Projeto leva internet onde ela quase nunca chegou na Amazônia

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Rede Amazônia +Conectada transforma a rotina de comunidades isoladas com acesso à tecnologia, formação profissional e novas oportunidades

Foto: Divulgação

Por Vitória Serrão.

O acesso à internet na região Amazônica brasileira, conhecida como Amazônia Legal, cresceu de maneira significativa nos últimos anos em razão da expansão da tecnologia de fibra óptica e da internet em dispositivos móveis. No Amazonas, segundo dados do Governo Federal, a conexão chegou a 94,3% dos domicílios em 2025.

Apesar de o avanço ser expressivo, esse crescimento se concentra nos lares urbanos, colocando em evidência as desigualdades no acesso à tecnologia enfrentadas por comunidades tradicionais e moradores de zonas rurais. Nessa perspectiva, iniciativas voltadas ao enfrentamento dos desafios logísticos e das desigualdades regionais fazem toda a diferença no dia a dia da população da região.

É pensando nessa realidade que surge o programa Rede Amazônia +Conectada, da organização Grupo +Unidos. A iniciativa é voltada à promoção do desenvolvimento local por meio da conectividade e do acesso a ferramentas digitais em regiões remotas da Amazônia Legal.

O diretor-executivo do Grupo +Unidos, Daniel Grynberg, conta que a ideia para o programa surgiu durante a pandemia, quando muitos projetos da organização, que eram presenciais, precisaram migrar para o ambiente online. Esse movimento abriu uma nova possibilidade: se os cursos estavam acontecendo pela internet, já não fazia sentido concentrar as vagas apenas em São Paulo. Era possível alcançar alunos de diferentes regiões do Brasil.

Foto: Divulgação

Segundo Daniel Grynberg, quando as formações começaram a chegar à Amazônia, ficaram evidentes as desigualdades vivenciadas pelas comunidades e a necessidade de ampliar a conectividade. Muitas vezes, os alunos não conseguiam acompanhar os cursos por falta de conexão ou por dificuldades de acesso à tecnologia.

“A Rede Amazônia +Conectada nasce desse diagnóstico. O projeto foi pensado como uma iniciativa de desenvolvimento territorial, unindo acesso à internet, letramento digital e formação para que a tecnologia pudesse, de fato, ser usada pelas comunidades no dia a dia”, afirma.

Barreiras de acesso e desigualdades regionais 

Para Daniel Grynberg, a inclusão digital na Amazônia ainda está muito distante do que deveria ser. Segundo ele, é necessário investir mais em formação e acelerar a expansão da conectividade, tendo em vista que apenas levar internet não resolve o problema: é preciso ensinar as pessoas a utilizá-la.

“Em muitas comunidades rurais e ribeirinhas, a internet está chegando praticamente junto com a energia elétrica. Isso mostra o tamanho do atraso histórico no acesso a serviços básicos. Mas o desafio não é só ter sinal de internet. Muitas pessoas nunca tinham usado um computador antes de participar das formações. Então, existe uma desigualdade de infraestrutura, mas também uma desigualdade de conhecimento”, ressalta.

Para o diretor-executivo, é preciso ensinar desde o básico, como informática e uso do computador, até ferramentas voltadas à geração de renda, como Excel, emissão de nota fiscal, formalização de pequenos negócios e acesso a mercados. Ele destaca ainda que é essencial ampliar a participação das empresas e de outras organizações nesse processo, já que a Amazônia enfrenta enormes desafios logísticos, e o trabalho em rede contribui para dar escala, continuidade e qualidade às soluções.

A importância da inclusão digital na Amazônia

O diretor-executivo do Grupo +Unidos, Daniel Grynberg, reforça que a inclusão digital está diretamente ligada ao acesso a direitos, à geração de renda e à educação, uma realidade ainda mais evidente na Amazônia, onde as grandes distâncias e as dificuldades de deslocamento ampliam as desigualdades.

