A mentalidade do futuro

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Imagem: Adobestock

Por Valdir Cimino e Mary Prieto

O pensamento prescreve ações, quer estejamos conscientes disso ou não. É a força daquilo que acreditamos que nos move a aceitar ou lutar contra determinadas questões humanas – que nunca são isoladas – e permanecer em constante transformação da percepção comum. Por isso a força do que acreditamos precisa ser firme.

Mais firme do que algumas sugestões ideológicas que passam e não vingam (tal qual o negacionismo científico ou políticas autoritárias e militares) e mais firme do que o cansaço perigoso que gera o conformismo.

“Que tempos são esses em que temos que defender o óbvio?” A pergunta feita por Bertold Brecht ecoa e nos parece familiar. Só nos últimos anos tivemos que defender que a terra é redonda, que a História nos currículos escolares importa, que a Amazônia é nossa e que a vacina salva vidas.

Cansaço e espanto? Sem dúvida. Mas continuaremos defendendo o óbvio tanto quanto for preciso, porque se trata de uma base encontrada com estudo e competência, a partir da qual queremos evoluir e jamais regredir, ainda que por vezes o óbvio demore para se tornar claro.

Quando, por motivos de força maior – como a pandemia – , alguns óbvios se tornam não só claros, mas urgentes, então não basta que sejamos firmes: precisamos ser também corajosos.

Está claro nesse momento que não há mais meios de sustentar arrogâncias ou pensamentos individualistas, e é urgente que os paradigmas do individualismo – em todo o seu funcionamento socioeconômico seja alterado para pensar no bem coletivo.

Para tanto, já estamos sendo corajosos em respeitar o isolamento, em adaptar rotinas de trabalho e mais ainda, a resistir em meio a tantas crises. Mas é preciso ainda mais: é preciso que a atividade mental esteja pelo menos parcialmente isenta do egoísmo, caso contrário, continuaremos no mesmo lugar, defendendo óbvios que sequer precisam de argumentos.

A mentalidade do futuro também pressupõe a compreensão de que somos parte do todo e não superiores ao inerente equilíbrio que está na natureza. Que a natureza, como organização exterior, reflete a estrutura e densidade manifesta do que criamos em pensamento.

Se estamos individualmente desequilibrados, como poderia a natureza estar em ordem? Os pensamentos necessitam então de um redirecionamento: parar de se guiar em termos de defesa e ataque – comportamento individualista – e não se deixar arrastar pelo ego, cujo objetivo é fortalecer apelos pessoais.

Isso posto, fica ainda mais claro que, de uma forma ou de outra, não temos mesmo como nos defender individualmente da ameaça que for (nem do vírus!) e que, precisando contar uns com os outros, estamos até agora semeando vento e colhendo tempestade.

A solução pode vir pelo pensamento que entende a força do seu lugar e criação, e usa isso como ferramenta de solidariedade. Continua Brecht, refletindo:

“Que tempos são estes, em que

é quase um delito

falar de coisas inocentes.

Pois implica silenciar tantos horrores!

Esse que cruza tranquilamente a rua

não poderá jamais ser encontrado

pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,

Mas acreditai-me: é pura casualidade.

Nada do que faço justifica

que eu possa comer até fartar-me.

Por enquanto as coisas me correm bem

(se a sorte me abandonar estou perdido).

E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!

Mas como posso comer e beber,

se ao faminto arrebato o que como,

se o copo de água falta ao sedento?

E todavia continuo comendo e bebendo.

(…)

As forças eram escassas. E a meta

achava-se muito distante.

Pude divisá-la claramente,

ainda quando parecia, para mim, inatingível.

Assim passou o tempo

que me foi concedido na terra.

(…)

E, contudo, sabemos

que também o ódio contra a baixeza

endurece a voz. Ah, os que quisemos

preparar terreno para a bondade

não pudemos ser bons.

Vós, porém, quando chegar o momento

em que o homem seja bom para o homem,

lembrai-vos de nós

com indulgência”.

Brecht diz com esperança: quando chegar o tempo. A questão é que o tempo já chegou e não espera. Atrasados estamos nós, em termos de humanidade, para combater muitos tipos de miséria, doenças e mortes.

Estamos atrasados porque também temos que defender o óbvio. Mas o mais óbvio e urgente agora é que temos que mudar a nós mesmos – sem defesas ou desculpas – para o bem do todo. E a pergunta que resta para que a mentalidade do futuro nos possa renovar e ajudar a progredir é: o que posso fazer de bom hoje que não seja só por mim?