Instituto Yandê fortalece comunidades locais em região turística de AL
Força ComunitáriaO Instituto Yandê destaca que o modelo turístico nem sempre dialoga com as necessidades e modo de vida local; a partir de uma filosofia que coloca as comunidades como protagonistas, a organização cria e implementa ações de desenvolvimento sustentável nos territórios vulneráveis

*Por Lucas Neves
Conhecida por suas praias relaxantes e belas paisagens naturais, a Rota Ecológica dos Milagres é um trecho do litoral norte de Alagoas que atrai um número significativo de turistas. A sua população local, no entanto, ainda enfrenta desafios sociais em áreas básicas como saúde, educação, acesso à cultura e à qualificação profissional.
É a partir do propósito de melhorar a vida dessas pessoas, afetadas diariamente pelo modelo de turismo da região, que surge o Instituto Yandê, uma organização social criada em 2012 por um grupo de moradores dos municípios de Passo do Camaragibe, São Miguel dos Milagres e Porto de Pedras.
“Entre os principais desafios enfrentados pelas populações locais, evidencia-se a progressiva perda de acessos territoriais, decorrente do crescimento urbano desordenado e da intensa especulação imobiliária”, destaca o Instituto Yandê, em resposta ao Observatório do Terceiro Setor.
Em entrevista, Bárbara Pinheiro, diretora executiva do Yandê até setembro de 2025, e Diego Santos, atualmente no cargo, comentam que esses desafios são frutos da consolidação de um modelo de turismo hegemônico, pouco sensível às dinâmicas socioterritoriais.
“Não dialoga com os modos de vida locais, acentua a vulnerabilidade da pesca artesanal e contribui para o avanço de processos de gentrificação nos territórios costeiros”.
Nesse contexto, a iniciativa busca criar e implementar projetos para o desenvolvimento sustentável da região. “O Instituto Yandê desenvolve, atualmente, ações voltadas à salvaguarda de ofícios, saberes e manifestações culturais, utilizando o audiovisual como ferramenta estratégica de registro, valorização e difusão”.
Além do viés social da organização — que busca solucionar as carências das comunidades locais — o projeto estimula a conservação e fiscalização do seu principal atrativo, a natureza. Bárbara e Diego lembram que ao longo da trajetória, o Yandê construiu e implementou processos formativos voltados à promoção da conduta responsável no uso público, com ênfase na capacitação de condutores de visitantes que atuam de forma regularizada na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais.
Vale destacar que, recentemente, o instituto expandiu seu alcance. Antes voltada principalmente aos municípios de Passo de Camaragibe, São Miguel dos Milagres e Porto de Pedras, o raio de atuação do projeto agora se expande para 12 municípios, abrangendo os estados de Pernambuco e Alagoas.
Promovendo a conexão territorial
“Nossa abordagem parte do entendimento de que não é possível dissociar as populações locais e tradicionais de seus territórios, considerando a interdependência entre modos de vida, práticas socioculturais e dinâmicas socioambientais”, destaca o Yandê.
Apesar disso, os porta-vozes observam que as novas gerações, em sua maioria, têm se distanciado das práticas tradicionais, seja pela ruptura geracional, pela busca de novas formas de expressão e a inserção social, tanto dentro quanto fora dos seus territórios de origem.
Para eles, esse processo de afastamento é potencializado pela falta de políticas públicas adequadas que, quando não estão ausentes, são excludentes, desconsiderando as especificidades socioculturais e os direitos territoriais dessas populações.
“Nesse contexto, o Instituto Yandê se posiciona institucionalmente no sentido de fortalecer as culturas locais, promovendo a construção de pontes intergeracionais como estratégia de enfrentamento aos processos de aculturação”.
O trabalho da organização em promover os processos de transformação territorial opera na lógica do envolvimento, entendendo que as comunidades devem estar presentes e atuantes em todas as etapas dos processos, desde a concepção até a implementação e a avaliação das ações.
Bárbara e Diego destacam que o processo de consolidação do turismo na região ocorreu, em grande medida, a partir de modelos que não instituíram espaços efetivos de participação social. “As comunidades locais não foram consultadas, tampouco convidadas a integrar os processos decisórios, resultando em transformações conduzidas majoritariamente por agentes externos, que passaram a tratar territórios vivos como ‘destinos’ turísticos”.
“As comunidades locais não foram consultadas, tampouco convidadas a integrar os processos decisórios” — Instituto Yandê
É a partir desse cenário que o Yandê busca revisitar criticamente os caminhos adotados e consolidar mecanismos que assegurem o protagonismo comunitário. O seu próprio nome passa esse recado, baseado na palavra ‘Iandê’, em tupi-guarani, que quer dizer ao mesmo tempo “nós” e “nosso”.
Participação no Futuro Bem Maior
A promoção da conexão com os territórios também é uma das prioridades do Movimento Bem Maior (MBM). A partir do programa Futuro Bem Maior, a entidade apoia organizações sociais que fazem a diferença em territórios com alta vulnerabilidade social.
O Instituto Yandê estava entre os participantes recentes do programa do MBM. Os porta-vozes da organização comentam que o eixo da educação foi um dos mais impactados pelo Futuro Bem Maior, sobretudo nas atividades desenvolvidas semanalmente com mais de trinta crianças do povoado do toque e comunidades vizinhas ao município de São Miguel dos Milagres.
“Recebemos recorrentemente informações de professores das escolas municipais relatando como as crianças que participam das nossas atividades no Yandê se destacam no dia a dia na sala de aula, são alunos e alunas mais participativos, com segurança na leitura e boa interpretação do texto”.
Quer saber mais sobre o impacto do Futuro Bem Maior em organizações comunitárias? Clique aqui para conhecer a história da Associação Pecém Eu Te Amo (ASSPA), que assim como o Instituto Yandê, promove a conexão com o território para promover a transformação social.
Ademais, Bárbara e Diego exaltam o impacto institucional — referindo-se aos treinamentos realizados durante o Futuro Bem Maior — os quais “aproximaram mais a equipe e ajudaram sobremaneira a manter as portas abertas da instituição, que quase havia fechado no período da pandemia”.
Juntamente com o recurso financeiro, os porta-vozes citam a capacitação realizada pela Phomenta, e a troca com as demais turmas do programa, como os pontos altos da participação no projeto.
“Essas duas grandes frentes, nos ajudaram a fortalecer a equipe, melhorar nosso impacto, e pensar nas alternativas para diversificar a fonte de renda do nosso instituto”.
Esta matéria faz parte da série Força Comunitária, focada em apresentar histórias inspiradoras de organizações que atuam para transformar seus próprios territórios e mudar a vida das suas populações. Clique aqui para conferir outras matérias da série!
