“Raio-X da Vida Real”: o retrato inédito de quem atua no tráfico nas favelas brasileiras

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Estudo do Data Favela ouviu 3.954 pessoas em atividade criminal em 23 estados e revela que a principal causa de ingresso é a necessidade econômica; maioria gostaria de sair se tivesse oportunidade

“Raio-X da Vida Real”: o retrato inédito de quem atua no tráfico nas favelas brasileiras
Imagem: Canva

O relatório Raio-X da Vida Real, do Data Favela, é o primeiro a tratar acusados e agentes do tráfico como “sujeitos de fala” em escala nacional, oferecendo dados representativos sobre família, trabalho, saúde mental, escolaridade, renda e trajetórias de entrada e saída do crime. A pesquisa foi feita por amostragem, com 3.954 entrevistas presenciais em favelas de 23 estados, margem de erro de 1,56 ponto percentual e 95% de confiança.

Pela primeira vez na história do país, uma pesquisa de grande escala ouviu diretamente pessoas em situação de crime relacionadas ao tráfico de drogas nas favelas. Foram realizadas 3.954 entrevistas presenciais entre 15/08/2025 e 20/09/2025 em 23 estados. O estudo mostra que a entrada no crime ocorre majoritariamente por necessidade econômica, que 63% ganham até dois salários mínimos, que 58% aceitariam deixar o crime se tivessem oportunidade e que problemas de saúde mental, como insônia e ansiedade, são frequentes entre os entrevistados.

Leitura dos Resultados

  • A principal razão para ingressar no crime é a falta de dinheiro/necessidade econômica (49% das respostas). Ao mesmo tempo, 63% dos entrevistados ganham até dois salários mínimos, o que demonstra que a atividade raramente traz independência financeira.

  • 58% afirmaram que deixariam o crime caso tivessem oportunidade, as alternativas mais citadas para uma saída são emprego formal, trabalho com flexibilidade e abrir o próprio negócio.

  • 79% dos entrevistados são homens; 74% se declaram negros; 50% têm entre 13 e 26 anos; 80% nasceram e cresceram na favela.

  • Problemas de saúde mental são comuns, 39% relataram insônia, 33% ansiedade e 19% depressão; 63% declararam uso habitual de drogas, sendo maconha a mais citada (58%). A grande maioria (89%) não possui plano de saúde e depende do SUS.

Para verificar o documento completo basta acessar o link.

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O estudo desmonta narrativas simplistas sobre “família desestruturada”, 73% dizem ter sido criados no âmbito do núcleo familiar (pai e mãe juntos, só a mãe ou só o pai) e 65% foram criados com a presença da mãe, o que aponta para a centralidade de vínculos familiares, especialmente femininos, nas trajetórias desses indivíduos. Ao mesmo tempo, episódios de violência doméstica apontados por 13% aparecem como gatilhos de entrada no crime para parte dos entrevistados.

Os autores defendem que políticas públicas de segurança precisam incorporar respostas econômicas, o relatório sugere priorizar um “quadrinômio” trabalho-empregabilidade-empreendedorismo-renda como caminho eficaz para reduzir a permanência no crime e quebrar ciclos de vulnerabilidade e encarceramento. Dados do estudo mostram também altas taxas de encarceramento pessoal e familiar entre os entrevistados, evidência de um ciclo que se retroalimenta entre favela, prisão e mercado ilegal.

Caminhos e fatores

A pesquisa detalha que, apesar da baixa escolaridade (42% não completaram o ensino fundamental), 55% gostavam de ir à escola quando crianças e 41% dizem que, olhando para trás, “teriam estudado/me formado”. A escolaridade é apontada pelos entrevistados como um caminho de transformação; paralelamente, a rotina no crime impõe custos existenciais: privação de sono, estresse e sintomas psiquiátricos são recorrentes.

O estudo mapeia funções (donos da boca, gerentes, soldados, vapores, olheiros, funções auxiliares e produtores) e mostra que muitos ocupam posições operacionais desde jovens. Cerca de 36% exercem outra atividade remunerada fora do crime, evidenciando uma passarela entre atividades lícitas e ilícitas e a importância de alternativas econômicas para a saída.

O Raio-X da Vida Real amplia o debate público ao colocar as vozes dos próprios envolvidos no centro da análise, um passo que, segundo os autores, exige que políticas de segurança e sociais sejam redesenhadas para incluir ações econômicas e de saúde mental. A proposta do Data Favela é clara: combater o crime também passa por criar oportunidades reais de trabalho, renda e cuidado nas periferias.