Movimento Mulheres 3S fortalece protagonismo feminino no Terceiro Setor

Direitos Humanos
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Segundo Julia Caldas de Almeida, Co-idealizadora do Mulheres 3S, o Movimento nasce com o objetivo de “conectar lideranças femininas do Terceiro Setor e promover também o diálogo com representantes dos setores público e privado”

Julia Caldas de Almeida – Co-idealizadora e Líder de Gestão e Comunidade do Movimento Mulheres 3S

*Por Lucas Neves

“O trabalho de cuidado sustenta a vida e grande parte dele é realizado por mulheres no Terceiro Setor.” É a partir desse fato que Julia Caldas de Almeida explica a relevância do Movimento Mulheres 3S, onde ela é Co-idealizadora e atua como líder de Gestão e Comunidade.

Criado durante a pandemia de COVID-19, o Movimento Mulheres 3S surge com o propósito de gerar reconhecimento e valorização feminina no Terceiro Setor, que representa a maioria da força de trabalho nas organizações sociais do país.

Em entrevista ao Observatório, Julia conta que o movimento surgiu em um contexto de grande desafio coletivo gerado pela pandemia, quando organizações da sociedade civil enfrentaram pressões intensas para manter suas atividades e responder ao aumento das demandas sociais.

“Nesse contexto, ficou ainda mais evidente o papel fundamental das mulheres na gestão, na articulação e na implementação dessas iniciativas. Elas estavam na linha de frente do enfrentamento à crise, mobilizando redes, comunidades e recursos”, destaca Julia.

A co-idealizadora do movimento lembra que, nem sempre, essas mulheres ocupavam os cargos mais altos de decisão nas organizações. Além disso, muitas dessas lideranças e trabalhadoras vivenciavam uma sobrecarga significativa, marcada pelo acúmulo de responsabilidades profissionais, trabalho doméstico e cuidados familiares, fora o isolamento social e a necessidade de criar novas formas de colaboração.

“Assim nasceu o Movimento Mulheres 3S, com o objetivo de conectar lideranças femininas do Terceiro Setor e promover também o diálogo com representantes dos setores público e privado, reconhecendo que os grandes desafios sociais exigem cooperação e construção coletiva”.

A atuação do Movimento Mulheres 3S

Este ano, o Movimento Mulheres 3S soma forças com o Movimento Nacional ODS Minas Gerais e o Ministério Público do Estado de Minas Gerais para realizar a Conferência Livre “Governança Participativa para Redução das Desigualdades”, etapa preparatória para a Conferência Nacional ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável).

Este encontro vai propor caminhos concretos para acelerar a implementação da Agenda 2030, reunindo lideranças do Terceiro Setor, representantes do poder público, coletivos, conselhos e movimentos sociais.

Durante o evento, serão trabalhados três eixos principais:

  • democracia e instituições fortes;
  • promoção da inclusão social e combate às desigualdades;
  • governança participativa.

“No contexto atual, nosso principal objetivo é ampliar esses espaços de diálogo e fortalecer uma agenda coletiva, participativa e diversa, que reconheça o papel das mulheres como protagonistas na construção e na sustentabilidade das organizações da sociedade civil — e da própria sociedade. Afinal, o trabalho de cuidado é o que sustenta a vida.”

Julia também destaca outras ações de relevância do movimento. Como o Cafés Mulheres 3S, que são encontros de diálogo e produção de conhecimento que reúnem lideranças femininas para discutir temas estratégicos como governança, saúde mental, sustentabilidade institucional e equidade de gênero no campo social.

Cenário atual e os seus desafios

As mulheres representam cerca de 65% da força de trabalho do terceiro setor, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego. “Elas são fundamentais na mobilização comunitária, na gestão de projetos e na construção de redes de solidariedade e impacto social”, comenta Julia.

Embora a presença feminina seja maioria no setor, a desigualdade de gênero ainda é um desafio a ser superado, principalmente quando se trata de ocupação de cargos de decisão, alerta a Co-idealizadora do Movimento Mulheres 3S.

Para Julia, as desigualdades históricas de acesso aos espaços de poder, a sobrecarga de responsabilidades e, muitas vezes, a dificuldade de conciliar múltiplas demandas profissionais e pessoais, se apresentam como problemas latentes para as mulheres no setor. 

Ademais, ela destaca que muitos modelos de liderança são estruturados a partir de padrões que não consideram plenamente as experiências e trajetórias femininas.

“Por isso, fortalecer a liderança feminina no Terceiro Setor também significa promover mudanças culturais e institucionais que reconheçam o valor da diversidade na gestão e ampliem as oportunidades para que mulheres ocupem e permaneçam em espaços de decisão”, salienta.

Apesar do cenário repleto de desafios, Julia enxerga uma evolução constante na causa, observando um movimento crescente de fortalecimento do protagonismo feminino, com mais mulheres assumindo posições de liderança e participando de espaços estratégicos de decisão. Entretanto, esse avanço precisa ser continuamente incentivado. 

“Promover o empoderamento feminino no Terceiro Setor significa não apenas ampliar o acesso das mulheres a cargos de liderança, mas também valorizar práticas de gestão mais colaborativas, humanas e comprometidas com o bem-estar das pessoas e das organizações” – Julia Caldas de Almeida

Além do mais, Julia considera crucial que haja uma ampliação dos investimentos no Terceiro Setor e um fortalecimento na qualificação de seus profissionais. 

“O campo social sustenta respostas fundamentais para muitos desafios do país. Apoiar mais e cobrar menos das organizações é reconhecer que são elas — e, em grande parte, as mulheres que as fazem acontecer — que sustentam grande parte da base de cuidado da nossa sociedade.”

Uma mensagem de reconhecimento e encorajamento

Por fim, Julia deixa uma mensagem para as mulheres do terceiro setor, lembrando-as do seu papel essencial na construção e no fortalecimento das organizações da sociedade civil e no enfrentamento das desigualdades sociais brasileiras.

“Que possamos seguir fortalecendo nossas redes de apoio, compartilhando conhecimentos e ocupando cada vez mais os espaços de decisão. Quando mulheres se conectam, se apoiam e lideram juntas, ampliamos não apenas o impacto das nossas organizações, mas também as possibilidades de transformação social”.

Julia encerra reafirmando o compromisso e a missão do Movimento Mulheres 3S, que nasce exatamente desse espírito de colaboração: “criar espaços onde mulheres possam se reconhecer, se fortalecer e construir, juntas, caminhos mais justos e sustentáveis para o Terceiro Setor.”