“Quando a pessoa aprende a usar a internet, emitir uma nota fiscal, abrir um MEI ou vender pelo WhatsApp, ela passa a ter mais autonomia e mais condições de manter o próprio negócio”, destaca Grynberg.

Ele explica que um exemplo simples dessa transformação está na emissão de documentos. Antes, um pequeno produtor muitas vezes precisava percorrer horas de barco ou carro até a cidade para emitir uma nota fiscal ou acessar uma lan house. Esse deslocamento poderia custar entre R$ 300 e R$ 400, valor que comprometia uma parte significativa do lucro obtido com uma venda.

Segundo Daniel, a inclusão digital também amplia o acesso às políticas públicas. Agricultores familiares, por exemplo, conseguem se formalizar e participar de programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que compram produtos da agricultura familiar. Sem documentação, nota fiscal e acesso às ferramentas digitais, muitas dessas oportunidades acabam ficando fora do alcance.

“Na educação, o impacto também é expressivo. Em comunidades distantes dos centros urbanos, a internet permite que cursos e aulas cheguem a pessoas que antes tinham poucas alternativas de formação. Para moradores de regiões onde o deslocamento pode levar horas ou até dias, a possibilidade de estudar de casa transforma as perspectivas de futuro”, destaca.

Premiação e reconhecimento

O programa Rede Amazônia +Conectada levou o Grupo +Unidos a conquistar o primeiro lugar na categoria Ação Comunitária e Impacto Social do Prêmio ESG, considerado o maior reconhecimento em ESG e sustentabilidade do Brasil.

Para o representante do Grupo +Unidos, o prêmio demonstra que a inclusão digital, quando acompanhada de formações alinhadas às necessidades do território e do mundo do trabalho, além da articulação entre diferentes setores, pode gerar impacto direto na vida das pessoas.

“Não se trata apenas de levar internet. O objetivo é criar condições para que moradores consigam estudar, empreender, acessar serviços públicos, formalizar seus negócios e ampliar suas oportunidades.”

Programa Rede Amazônia (Foto: Divulgação)

O programa leva conexão à internet, equipamentos digitais e trilhas formativas a cerca de 62 municípios da Amazônia Legal, impactando 609 famílias e mais de 2,5 mil pessoas.

“Representa, antes de tudo, o reconhecimento de um trabalho que vem sendo construído há anos, com muito diálogo com o território. A Rede Amazônia +Conectada nasce de uma escuta real das comunidades e de um desafio muito concreto, que é garantir que a conectividade chegue a regiões onde ela ainda não chegou de forma plena.”

Gerando impactos e transformação

Daniel também comenta que a equipe é movida por resultados inspiradores. Um exemplo marcante é a história de Sirlene, moradora da Vila Castanhal, que representa o tipo de transformação que o projeto busca promover.

Antes de participar da Rede Amazônia +Conectada, ela nunca havia usado um computador. Ao longo do projeto, participou de diversas formações, incluindo um curso completo de Excel, e passou a utilizar esse conhecimento no trabalho e na rotina da comunidade.

“Hoje, ela atua como secretária na escola da Vila Castanhal, uma função que exige o uso constante do computador, além de ajudar outras pessoas no processo de inclusão digital.”

A trajetória dela já era marcada pela superação antes mesmo do projeto. Sirlene estudou, concluiu a graduação, criou os filhos e também administra um negócio familiar ligado à produção de medicamentos veterinários junto com o filho. Com o acesso à tecnologia, conseguiu ampliar seus conhecimentos e se tornou uma multiplicadora dentro da própria comunidade.

Ela continua participando das formações promovidas pelo Grupo +Unidos e recebeu recentemente um certificado de participante engajada. Sua história mostra que a inclusão digital não termina quando alguém aprende a usar um computador. O maior impacto acontece quando esse conhecimento passa a ser compartilhado com toda a comunidade.