O significado da palavra Mutirão para o nosso futuro coletivo

Cultura Organizacional
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Por Camila Jordan

 

Para mim é um prazer enorme descobrir palavras que refletem algo tão intrínseco de uma cultura que nos levam a dizer que para elas “não existe uma tradução”. Trago aqui uma tentativa, neste breve texto, de aprofundar o significado da palavra que temos escutado há meses e que, recentemente, ficou conhecida internacionalmente por conta da Presidência brasileira da COP 30: mutirão.

Neste artigo não vou trazer reflexões sobre a COP: se foi bom ou ruim, se deu certo ou não, se foi um caos ou não. Mas vou sim falar sobre a palavra Mutirão.

Aprendi esta palavra em 2013, quando comecei a ser voluntária da TETO no Rio de Janeiro. Eu já havia participado de várias atividades voluntárias, algumas até em formato de mutirão, como limpeza de praias e áreas verdes, mas foi na TETO que eu a ouvi pela primeira vez, e mais do que ouvi, comecei a entender, de fato, o significado do trabalho coletivo.

Pode ser que o meu viés pelo trabalho que fazemos seja grande, e acho que deve ser mesmo, já que continuo aqui, 13 anos depois da primeira casa que construímos: a casa da Benedita, no Jardim Gramacho.

Foto: Voluntariado TETO, Casa da Benedita, Jardim Gramacho, Outubro 2013

Algo mágico acontece quando centenas de pessoas aleatórias se juntam, com uma comunidade e famílias, para erguer em dois dias algo tão simbólico e crucial nas nossas vidas quanto uma casa. Construída por mãos voluntárias, com ferramentas simples, sem eletricidade e sem nunca terem se conhecido ou construído algo similar antes.

(A TETO tem pessoas capacitadas na equipe voluntária e contratada para garantir a qualidade da casa, além dos moradores e moradoras das comunidades, com muita experiência construtiva, que se juntam para erguer a casa dos seus familiares, amigos e, às vezes, até vizinhos que nunca tinham conversado muito antes.)

De repente, durante um final de semana, essas famílias que sobreviviam invisibilizadas e marginalizadas, muitas vezes dentro das próprias comunidades, são colocadas no centro do mutirão e no centro das atenções. Elas passam a ser as “estrelas” do processo; todos os voluntários conhecem as famílias, todas as famílias passam a se conhecer, a comunidade é mobilizada, e dali nasce algo que é muito maior do que as moradias emergenciais que construímos: nasce um novo coletivo.

O uso da técnica e do espírito do mutirão não é, claro, exclusivo da TETO. Em toda a América Latina, a prática do mutirão marcou gerações. A própria TECHO (TETO em espanhol) já construiu mais de 150.000 moradias emergenciais em formato de mutirão, mobilizando milhões de voluntários e comunidades em 18 países. No Brasil, a história urbana também é atravessada por mutirões: desde os mutirões de moradia organizados por movimentos sociais como a União dos Movimentos de Moradia (UMM), o Movimento Sem Teto do Centro (MSTC), o Movimento de Moradia da Região Centro (MMRC) e tantos outros que seguem ativos até hoje, até as experiências transformadoras da gestão de Luiza Erundina à frente da Prefeitura de São Paulo (1989–1992). Foi nesse período que programas de mutirão habitacional ganharam força institucional, demonstrando que o Estado pode, e deve, reconhecer, apoiar e aprender com a potência do fazer coletivo.

Foto: Movimento Sem Terra Leste 1 (UMM – SP)

E é justamente nesse ponto que eu quero chegar. Mutirão não é sinônimo de “ajuda”. Não é caridade, não é entrega, não é compensação. É, antes de tudo, uma decisão conjunta de agir.  Ele emerge quando diferentes pessoas assumem que algo precisa ser feito, e o fazem. Cada uma contribui com o que tem: força física, técnica, cuidado, escuta, acolhimento, comida para o grupo, histórias que aquecem a manhã gelada ou simplesmente presença.

Foto: Autora, Jardim Gramacho, julho 2016

Nenhuma construção/mutirão termina igual ao que começou. A casa muda, claro. Mas, principalmente, as pessoas mudam. A comunidade percebe sua potência; os voluntários descobrem um país que não aparece nos mapas; e a relação entre nós deixa de ser “usuário e organização” para virar algo muito mais profundo: vira vínculo e afeto.

E esse vínculo produz algo fundamental para pensar políticas públicas hoje, sobretudo quando falamos de moradia, clima, desigualdade e urbanização. Ele produz confiança. E sem confiança, nenhum programa social funciona. Sem confiança, o Estado não entra. Sem confiança, o investimento não chega. Sem confiança, ninguém participa.

O mutirão, nesse sentido, é uma espécie de laboratório vivo de cidadania. Ele nos ensina o que significa participar, decidir, colaborar, negociar, fazer junto. Tudo isso parece tão óbvio quando falamos de democracia, mas muitas vezes tudo isso se perde na prática institucional.

E talvez seja por isso que a palavra ganhou força recentemente, inclusive no vocabulário da política internacional. O mutirão virou símbolo de uma capacidade de unir pessoas para resolver problemas comuns. Em um mundo que enfrenta colapsos climáticos, emergências habitacionais e desigualdades crescentes, talvez seja essa palavra, tão nossa, que ofereça uma bússola para o futuro.

Porque o mutirão não é apenas um modo de construir casas. É um modo de construir caminhos coletivos quando as rotas tradicionais falham. Ele mostra que inovação não está apenas em tecnologias avançadas ou investimentos bilionários, mas também em práticas sociais que atravessam gerações e carregam uma sabedoria comunitária profunda.

E, ao mesmo tempo, o mutirão expõe o que ainda falta. Ele existe porque o Estado não chega. Ele supre a ausência. Ele remenda o tecido urbano e social onde há buracos demais. E, portanto, ele não pode ser romantizado, precisa ser reconhecido, apoiado e, sobretudo, superado por políticas públicas que garantam direitos de forma plena, contínua e estrutural.

Mas enquanto esse futuro não chega, o mutirão seguirá nos ensinando. Nos mostrando que ninguém transforma nada sozinho. Que as mudanças que precisamos começam no coletivo. Que para construir uma sociedade em que queiramos viver verdadeiramente, precisamos de  aprender a construir a vida uns com os outros.

Talvez seja esse o maior presente dessa palavra tão brasileira: ela nos lembra que o futuro — o nosso futuro coletivo — depende do quanto estamos dispostos a nos juntar para fazê-lo acontecer.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Camila Jordan

Urbanista e mestre em Administração Pública pela Universidade de Columbia. Diretora de Relações Institucionais e Incidência da TETO Brasil, atua com justiça habitacional e foi reconhecida pela Bloomberg Línea como uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina.