“O silêncio dos bons”: de que lado estamos diante da miséria?

Cultura de Doação
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Imagem: ChatGPT

 

Por Custódio Pereira

 

“O que mais me preocupa não é a maldade dos maus, mas o silêncio dos bons.” A paráfrase atribuída a Martin Luther King Jr. costuma ecoar em momentos de rupturas históricas, como ditaduras, guerras e grandes convulsões políticas. Sem dúvida, ela define esses cenários. No entanto, seu alcance é ainda mais profundo e imediato: ela nos interpela aqui e agora, no cotidiano de sociedades que se orgulham de serem democráticas, prósperas e civilizadas.

Vivemos sob o peso de paradoxos brutais. De um lado, testemunhamos uma abundância material sem precedentes, de outro, convivemos com uma miséria inaceitável que devora famílias inteiras e, de forma ainda mais cruel, rouba a infância de milhares de crianças. São pessoas sem teto, sem saúde, sem escola e que, no limite da dignidade humana, sobrevivem do que o lixo descarta. E o mais perturbador: tudo isso acontece à vista de todos.

O problema central não reside apenas na existência dessa desigualdade, o que deveria nos inquietar profundamente é a nossa assustadora capacidade coletiva de nos acostumarmos a ela. Seguimos nossas rotinas, prosperamos em nossos negócios e circulamos em carros confortáveis rumo a lares protegidos, enquanto, a poucos quilômetros de distância, uma geração inteira cresce sem qualquer perspectiva real de futuro.

É nesse ponto que emerge uma reflexão necessária: a urgência de um capitalismo filantrópico. Não se trata de negar o papel do mercado ou a importância da geração de riqueza, mas de reconhecer que a riqueza desprovida de responsabilidade social gera fraturas profundas. Mais cedo ou mais tarde, essas rachaduras recaem sobre toda a sociedade.

Independentemente das causas que levaram essas famílias à vulnerabilidade – um tema complexo que jamais deve servir de pretexto para a inércia – existe um princípio ético inegociável: se detemos meios, influência, conhecimento ou recursos, detemos também uma responsabilidade proporcional. Ignorar essa realidade não é neutralidade – é omissão.

Essa reflexão ganha corpo e ação através do projeto Filantropia na Cidade, movimento que terá sua terceira edição realizada em 2026. No último ano, essa iniciativa mobilizou mais de 5 mil voluntários e impactou diretamente e indiretamente mais de 30 mil pessoas em apenas alguns dias do mês de outubro, período em que se comemora o Dia Nacional da Filantropia (20). Mais do que números expressivos, esses dados representam o poder da sociedade civil organizada. Quando nos unimos, a transformação deixa de ser um conceito e se torna realidade.

O Filantropia na Cidade não é um assistencialismo passageiro. É uma ação estruturada de conscientização e presença contínua. É a materialização da ideia de que a indignação, sozinha, não basta e que é preciso agir. Nosso sonho é maior: queremos a filantropia pulsando nas cidades todos os dias, em todos os territórios, até que o flagelo da miséria deixe de ser parte da nossa paisagem cotidiana.

Há, ainda, um argumento pragmático que não pode ser ignorado: o custo da omissão. Tudo o que deixamos de investir hoje em dignidade e proteção às crianças será cobrado amanhã sob a forma de violência e desagregação social. Muitos jovens, privados de oportunidades, acabam sendo recrutados pelo crime não por escolha, mas por uma absoluta e trágica ausência de alternativas.

Esta não é apenas uma questão moral, é uma questão estratégica para o futuro do país. Por isso, este texto é um convite direto. Se você concorda que a miséria extrema é incompatível com qualquer projeto sério de nação, acredita que o silêncio dos bons deve dar lugar à ação dos responsáveis e entende que a solidariedade organizada transforma o mundo, junte-se a nós!

Construir uma consciência nacional de solidariedade não é um gesto simbólico. É o primeiro passo para enfrentar o drama da fome e a falta de futuro que assombra nossas crianças. A história nos ensina que sociedades não fracassam apenas pela ação dos maus, mas pela inércia daqueles que poderiam ter feito a diferença.

 

A pergunta que permanece é simples, direta e necessária: de que lado da história queremos estar?

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor

 

Custodio Pereira

Custódio Pereira é presidente do Fórum Nacional das Instituições Filantrópicas – FONIF, mestre em Administração pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e doutor pela Universidade de São Paulo. Também é professor do curso "Governança Corporativa para Instituições Sem Fins Lucrativos", promovido pela Universidade Corporativa FONIF em parceria com o IBGC e o Semesp.