O Rio, a violência e o país que escolhemos não ver

Impacto das ONGs
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Imagem: ChatGPT

 

Por Luiza Serpa 

 

Nas últimas semanas, minhas idas a São Paulo, e foram várias, começavam sempre com a mesma pergunta: “E aquela situação no Rio?”
E eu iniciava meu rosário de explicações políticas, econômicas, sociais e sobre o papel da mídia, sempre traçando um paralelo com a situação de SP.

Sigo ainda digerindo o que aconteceu nos complexos do Alemão e da Penha, mas, mais ainda, as reações que tenho ouvido em tantos espaços diferentes.
Parece que a minha surpresa é um tanto quanto naïf, mas quando foi que nos distanciamos tanto dos valores da vida humana?
Essa pergunta me persegue bastante, e neste episódio específico ainda mais.
Por que nos é tão difícil enxergar causas e direcionar nossa ira e nossa energia para transformá-las?
Por que aceitamos como inevitáveis as consequências trágicas de um país sem oportunidades?

Segundo a Oxfam, “os 10 homens mais ricos do mundo têm hoje seis vezes mais riqueza do que os 3,1 bilhões mais pobres”, afirma Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil.
Ainda de acordo com o relatório Desigualdade Mata, no Brasil são 55 bilionários, com riqueza total de US$ 176 bilhões. Desde março de 2020, quando a pandemia foi declarada, o país ganhou 10 novos. A riqueza deles cresceu 30% (US$ 39,6 bilhões) durante a pandemia, enquanto 90% da população teve redução de 0,2% entre 2019 e 2021. Os 20 maiores bilionários do país detêm US$ 121 bilhões, mais do que 128 milhões de brasileiros (60% da população).

Voltando ao caso do Rio de Janeiro, o estado figura na penúltima posição entre as 27 unidades federativas do Brasil no IDEB olhando Ensino Médio. O que está sendo feito para reverter essa vergonha? Já fomos o 4º lugar, e sabemos exatamente como melhorar a qualidade da educação, boas práticas de gestão e boas ferramentas não faltam no país.
A lógica, então, é encher cadeias e cemitérios? Isso seria uma política sustentável?

A sociedade civil precisa se envolver, se engajar e compreender os fatos para além das manchetes preguiçosas que lemos e vemos nos jornais.  Criticar análises superficiais e muitas vezes tendenciosas, que prestam um enorme desserviço à capacidade de reação da população, que deveria cobrar direitos e exigir políticas públicas eficientes, planejadas para além de ciclos de três anos, que só deixam a bomba explodir nas mãos do próximo aventureiro.

As organizações sociais que atuam nesses territórios lutam diariamente contra o poder do dinheiro paralelo e conseguem agir de forma hercúlea em suas missões.
Esses são os verdadeiros líderes que devemos apoiar e com quem devemos caminhar.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Luiza Serpa

Luiza Serpa é fundadora e diretora do Instituto Phi, única brasileira no Conselho Estratégico da rede Latimpacto, Responsible Leader da BMW Foundation, fellow da Skoll Foundation, integrante do Conselho da rede NEXUS Global, membro da Entrepreneur’s Organization (EO). Faz parte do comitê da Plataforma Conjunta e foi reconhecida como Empreendedora Social do Ano pela Folha em 2020. Luiza contou sua história num capítulo do livro “Mulheres do Terceiro Setor”, da Editora Leader, que aborda as histórias, cases, aprendizados e vivências de 18 empreendedoras sociais ao longo de sua carreira.