O lugar da filantropia em um mundo em conflito

Cultura de Doação
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Imagem: ChatGPT

 

Por Luiza Serpa

 

Recentemente participei de um evento do mercado financeiro. Fui com um objetivo simples: ouvir e conhecer pessoas. Entender como esse universo está pensando sobre riqueza, tendências e, principalmente, para onde o dinheiro está caminhando.

Como costuma acontecer nesses ambientes, ouvi de tudo um pouco. Algumas ideias interessantes, outras previsíveis, algumas bem clichês. Algo relativamente comum em eventos de qualquer setor.

Mas uma sensação ficou mais forte ao longo das conversas. Uma mudança no clima.

Nos painéis e nas conversas paralelas, temas como guerra, defesa, instabilidade geopolítica e disputas entre blocos econômicos apareciam repetidamente. Ao mesmo tempo, falava-se sobre incentivos econômicos, ciclos eleitorais e o impacto dessas variáveis nas decisões de investimento.

O resultado é uma espécie de atmosfera paradoxal. Muito movimento, muita análise, muitos números. E, ao mesmo tempo, um sentimento difuso de estagnação e cautela.

Foi inevitável pensar no papel da filantropia nesse contexto.

Recentemente tive a oportunidade de estudar o caso de um monastério e depois visitá-lo pessoalmente. Ao caminhar por aquele espaço, uma reflexão me marcou profundamente. Aquele lugar existe há quase mil anos. Ao longo de sua história, atravessou guerras, crises econômicas, transformações políticas e mudanças civilizatórias profundas.

E ainda está lá.

Esse tipo de perspectiva histórica traz um certo conforto. Lembra o quanto somos, de certa forma, passageiros diante dos ciclos da história. Lembra também o quanto nossa tentativa constante de controlar tudo talvez seja mais limitada do que imaginamos.

Ouvindo sobre os monges beneditinos me inspirei a pensar em  um princípio simples que ecoa com força nesses tempos. Agir, sim, mas com calma.

Agir com serenidade.
Agir com consciência.
Agir sem perder o centro.

Se olharmos para o mundo hoje, vemos forças em disputa, narrativas em choque e interesses econômicos em tensão. Tempos de guerra, ou de preparação para ela, costumam amplificar a lógica da competição, da defesa e do poder.

Mas a história também mostra outra coisa. Mesmo nos períodos mais duros, sempre existiram espaços de cuidado, solidariedade e reconstrução.

É justamente aí que a filantropia encontra sua relevância.

Em um mundo cada vez mais orientado por eficiência financeira e disputas geopolíticas, a filantropia pode funcionar como um contrapeso moral do sistema. Não resolve tudo, mas lembra algo essencial. Desenvolvimento, riqueza e poder perdem sentido se não estiverem acompanhados de responsabilidade social.

No fundo, a filantropia nasce de uma ideia simples e radical ao mesmo tempo. A de que o destino coletivo importa.

Em tempos de guerra, isso se torna ainda mais importante.

Que ainda exista espaço para o amor ao próximo, para a humildade e para o compromisso com o bem comum.

E que a filantropia continue existindo sempre que houver um bom coração disposto a agir.

 

*A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Observatório do Terceiro Setor.

 

Luiza Serpa

Luiza Serpa é fundadora e diretora do Instituto Phi, única brasileira no Conselho Estratégico da rede Latimpacto, Responsible Leader da BMW Foundation, fellow da Skoll Foundation, integrante do Conselho da rede NEXUS Global, membro da Entrepreneur’s Organization (EO). Faz parte do comitê da Plataforma Conjunta e foi reconhecida como Empreendedora Social do Ano pela Folha em 2020. Luiza contou sua história num capítulo do livro “Mulheres do Terceiro Setor”, da Editora Leader, que aborda as histórias, cases, aprendizados e vivências de 18 empreendedoras sociais ao longo de sua carreira.