Quem você pensa que é?
Cultura Organizacional

Por Luiza Serpa
Todo início de ano vem carregado de promessas. Planos estratégicos, metas revisadas, palavras que soam bem em relatórios: inovação, impacto, escala, sustentabilidade. Mas talvez a pergunta mais honesta, e mais incômoda seja outra:
Quem você pensa que é?
Não no sentido individualista do ego, mas no lugar que ocupamos, ou achamos que ocupamos no mundo. No tamanho real da nossa influência. Na distância entre o que sabemos que precisa ser feito e o que, de fato, temos coragem ou oportunidade de fazer.
A verdade é que somos pequenos. Insignificantes, até, diante da complexidade das crises que atravessam o nosso tempo: desigualdades profundas, emergência climática, erosão democrática, violência normalizada, fome que insiste em voltar ao mapa. Nenhuma organização, nenhum projeto, nenhum líder dá conta disso sozinho. Aceitar essa insignificância não nos diminui. Pelo contrário: nos devolve à realidade.
E é justamente daí que pode nascer algo potente.
A falsa segurança da relevância
O setor social aprendeu, ao longo dos anos, a provar seu valor. Indicadores, métricas, narrativas de sucesso, boas práticas. Tudo isso importa. Mas há um risco silencioso quando confundimos relevância institucional com transformação real.
Ser reconhecido não é o mesmo que ser necessário.
Ser convidado para mesas não é o mesmo que mudar estruturas.
Ser bem-intencionado não é o mesmo que ser eficaz.
Em muitos momentos, o setor se protege demais: evita conflitos, contorna disputas de poder, adia decisões difíceis. Faz mais do mesmo, melhor apresentado. Só que o mundo não está pedindo mais eficiência no conhecido. Está pedindo coragem para o desconhecido.
A urgência da ousadia
O tempo que vivemos não exige apenas boas respostas. Exige ousadia.
Ousadia para rever modelos que concentram poder.
Ousadia para compartilhar decisões com quem historicamente ficou de fora.
Ousadia para dizer “não funciona mais” — mesmo quando foi assim que sempre fizemos.
Ousadia para errar em público, aprender rápido e mudar de rota.
Há uma diferença grande entre cautela e medo. Entre responsabilidade e paralisia. A linha é tênue, mas decisiva. Quando o cuidado vira desculpa para não agir, ele deixa de ser virtude.
O terceiro setor não nasceu para ser confortável. Nasceu para ser necessário e desnecessário na sequência.
Fazer o que precisa ser feito, mesmo sem garantias.
Talvez a pergunta que deveria orientar este novo ano não seja “qual é o nosso plano?”, mas:
O que precisa ser feito, mesmo que não saibamos exatamente como?
Isso vale para quem doa, para quem executa, para quem articula, para quem pesquisa, para quem comunica. Fazer o que precisa ser feito pode significar perder apoios, questionar aliados, abrir mão de protagonismo, dividir recursos, mudar prioridades, confrontar equipes “estáveis”…
Não há garantias. Nunca houve. A ilusão de controle é apenas isso: ilusão.
Mas há algo que o terceiro setor sabe fazer bem quando se permite: agir mesmo assim.
Um convite para 2026 (e além)
Que este início de ano seja menos sobre certezas e mais sobre escolhas corajosas. Menos sobre autopreservação e mais sobre compromisso coletivo. Menos sobre quem achamos que somos e mais sobre para quem existimos.
Aceitar nossa insignificância individual pode ser o primeiro passo para uma relevância coletiva maior. Porque quando ninguém é salvador, todo mundo vira responsável.
E responsabilidade compartilhada, quando levada a sério, muda tudo.
Você não é quem você pensa que é. Você é o resultado da sua ousadia.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
