“Neste naufrágio, não estamos no mesmo barco”, diz presidente da CUFA
Em bate-papo online promovido pela Oxfam Brasil, o presidente da CUFA, Preto Zezé, e a deputada federal Áurea Carolina (PSOL-MG) discutem como a crise gerada pela Covid-19 tem afetado principalmente as pessoas negras e pobres no Brasil

Por: Mariana Lima
A pandemia de Covid-19 tem afetado em alguma medida a vida de todos, mas os que mais sofrem os impactos da atual crise sanitária e econômica são aqueles que já estavam em situações mais vulneráveis antes mesmo da chegada do novo coronavírus.
“Neste naufrágio, não estamos no mesmo barco. Enquanto alguns estão na boia ou se afogando, outros estão de jet ski e em iates fazendo churrasco”, reflete Preto Zezé, ex-lavador de carros nas ruas de Fortaleza (CE), rapper, ativista, empreendedor e presidente internacional da Central Única das Favela (Cufa).
Ele participou de um bate-papo online promovido pela Oxfam Brasil nesta quinta-feira (25), com o tema ‘Desigualdade: Racismo e Coronavírus’. O evento online também contou com a participação de Áurea Carolina, socióloga, mestra em ciência política e deputada federal pelo PSOL-MG.
O encontro fechou a série semanal que a Oxfam Brasil vinha realizando nas últimas 13 semanas para dialogar sobre os impactos da pandemia em diversas áreas e grupos da sociedade brasileira.
A conversa abordou como a discriminação racial se reflete na construção de políticas públicas e no acesso aos direitos básicos. A deputada federal Áurea Caroline destacou o caso Miguel, menino de 5 anos que caiu no 9º andar do prédio em que a mãe trabalhava como empregada doméstica em Recife, para exemplificar a questão.
“Essa mãe negra vive a desumanização extrema imposta pelo Estado. A morte deste menino está na conta do racismo, da pandemia e de uma negação social para a promoção da proteção dos corpos negros”.
Ambos os convidados discorreram sobre como as manifestações antirracistas, motivadas pela morte do norte-americano George Floyd por um policial branco, chegaram ao Brasil. Eles ressaltaram que o país enterra diversos ‘George Floyd’ diariamente devido à grande violência infligida à população negra.
“A pandemia tornou nossas lutas mais complexas. Não é possível aceitar que a população negra sofra com esse genocídio. Morreremos pela pandemia, por negligência das políticas públicas e constantemente pela violência policial”, diz Áurea Caroline.
Preto Zezé complementa: “Quando um policial não se importa em pegar um fuzil e atirar no meio de vários barracos com famílias inteiras ali, ele também não se importa em quem vai atingir. Já temos que nos preparar para chorar pela vítima da violência. A população negra não é uma minoria. É metade da população”.
O presidente da CUFA argumentou que o momento atual irá testar quem realmente está agindo em prol da luta antirracista, uma vez que, no Brasil, essa luta dialoga com o combate às desigualdades.
“O combate ao racismo que todo mundo conhece e que ninguém pratica está ganhando espaço. No entanto, não tem como ser antirracista e não defender o SUS, a renda básica ou políticas sociais de proteção. Antes da pandemia, as favelas produziam R$ 120 bilhões em riqueza e poder de consumo. As favelas colocam o país para andar, mas não têm o direito de fazer parte da sociedade”.
Em relação às ações do Estado no combate ao novo coronavírus, os convidados observam um cenário de desassistência e abandono em relação às parcelas mais vulneráveis da sociedade. Para a deputada federal Áurea Caroline, o Brasil vem sendo empurrado para o pior cenário possível.
“Temos no Brasil a pior gestão da pandemia no planeta. Esse genocídio é responsabilidade direta do estado brasileiro. As políticas de saúde só não foram completamente arruinadas porque há um histórico de defesa delas.”
Ela ainda ressalta que o debate só andará se o racismo institucional, frequente na questão do atendimento que a população negra recebe na saúde, for colocado em pauta e abertamente debatido.
As ações de representantes do governo acabam, muitas vezes, legitimando ideias que alimentam o racismo e que ainda não foram superadas. Preto Zezé aponta que o país não conseguiu fazer uma boa quarentena e está falhando nesta reabertura disfuncional.
“É como montar um avião do céu, que não pode cair e com todo mundo a bordo. Se a adesão à máscara criou uma falsa sensação de proteção que permite a quebra do isolamento, imagina com a liberação de áreas econômicas”.
