“O que sobra para viver?”: os impactos da escala 6×1 na vida dos trabalhadores
Direitos HumanosEm entrevista ao Olhar da Cidadania, Patrícia Anastácio discute como a escala de trabalho 6×1 compromete o descanso, a saúde mental e a convivência familiar

Por Vitória Serrão
O debate sobre a jornada de trabalho coloca em evidência a necessidade de considerar os impactos que jornadas exaustivas, como a escala 6×1, têm sobre o tempo de descanso, a saúde mental e a qualidade de vida do trabalhador. No Brasil, a última grande mudança na jornada de trabalho ocorreu há quase 40 anos. Em 1988, a Constituição Federal reduziu a carga horária semanal máxima de 48 para 44 horas.
Uma pesquisa nacional realizada em 2024 pelo Instituto de Pesquisa DataSenado mostra que, para 48% dos brasileiros, a qualidade de vida dos trabalhadores no país é regular. Entre os que se posicionaram nos extremos, 35% a avaliaram como ruim ou péssima, enquanto apenas 16% a consideraram boa ou ótima.
Diante desse cenário, o programa Olhar da Cidadania recebe a advogada trabalhista Patrícia Anastácio, mestranda em Direito do Trabalho pela Universidade de São Paulo (USP). No episódio “Fim da Escala 6×1”, a especialista contextualiza a origem da escala 6×1, discute sua relação com a história dos direitos trabalhistas e analisa os principais argumentos que cercam a proposta de redução da jornada de trabalho.
A escala 6×1 evidencia as desigualdades estruturais
A desigualdade nos impactos da escala também evidencia a vulnerabilidade histórica de alguns grupos sociais no Brasil. Os mais afetados por jornadas exaustivas são trabalhadores de baixa renda e escolaridade, mulheres, especialmente negras, chefes de família que enfrentam dupla jornada e profissionais de setores operacionais e de atendimento contínuo.
A advogada destaca que a rotina exaustiva tem reflexos diretos na saúde dos trabalhadores. Para ela, a discussão sobre a redução da jornada não envolve apenas produtividade, mas também qualidade de vida e prevenção de doenças relacionadas ao trabalho.
“Hoje, eu tenho um número muito alto de afastamentos pelo INSS em razão do esgotamento profissional. A jornada 6×1 também ocasiona adoecimento nesses trabalhadores.”
Patrícia defende que modelos com mais tempo de descanso, como a escala 5×2, podem contribuir para melhorar a saúde física e mental dos profissionais.
“Quando eu tenho uma jornada menor, eu tenho mais tempo de descanso e, consequentemente, uma qualidade de vida melhor.”
Sobre o Olhar da Cidadania
O Olhar da Cidadania é um programa do Observatório do Terceiro Setor, apresentado pelo jornalista Joel Scala, contando com as colunas de Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP e Paulo Artaxo professor titular e chefe do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da USP.
O programa vai ao ar todas às quintas-feiras às 13:30h, na Rádio USP (São Paulo: 93.7 FM / Ribeirão Preto: 107.9 FM). Também é possível conferir os episódios posteriormente no portal do Observatório.
Escute o episódio:
