54% dos adolescentes já sofreram violência sexual online no Brasil

Direitos Humanos
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“Nosso objetivo é claro: aumentar a proteção no ambiente online e reduzir danos, com prevenção baseada em evidências e ação coordenada”, afirmou o presidente do ChildFund, organização responsável pelo mapeamento

Imagem: Freepik

*Por Lucas Neves

54% dos adolescentes brasileiros já sofreram violência sexual online, afirma estudo do ChildFund. A organização alerta para o cuidado redobrado durante o período de férias escolares, quando os jovens estão mais expostos às telas de celulares e computadores.

Nomeada como Mapeamento dos Fatores de Vulnerabilidade de Adolescentes Brasileiros na Internet, a pesquisa ouviu mais de 8 mil adolescentes, entre 13 e 18 anos, de todas as regiões do país, com maior concentração no Nordeste e no Sudeste.

“Esse diagnóstico nos permite identificar vulnerabilidades, orientar políticas públicas e mobilizar famílias, escolas, plataformas digitais e o Sistema de Garantia de Direitos”, afirma Mauricio Cunha, presidente executivo do ChildFund, em entrevista ao Observatório do Terceiro Setor.

Segundo Cunha, o que motivou a criação do mapeamento foi uma percepção de um aumento progressivo e preocupante dos riscos no ambiente digital para crianças e adolescentes. “Como a proteção online é uma prioridade global do ChildFund, decidimos aprofundar o tema e produzir um mapeamento específico para o Brasil”.

“Nosso objetivo é claro: aumentar a proteção no ambiente online e reduzir danos, com prevenção baseada em evidências e ação coordenada” — Mauricio Cunha (ChildFund)

Prevalência de hobbies digitais

Outro dado relevante diz respeito à redução significativa das interações presenciais. Conforme o mapeamento, 79% das atividades não obrigatórias e de lazer realizadas pelos jovens, os famosos ‘hobbies’, são digitais

O Childfund lembra que o uso prolongado de jogos online, redes sociais e aplicativos, muitas vezes sem supervisão adequada, amplia a exposição a situações de vulnerabilidade e aos riscos da violência sexual na internet, até mesmo quando o acesso ocorre em casa.

Para Cunha, no entanto, a “demonização” da tecnologia não é o caminho, que exige uma construção  pautada no equilíbrio. “Adolescentes precisam de referências adultas presentes e de combinados claros sobre tempo de tela, horários e tipos de conteúdo”.

Do ponto de vista prático, ele pontua a necessidade de se atentar a 3 frentes quando o assunto é o equilíbrio entre o digital e a vida fora da internet: 

  • o desenvolvimento de uma rotina saudável: que inclua estudo, sono adequado, cuidados com o corpo e atividades culturais, esportivas e comunitárias;
  • monitoramento do acesso online: conversar sobre o que se consome online, ensinar limites e supervisionar o acesso, no sentido de exercer uma “co-navegação”, tanto em casa quanto no ambiente escolar;
  • políticas públicas: necessidade de equipamentos públicos vivos, a exemplo de praças e centros culturais, programas de contraturno escolar e parcerias locais para ampliar o acesso a oportunidades fora do mundo digital. 

A necessidade de letramento digital

Tratando-se de informação, o estudo apresenta um dado preocupante: 94% dos adolescentes afirmam não saberem como denunciar violência sexual online. 

Cunha avalia que esse percentual revela uma lacuna de letramento digital e acessibilidade de informações. “Para enfrentá-lo, precisamos combinar conhecimento, canais de denúncia e rede de proteção”.

O ChildFund defende o letramento digital de crianças e adolescentes. Segundo a organização, não é só mostrar como mexer em softwares, mas também ensinar formação ética, identificação de riscos, reconhecimento de aliciamento e passo a passo para pedir ajuda e denunciar. 

Segundo o presidente executivo do ChildFund, um caminho válido é a disponibilização de informações, de forma clara e visível, em ambientes como escolas, postos de saúde, CRAS, conselhos tutelares e plataformas digitais, sobre como fazer a denúncia. 

Além disso, ele recomenda a “formação de educadores, profissionais de saúde e assistência social capacitados para que saibam acolher, registrar, encaminhar e proteger sem revitimizar”.

