Márcia Kalvon: construindo caminhos para uma infância saudável no Brasil

Impacto das ONGs
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Com mais de 25 anos de experiência, Márcia Kalvon é uma figura emblemática do terceiro setor; com organizações de peso no currículo, como o IDIS e a ABCR, atualmente ela é diretora executiva do Infinis, à frente de filantropia e advocacy da Fundação José Luiz Setúbal

Márcia Kalvon no 7° Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância (Imagem: Divulgação — Infinis)

*Por Lucas Neves

Para fechar a primeira temporada da série de matérias “Eu Sou o 3° Setor”, nada mais justo do que apresentar a jornada de Márcia Kalvon, diretora executiva do Instituto Futuro é Infância Saudável (Infinis).

Com mais de 25 anos de experiência em gestão de organizações da sociedade civil e filantropia, sua trajetória ilustra com precisão o foco dessa iniciativa jornalística: evidenciar o poder de impacto social causado por lideranças da sociedade civil.

Eu sou Lucas Neves, jornalista do Observatório do Terceiro Setor, e neste episódio de encerramento de temporada, nós conversamos com Márcia Kalvon.

O começo da jornada social

Márcia se graduou em Comunicação Social pela ESPM e possui especialização em Administração de Negócios pela UC Berkeley. No entanto, foi no terceiro setor que ela encontrou o seu verdadeiro propósito profissional

Segundo ela, essa jornada social começou quando precisou morar na Austrália. Neste período, Márcia conta que começou a fazer trabalhos voluntários na Cruz Vermelha. “Posteriormente, fui contratada para trabalhar na área que eles tinham de negócios. Assim, conheci mais sobre a organização e me apaixonei pela causa humanitária. É incrível fazer parte de uma organização em que construiu a ‘International Humanitarian Law’, com princípios tão fundamentais sobre direitos humanos”.

Após dois anos de experiência, ela voltou ao Brasil com o desejo de alinhar sua carreira profissional a um propósito social. Sem uma rede de contatos no país, Márcia ingressou em uma especialização de gestão do terceiro setor pela FGV-EAESP.

“Uma das professoras era Célia Cruz, uma figura ímpar. Na época, ela estava no Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e dando aula de captação de recursos”, recorda.

Ao declarar seu interesse na área de captação e pedir dicas, Márcia conta que Célia a convidou para atuar como voluntária no IDIS, algo que ela aceitou e, atualmente, considera como um momento cheio de aprendizados. Afinal, naquela época ainda não conhecia o terceiro setor no Brasil e não entendia a lógica do investimento social privado. 

“Eu estava mais acostumada com a lógica de organizações que buscavam recursos e doações, então conhecia pouco desse universo de doar recursos”, lembra Márcia, que permaneceu no IDIS por mais de uma década.

“Foram 12 anos de atuação, de voluntária a diretora executiva, passando para a Paula Fabiane, que é a atual CEO do IDIS. Pude aprender com os melhores que considero do setor, figuras que me inspiraram e ensinaram grande parte do que sei. Foram as bases da minha formação, de entender como uma doação voluntária pode transformar realidades”.

“Pude aprender com os melhores que considero do setor, figuras que me inspiraram e ensinaram grande parte do que sei” — diz Márcia, sobre período no IDIS

Carreira transformada pela maternidade

Após sua saída do IDIS, Márcia conta que entrou em um período sabático para ter a sua segunda filha. Isso porque ela sentiu a necessidade de se reorganizar, pensando em conciliar o cuidado entre suas duas crianças que possuíam idades bem distintas e, consequentemente, exigiam cuidados diferentes.

Apesar das demandas maternas terem afastado Márcia do terceiro setor, foi justamente esse o motivo que, eventualmente, a reposicionou na área. Ela lembra de um momento vivido durante o sabático, quando uma conversa com sua filha serviu de provocação para agir.

“Uma vez a gente foi brincar na pracinha perto de casa e ela estava detonada, estava tudo destruído e vandalizado. Aí minha filha me falou ‘mamãe, não dá assim’”. Então, Márcia entrou em contato com a associação do bairro, articulando vizinhos e a prefeitura para promover a revitalização da praça, ações que a acabaram por engajá-la de vez nessa associação.

O momento de saída do IDIS também marcou sua atuação como presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), entre 2018 e 2024. De acordo com ela, essas duas experiências foram cruciais para a sua formação enquanto agente do terceiro setor.

Assumindo a direção do Infinis

Foram a partir nessas duas iniciativas que ela se aproximou do Dr. José Luiz Setúbal, médico pediatra e Presidente na Fundação José Luiz Setúbal (FJLS). Em 2019, Márcia Kálvon se torna diretora da FJLS, fundação familiar dedicada à saúde infantojuvenil com a missão de promover a saúde e bem-estar das crianças por meio da assistência e da geração e disseminação de conhecimento.

A fundação engloba outras instituições voltadas a essa causa, como o Instituto Pensi, dedicado ao ensino e pesquisas científicas sobre o tema, o Sabará Hospital Infantil, referência na saúde de jovens no Brasil e no mundo, e o mais recente, Instituto Infinis, a frente de filantropia e advocacy que foca na defesa dos direitos da criança.

Márcia Kalvon e o Dr. José Luiz Setúbal, no 7° Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância (Imagem: Divulgação — Infinis)

“O Infinis chega num momento de maior maturidade da Fundação, onde ela está em pleno processo de expansão, com o Sabará se expandindo com um novo hospital, o Pensi também ampliando sua atuação para a parte do ensino de uma forma um pouco mais estruturada”, comenta Márcia.

Fundado em 2025, o Infinis se propõe a intensificar e qualificar a atuação em defesa da saúde pública para crianças e adolescentes, além de contribuir para o fortalecimento do terceiro setor e o desenvolvimento da filantropia no Brasil.

Os esforços do Infinis estão concentrados em quatro eixos: 

  • 1. Segurança alimentar e nutricional; 
  • 2. Saúde mental; 
  • 3. Prevenção às violências, alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU (Organização das Nações Unidas); 
  • 4. Fortalecimento da sociedade civil. 

“O nosso maior compromisso é provocar a melhoria das condições de vida de crianças e adolescentes no Brasil, trazendo uma infância saudável” — Márcia Kalvon, diretora executiva do Infinis

Ao se referir a uma infância saudável, Márcia ressalta a necessidade de entender a complexidade dos territórios, principalmente os mais vulneráveis. Segundo ela, a busca pelo bem-estar e saúde também passa por temas complexos e fundamentais, como a acentuação das desigualdades, o racismo, questões sanitárias, diferenças culturais, entre outros.

“É bom achar soluções simples, mas sempre com uma visão sistêmica, com um entendimento dessas complexidades e de que as transformações virão no longo prazo”, conclui Márcia.

Além disso, a diretora do Infinis ressalta a importância das organizações se colocarem em uma postura de escuta, respeito e coocriação. “É um jeito de fazer filantropia que fortalece comunidades, parceiros, capacidades, políticas públicas e alavanca recursos já existentes”.

Assim encerramos a primeira temporada do projeto “Eu Sou 3° Setor”, criado para dar voz a lideranças simbólicas da sociedade civil e evidenciar o poder de transformação das organizações sociais. 

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