O papel invisível das mulheres na segurança alimentar
Políticas Públicas

Por Juliana Malheiro Plaster
O Brasil saiu do Mapa da Fome mais de uma vez, mas a segurança alimentar nunca deixou de depender da gestão invisível de milhões de mulheres que, todos os dias, fazem caber no orçamento o que não cabe na renda. Se a fome tem CEP, tem renda e tem cor, ela também tem gênero.
Os dados mais recentes da PNAD Contínua, divulgados pelo IBGE, mostram que mais de dois milhões de lares deixaram a condição de insegurança alimentar em 2024. A melhora é relevante e sinaliza que políticas públicas e a retomada da renda produzem impacto real. Ainda assim, há mais de 6 milhões de brasileiros vivendo com fome e um em cada quatro domicílios permanece em algum nível de insegurança alimentar. Quase 60% desses lares são chefiados por mulheres.
O dado revela uma contradição estrutural: as mulheres estão no centro da gestão da alimentação e também no epicentro da vulnerabilidade social.
Não se trata apenas de quem responde formalmente pelo domicílio. Trata-se de quem administra o orçamento, define prioridades, reorganiza compras, substitui alimentos, estica a “mistura” até o fim da semana e, quando necessário, reduz a própria porção para proteger filhos e idosos.
Essa centralidade, porém, é atravessada por desigualdades persistentes. A insegurança alimentar é mais intensa em domicílios de menor renda e menor escolaridade, condições que atingem de forma desproporcional mulheres, especialmente as negras e aquelas que chefiam lares sozinhas. Soma-se a isso a sobrecarga histórica do trabalho doméstico e do cuidado, ainda majoritariamente feminino e não remunerado.
Há, portanto, uma economia invisível sustentando a segurança alimentar brasileira. Enquanto o Estado opera por meio de transferência de renda e políticas públicas estruturantes, as mulheres operam na microgestão da escassez, amortecendo o impacto da pobreza antes que ele se converta em estatística.
Essa dinâmica exige cuidado interpretativo. A capacidade feminina de administrar restrições não deve ser confundida com solução estrutural. Políticas eficazes são aquelas que reduzem a necessidade de compensações domésticas invisíveis e não aquelas que passam a depender delas.
Reconhecer essa dinâmica é fundamental para qualificar o debate sobre o combate à fome. Segurança alimentar não é apenas acesso físico ou financeiro à comida; envolve tempo, cuidado, organização e decisão, dimensões que recaem majoritariamente sobre as mulheres. Sem políticas de gênero articuladas às políticas de combate à pobreza, qualquer avanço tende a ser frágil.
Isso significa investir na autonomia econômica feminina, ampliar acesso a emprego formal e qualificação, fortalecer redes de proteção social e expandir políticas de cuidado, como creches e educação em tempo integral. Significa também olhar para a agricultura familiar com perspectiva de gênero, garantindo acesso de mulheres à terra, crédito e assistência técnica.
Quando a renda feminina cresce, cresce também o investimento em alimentação e bem-estar familiar. Não é uma questão identitária, mas uma evidência socioeconômica.
No próximo 8 de março, a reflexão que se impõe é clara: as mulheres não são apenas parte do público das políticas de combate à pobreza. Elas são, na prática, a principal engrenagem que impede que a fome avance. Valorizar essa centralidade é estratégico.
Porque, no Brasil, a segurança alimentar começa no orçamento doméstico. E, na maioria das vezes, começa pelas mãos de uma mulher.
*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.
Sobre a Autora: Juliana Malheiro Plaster é advogada e codiretora executiva do Pacto Contra a Fome. Com mais de 20 anos de experiência no terceiro setor, atua na articulação de parcerias e iniciativas voltadas ao combate à fome e à promoção da segurança alimentar no Brasil.