O ChildFund oferece o curso gratuito Safe Child que, segundo Cunha,  já apoiou milhares de famílias e integra parcerias formalizadas com Huellas de Amor (organização do Paraguai), as prefeituras de Belo Horizonte (MG), Macapá (AP) e Vitória da Conquista (BA) e com o Governo do Distrito Federal.

O objetivo desse projeto é levar formação a crianças, adolescentes, famílias, escolas e rede de proteção. Junto ao Executivo Federal, o ChildFund está formando cerca de 300 conselheiros tutelares no I Ciclo de Letramento Digital para o combate à violência online, em parceria com a Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do Distrito Federal.

“Vamos seguir incidindo por políticas públicas que integrem o letramento digital ao currículo e garantam fluxos ágeis de denúncia e atendimento. Proteção efetiva é conhecimento +  canal acessível + resposta rápida”, diz Cunha.

Crianças e adolescentes nas redes sociais

Conforme o estudo, o TikTok e o Instagram aparecem entre os aplicativos mais usados entre as crianças e adolescentes entrevistadas. Apesar de serem plataformas onde os jovens buscam pertencimento, expressão e criatividade, Cunha alerta para uma série de riscos.

“O problema é que a arquitetura dessas redes não foi pensada para o desenvolvimento infantojuvenil, o que cria riscos que necessitam ser enfrentados com responsabilidade compartilhada entre famílias, escolas, plataformas e políticas públicas”.

Entre os riscos mais frequentes, Cunha lista:

  • 1. Exposição a conteúdos inadequados e hiperestimulação: “o algoritmo entrega, em poucos minutos, conteúdos que podem incluir sexualização precoce, desafios perigosos, discursos de ódio e padrões de corpo irreais. Isso afeta autoestima, saúde mental e percepção de risco”;
  • 2. Contato com desconhecidos e aliciamento: a funcionalidade de mensagens diretas e comentários facilita que predadores digitais se aproximem sem chamar atenção de adultos. Grande parte dos casos de violência sexual online começa com conversas aparentemente inofensivas”;
  • 3. Pressão estética e comparação social: o uso constante de filtros, métricas de engajamento e lógica de ‘likes’ cria um ambiente de competição permanente, que pode intensificar ansiedade e distorções de autoimagem”;
  • 4. Vazamento e uso indevido de imagens: “uma foto pode ser manipulada, compartilhada sem consentimento ou usada para extorsão, fenômeno que atinge cada vez mais adolescentes”;
  • 5. Desinformação e conteúdos com linguagem adulta disfarçada: “vídeos curtos podem transmitir mensagens distorcidas sobre sexualidade, relacionamentos, consumo ou violência, sem que adolescentes consigam filtrar o que é seguro e ético”.

Dicas para proteger crianças e adolescentes de violências online

O ChildFund reforça que algumas medidas são fundamentais para ampliar a proteção virtual e reduzir os danos. “A mediação ativa dos adultos, o letramento digital nas escolas, as configurações de privacidade e o fortalecimento da autoestima são elementos fundamentais”.

Nesse sentido, a organização traz aos responsáveis uma série de dicas para o cuidado das crianças e adolescentes no ambiente online. Confira:

  1. Controle parental: ativar ferramentas que permitam limitar tempo de uso, downloads e acesso a conteúdos, de acordo com a idade da criança ou adolescente;
  2. Atenção aos sinais: mudanças de comportamento, como isolamento, medo, vergonha, culpa ou baixa autoestima, podem indicar situações de abuso ou exploração;
  3. Diálogo e confiança: manter uma comunicação aberta e acolhedora facilita que crianças e adolescentes relatem situações de risco logo no início;
  4. Abordagem preventiva: explicar, de forma adequada à idade, sobre abordagens de estranhos, pedidos de fotos ou informações pessoais;
  5. Estabelecimento de limites: definir horários para uso da internet e priorizar momentos em família, leitura e atividades ao ar livre;
  6. Busca por apoio especializado: psicólogos, educadores e especialistas em educação digital podem auxiliar famílias a lidar com o uso excessivo de telas e com situações de risco.

O ChildFund

O ChildFund é uma organização que atua no desenvolvimento integral e na promoção e defesa dos direitos da criança, do adolescente e do jovem, criando futuros com mais oportunidades, para que tenham seus direitos considerados e alcancem seu potencial.

A organização faz parte de uma rede internacional associada ao ChildFund International, presente em mais de 60 países e que gera impacto positivo na vida de mais de 24,3 milhões de crianças e suas famílias no mundo.