Cuidar do lixo é cuidar do bairro: o exemplo do Recicla Lapenna em São Paulo
Economia Circular

Por Marcelo Ribeiro Silva
O Brasil se depara com desafios significativos relacionados à gestão de resíduos sólidos e à vulnerabilidade urbana. Em São Paulo, bairros periféricos convivem com um duplo problema: a falta de infraestrutura de coleta seletiva e as enchentes recorrentes. No início de 2025, o Jardim Lapena, localizado no extremo Leste da capital, registrou alagamentos que culminaram em inúmeras perdas para os moradores, que chegaram a ficar ilhados por dias. Para se ter uma ideia, em apenas dois dias choveu 65% do volume esperado para o mês inteiro, segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE) da Prefeitura.
É nesse cenário que surge o Recicla Lapenna, uma iniciativa comunitária que alia educação ambiental, destino correto de resíduos e fortalecimento da economia local. Criado pela Fundação Tide Setubal em parceria com a startup SO+MA, o programa tem como meta 500 famílias e tem potencial de coletar até 4 toneladas por mês em um território de 15 mil moradores. Ao transformar o cuidado em separar lixo de resíduos em um movimento coletivo, o projeto mostra que soluções locais podem enfrentar grandes problemas urbanos.
A desigualdade na coleta seletiva em São Paulo ajuda a entender a relevância dessa experiência. Enquanto bairros centrais apresentam índices elevados, como a Vila Mariana, com 10,3%, regiões periféricas registram indicadores significativamente inferiores. Jaçanã/Tremembé, na zona norte, alcançam apenas 0,2%, e Itaim Paulista e São Miguel Paulista, na zona leste, chegam a 0,4%, segundo o Mapa da Desigualdade 2023, da Rede Nossa São Paulo. Esse contraste evidencia como questões ambientais, sociais e urbanas se entrelaçam nas periferias.
No Recicla Lapenna tudo começa com um aplicativo criado pela SO+MA especificamente para a comunidade. Quem se cadastra pode levar seus recicláveis: como garrafas PET, alumínio, papel e caixinhas longa vida, aos pontos de coleta espalhados no território. Nos casos de pessoas idosas ou com dificuldade de locomoção, a coleta vai até a porta de casa, feita pelo pessoal da Ciclolog, coletivo local de bike que já conhece cada esquina e cada morador.
A cada entrega, as pessoas acumulam pontos no aplicativo do Recicla Lapenna, que depois são trocados por descontos e produtos nos comércios da região. Esse movimento fortalece a economia local e cria um ciclo em que todo mundo ganha. Nos pontos de coleta organizados pelo GT do Meio Ambiente e pelas Guardiãs do Território, o ato de separar o lixo deixa de ser individual e se transforma em um movimento comunitário, que aproxima vizinhos e fortalece o sentimento de cuidado com o lugar onde vivem.
O programa também cuida dos resíduos orgânicos, por meio do Grupo de Trabalho de Meio Ambiente, que vão para a compostagem e já beneficiam 75 famílias com hortaliças e mudas cultivadas no próprio bairro. Os catadores, que sempre tiveram papel fundamental, agora recebem o material limpo e separado, o que aumenta o valor de venda e melhora as condições de trabalho. Eles ainda contam com apoio de saúde oferecido pela UBS local.
Mais do que reciclar, o Recicla Lapenna cria conexões, oportunidades e pertencimento. Mostra que, mesmo diante de problemas sérios como enchentes e desigualdade na coleta seletiva, quando a comunidade é potente se organiza surgem soluções capazes de inspirar outros territórios. Para que experiências como essa floresçam e se multipliquem, é fundamental que políticas públicas as reconheçam e fortaleçam, garantindo que cuidar do lixo seja, de fato, cuidar do bairro e de toda a cidade.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
Sobre o autor: Marcelo Ribeiro Silva é Gerente de Projetos Estratégicos da Fundação Tide Setubal
