Brasil: hospício tinha crianças rejeitadas e homossexuais como pacientes

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O Hospital Colônia, em Barbacena (MG), chegou a ser o maior hospital psiquiátrico do Brasil. O que muitos não sabiam na época é que 70% de seus pacientes não tinham nenhum diagnóstico de transtorno mental – eram apenas pessoas consideradas indesejáveis pela sociedade

No hospital psiquiátrico de Barbacena, crianças recebiam o mesmo tratamento que adultos / Créditos: Wikimedia Commons

Em 1979, o Hospital Colônia era o maior hospital psiquiátrico do Brasil. Quando o psiquiatra italiano Franco Basaglia visitou o local, ficou chocado com sua condição e declarou em uma coletiva de imprensa que tinha visitado um campo de concentração nazista.

Localizado na cidade de Barbacena, em Minas Gerais, o Hospital Colônia só poderia ser chamado de campo de concentração. Entre os anos de 1930 e 1980, foram contabilizadas 60 mil mortes no hospício.

As pessoas que eram enviadas para o hospital, a maioria à força, nem precisavam ser diagnosticadas com algum transtorno mental. Mais de 70% dos pacientes não sofriam com nenhuma doença do tipo. Eram crianças rejeitadas pelos pais por mau comportamento ou algum tipo de deficiência; filhos tidos fora do casamento; mulheres estupradas pelo patrão ou algum homem importante na época, com dinheiro suficiente para esconder o crime; epiléticos; alcoólatras; homossexuais. Tudo era motivo para enviar pessoas ao hospital.

Muitos elementos nessa história lembram o que acontecia com as vítimas do Nazismo. Um deles é o fato de que as pessoas eram enviadas para o hospital em um trem de carga, assim como os judeus eram levados para os campos de concentração durante a Segunda Guerra. O trem que os levava para o Colônia ficou conhecido como “trem de doido”.

Em 1961, o fotógrafo Luis Alfredo, da revista ‘O Cruzeiro’, foi o primeiro a divulgar os horrores que aconteciam no hospital, através das suas fotos. Os pacientes internados eram submetidos a todo tipo de tortura: eram violentados, passavam frio e fome. Nem roupas eram fornecidas para os pacientes, que andavam quase nus. Poucos conseguiam alguns trapos para se vestir. Em noites de frio, chegaram a ser registradas 60 mortes. As pessoas morriam de frio. Os corpos eram vendidos para faculdades de medicina na época. Tudo com a omissão do Estado.

Em 1979, o jornal Estado de Minas publicou a reportagem ‘Os porões da loucura’ e, no mesmo ano, foi filmado o documentário ‘Em nome da Razão’, de Helvécio Ratton.

Depois, o assunto só foi retomado em 2013, quando a jornalista Daniela Arbex lançou o livro ‘Holocausto brasileiro – Vida, Genocídio e 60 mil mortes no maior Hospício do Brasil’.

Em 2016, foi lançado o documentário ‘Holocausto Brasileiro’, produzido pela HBO e veiculado no canal fechado Max. O roteiro e a direção também têm a assinatura da jornalista, com ajuda na direção de Armando Mendz.

A barbárie que crianças, mulheres, homossexuais, pessoas com transtornos mentais e outras vítimas passaram no Brasil se compara aos horrores dos campos de concentração nazistas.

O Colônia foi fundado em 1903 e por oito décadas levou adiante o tratamento desumanizador.

Fonte: Aventuras na História