Voluntariado e desenvolvimento sustentável: ONU estimula novas estratégias

Voluntariado
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Imagem: ChatGPT

 

Por Fernanda Vieira

 

No cotidiano das organizações da sociedade civil, há um elemento que raramente ocupa o centro do debate público, mas sem o qual boa parte das iniciativas simplesmente não existiria: o voluntariado. Em 2026, essa realidade ganha um reconhecimento internacional importante, já que a Organização das Nações Unidas declarou o período como o Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável.

O anúncio desloca o voluntariado do campo simbólico para o estratégico. Ao relacioná-lo diretamente à agenda do desenvolvimento sustentável, a ONU reforça algo que gestores do Terceiro Setor conhecem bem, ou seja, que não há impacto social consistente sem pessoas engajadas, preparadas e integradas às missões institucionais. Voluntários não ocupam um papel secundário. Em muitas organizações, são parte da própria estrutura de funcionamento.

Essa constatação traz implicações diretas para a gestão. Liderar organizações baseadas no trabalho voluntário exige mais do que boa vontade ou capacidade operacional. Exige visão de longo prazo, clareza de papéis, investimento em formação e, sobretudo, uma cultura organizacional que reconheça o voluntariado como parte da governança social das instituições.

No INCAvoluntário é possível acompanhar de perto os desafios e responsabilidades envolvidos nesse tipo de gestão. A experiência no campo da saúde evidencia que o trabalho voluntário se sustenta em vínculos, escuta e cuidado mútuo. Não se trata apenas de mobilizar pessoas para uma causa, mas de criar condições para que esse engajamento seja ético, contínuo e sustentável.

O Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável também provoca  reflexões incômodas, mas necessárias. Quantas organizações ainda operam com modelos frágeis de gestão do voluntariado? Quantas concentram decisões sem abrir espaços reais de participação? Valorizar voluntários vai além de reconhecer horas doadas. Passa por integrá-los aos processos, compartilhar responsabilidades e respeitar seus limites.

No contexto do Terceiro Setor, essa reflexão se conecta diretamente a temas centrais para o trabalho criterioso do portal que acolhe esta coluna, como sustentabilidade institucional, transparência, fortalecimento da sociedade civil e qualidade do impacto social. Um voluntariado fragilmente estruturado não afeta apenas as pessoas envolvidas, mas coloca em risco a credibilidade, a coerência institucional e a própria continuidade das organizações.

Em áreas sensíveis como a saúde, o cuidado com quem cuida se torna ainda mais central. A ausência de suporte emocional, acompanhamento e formação adequada fragiliza relações e aumenta a rotatividade, afetando diretamente os resultados sociais. Pensar o voluntariado como parte da estratégia institucional é, portanto, uma decisão de gestão responsável.

Ao eleger 2026 como marco internacional, a ONU lança um convite claro às organizações da sociedade civil: repensar práticas, revisar modelos e fortalecer vínculos. Para gestores, o desafio está em qualificar relações junto à ampliação dos números, está em estruturas que sustentem o engajamento ao longo do tempo.

O voluntariado que contribui para o desenvolvimento sustentável é aquele que encontra organizações preparadas para acolher, formar e compartilhar caminhos. Transformar esse reconhecimento internacional em prática cotidiana é uma tarefa coletiva, mas começa pelas escolhas de gestão feitas dentro de cada instituição.

 

A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Fernanda Vieira

Gerente-geral do INCAvoluntário, área de ações sociais do Instituto Nacional do Câncer. Jornalista por formação, é especialista em Gestão (Fundação Dom Cabral), e tem MBA em Comunicação e Marketing. É membro da Rede Conexão Captadoras da ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos) e do Instituto Filantropia.