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Tecnologia Assistiva, um dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento apoiados pela FAPESP, apresentou resultados promissores para o enfrentamento da dislexia.

O Projeto-Piloto de Intervenção Focado em Atividades Lúdicas com Uso de Habilidades Motoras e Engajamento Cognitivo demonstrou melhora significativa nos movimentos oculares e na velocidade de leitura de crianças entre 10 e 12 anos diagnosticadas com dislexia.

Diagnóstico

Para discutir o tema, o professor José Angelo Barela, docente do Instituto de Biociências da UNESP (Rio Claro), e a neurologista infantil Pollyanna Lima Cerqueira, chefe da equipe de neuropediatria de hospitais em São Paulo, participaram de uma conversa.

Pollyanna explicou que o diagnóstico da dislexia é complexo e multidimensional, pois não existe um exame específico que comprove a condição.

“Estabelecer diagnósticos de transtornos de aprendizagem é sempre desafiador. Não há um exame único; o diagnóstico é resultado de um conjunto de avaliações. Muitas crianças com dislexia também apresentam comorbidades, como o TDAH, o que torna o processo ainda mais complexo”, destacou.

A médica ressaltou que a dislexia não está relacionada à preguiça ou falta de interesse, e sim a dificuldades reais na decodificação das palavras e na fluência da leitura.

“É fundamental reforçar que essas crianças são inteligentes e cognitivamente preservadas. O desafio está em compreender suas dificuldades e oferecer suporte emocional e pedagógico. A autoestima é um fator-chave nesse processo”, completou.

Clique aqui para ouvir o programa completo!

Formação docente e políticas públicas

O professor José Angelo Barela destacou que o enfrentamento da dislexia exige uma abordagem integrada, que envolva famílias, professores e poder público.

“Precisamos trabalhar melhor com os professores, especialmente nos anos iniciais, para que saibam identificar sinais e buscar apoio especializado. Em Rio Claro, por exemplo, foi implementado um centro integrado multidisciplinar para avaliação e intervenção em dificuldades de aprendizagem”, explicou.

Segundo ele, a realidade das famílias também é um desafio adicional.

“Boa parte dessas crianças vem de contextos com baixo poder aquisitivo e pouco acesso à informação. Muitas famílias interpretam as dificuldades como falta de esforço, o que agrava a situação. É preciso ampliar a divulgação e oferecer caminhos de apoio acessíveis”.

Barela reforçou que políticas públicas de educação inclusiva e formação continuada de professores são fundamentais para garantir que as crianças recebam diagnóstico e acompanhamento adequados, evitando prejuízos cumulativos no processo de aprendizagem.

“Muitos professores nos pedem ajuda para lidar com casos assim. É essencial criar espaços de diálogo e formação para que possam identificar sinais precoces e intervir de maneira assertiva”, concluiu.

Ciência, empatia e inclusão

A combinação de avanços científicos, como o uso de atividades motoras e cognitivas lúdicas, com a formação docente e o apoio familiar, representa um novo horizonte para o tratamento e o acolhimento de crianças com dislexia.

Especialistas reforçam que o diagnóstico precoce e o suporte adequado evitam estigmas, fortalecem a autoconfiança e ampliam as chances de sucesso escolar. A dislexia, lembram, não limita a inteligência nem o potencial de quem convive com o transtorno, o desafio é garantir oportunidades de aprendizado inclusivas e personalizadas.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)

Além dos convidados, o Brasil ODS recebeu os colunistas Paulo AlmeidaGabriela Chabbouh e Nina Orlow, especialistas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Este programa colabora com o ODS 3 (Saúde e Bem-estar), cujo objetivo visa assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades, e ODS 4 (Educação de Qualidade) que busca assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.

Brasil ODS

O Brasil ODS é uma produção do Observatório do Terceiro Setor (OTS), apresentado por Joel Scala, que conta com o apoio da Fapesp — Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Ele vai ao ar às quintas-feiras no portal do OTS e às 16h na Rádio Brasil de Fato.