Child Life Specialist: o cuidado emocional transformando a experiência hospitalar infantil

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“O Child Life Specialist é o profissional que cuida da experiência emocional da criança e da família dentro do hospital. Isso significa preparar a criança para procedimentos, explicar o que vai acontecer com ela de forma adequada e usar o brincar como ferramenta para ajudar a reduzir medo, estresse e ansiedade”, disse Giovanna Pombani, coordenadora do Child Life Specialist do Sabará Hospital Infantil

Imagem: Sabará Hospital Infantil

*Por Lucas Neves

Muitas vezes associado à dor e a doença, os ambientes hospitalares costumam afetar o emocional dos pacientes, até mesmo prejudicando no resultado dos tratamentos. Quando se trata de atendimento pediátrico, a atenção ao estado emocional é ainda mais necessária para que a criança fique menos ansiosa, colabore mais durante os procedimentos e não desenvolva traumas.

Nesse sentido, o acompanhamento psicológico para a criança e sua família se faz necessário, sobretudo em períodos de internação ou no tratamento de doenças complexas. O Child Life Specialist é um profissional especializado justamente nesse cuidado emocional, auxiliando crianças e suas famílias a lidarem com experiências estressantes durante a hospitalização.

Originada nos Estados Unidos, na década de 1920, o Child Life Specialist foi introduzido no Brasil pela Dra. Sandra Mutarelli Setubal. Apesar de se mostrar uma ferramenta importante para o bem-estar dos pequenos pacientes, esses profissionais ainda são raros nos hospitais brasileiros.

Em entrevista ao Observatório do Terceiro Setor, Giovanna Pombani, coordenadora do Child Life Specialist do Sabará Hospital Infantil, falou sobre a necessidade do cuidado humanizado no tratamento de crianças e revelou a escassez dessa especialização no sistema de saúde brasileiro, já que o Sabará é uma das únicas instituições pediátricas a contar com atendimento no país.

Humanizando o atendimento hospitalar infantil

“O Child Life Specialist é o profissional que cuida da experiência emocional da criança e da família dentro do hospital. No dia a dia, isso significa preparar a criança para procedimentos, explicar o que vai acontecer com ela de forma adequada à idade e nível de desenvolvimento, usar o brincar como ferramenta para ajudar a reduzir medo, estresse e ansiedade”, explicou Giovanna.

Além disso, a especialista alertou para os problemas de desenvolvimento ocasionados por experiências hospitalares negativas, capazes de deixar marcas duradouras nos jovens pacientes. Ela lembrou que — em momentos mais delicados, como diagnósticos graves — os Child Life Specialists executam um papel fundamental para o bem-estar dos envolvidos.

“Esse profissional auxilia na comunicação com a criança, ajudando a traduzir informações difíceis de forma honesta, mas compreensível. Além de oferecer espaços de expressão emocional, por meio do brincar, para que a criança possa elaborar o que está vivendo”.

Acolhendo as famílias dos pacientes

O mesmo vale para o cuidado emocional da família dos pacientes. Giovanna destacou que, ao serem atendidos pelos especialistas, os familiares costumam passar por mudanças de comportamento significativas.

Segundo ela, muitas famílias chegam ansiosas, inseguras, estressadas e sem saber como ajudar a criança, especialmente diante do medo do desconhecido. Com o acompanhamento, elas passam por um processo de educação em saúde, entendendo melhor o que vai acontecer, o porquê dos procedimentos e como eles podem auxiliar seus filhos de forma mais ativa.

“O Child Life instrumentaliza a família com estratégias práticas, como preparo prévio da criança para os procedimentos e uso de técnicas de distração durante momentos mais difíceis. Isso dá aos pais ferramentas concretas para apoiar seus filhos. Com isso, a família deixa de ser apenas espectadora e se torna parte ativa da experiência da criança. Essa mudança impacta diretamente o comportamento infantil.”

Além disso, a especialista apontou para o fortalecimento da confiança na equipe do hospital. Quando as famílias percebem que o cuidado inclui o aspecto emocional, há uma maior conexão, abertura e adesão ao tratamento.

No contexto de luto ou fim de vida, Giovanna salientou que  Child Life Specialist também tem um papel crucial em intervenções de construção de legado, que podem acontecer de diferentes formas: a criação de álbuns de fotografia, registros com a marca da mão ou do pé da criança, uma mecha de cabelo guardada, ou até a impressão da mão em argila.

“São gestos profundamente simbólicos que ajudam a materializar a existência, o vínculo e a história daquela criança. Esses registros se tornam fontes de conforto, conexão e significado para a família.”

Escassez de Child Life Specialists nos hospitais brasileiros

Mesmo exercendo um papel crucial para o bem-estar e recuperação dos pacientes pediátricos, esses profissionais especializados no cuidado emocional das crianças ainda são escassos nos hospitais brasileiros. Conforme Giovanna, a difusão dessa atividade no país passa por alguns pilares importantes.

“O primeiro é o reconhecimento formal da profissão no Brasil, com uma regulamentação clara e definição de formação específica. Isso é fundamental para garantir qualidade, segurança e expansão consistente da atuação.”

Em seguida, ela destacou a necessidade de disseminar o conhecimento sobre o impacto que o Child Life Specialist tem na experiência da criança, da família e até nos desfechos assistenciais, afirmando que esse cenário já está em transformação. 

“Estamos trabalhando ativamente na ampliação da visibilidade da área, estruturando práticas, gerando evidências e formando profissionais. À medida que essas experiências se tornam mais concretas e mensuráveis, o interesse cresce e o caminho para a consolidação da área no Brasil se torna cada vez mais promissor”, concluiu.